O MEU GANGES

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É emocionante o coração materno do rio Ganges, especialmente quando abraça e acalenta no seu colo os milhões de fiéis que mergulham em suas águas durante o ritual do Kumbh Mela, o mais importante festival religioso do hinduísmo. Incontáveis flores e oferendas deslizam e enfeitam o seu voluptuoso corpo, contrastando com os corpos daqueles que são cremados em piras que se espalham por sua margem. Também impressiona a posterior fusão do rio com as cinzas que são apaixonadamente lançadas, fazendo crer que fora garantida a felicidade eterna para a alma que partiu.

 

Cada hindu acolhido sabe que a sua Mãe Gangá, a outra forma do rio, não negará o acalento buscado, assim como não negou descer do céu para trazer vida à terra indiana. Sabe também, como está escrito no Vixenu Purana, que os que se banharem em suas águas serão purificados e “libertados dos pecados cometidos durante as três existências prévias”. Até porque, como bem ensina o Bramadapurana: “Quanto aos que se banham devotamente uma vez nas puras correntes do Gangá, suas tribos são protegidas por Ela contra centenas de milhares de perigos. Males acumulados durante gerações são destruídos. Simplesmente por banhar-se no Gangá a pessoa é imediatamente purificada.”.

 

Não sem razão Buda fez do Ganges o seu canto mais sagrado, testemunha viva da sua própria existência. Não sem motivo a Mãe Gangá acolheu Gandhi como um dos seus prediletos filhos, prova exemplar do seu poder purificador. Não sem justificação os indianos pedem a sua benção, atestado maior da espiritualidade de um povo.

 

Embora não tenha ainda sido apresentado ao sagrado Ganges, fazendo do “ver-para-crer” o meu insuspeito guia, não posso contestar os fortes argumentos sacados pelos adorados hindus. Um pouco porque o hinduísmo é uma das mais antigas, sólidas e seguidas religiões do mundo. Muito, paradoxalmente, em razão da minha própria experiência, adquirida, no velho e bom estilo de São Tomé, desde o tempo em morei na minha querida cidade de Propriá.

 

É que também os propriaenses têm um rio sagrado em suas vidas, dedicando e agradecendo a ele por sua cidade ter ali nascido. O rio que banha e purifica os ribeirinhos atende pelo nome de São Francisco ou, como diz os mais íntimos, o velho e querido Pai Chico.  Foi o Velho Chico quem trouxe para a pequena freguesia que despontava no Morro do Urubu de Baixo os primeiros habitantes, assim como os alimentou com seus fartos e imprescindíveis peixes. Foi o Pai Chico quem abençoou os primeiros passos daquela nascente cidade, fazendo deslizar por suas águas canoas e barcos recheados de pescadores, negociantes e famílias em busca de uma bela morada.

 

Os demais ribeirinhos, dádivas do mesmo Pai, sabem a importância purificadora das águas que margeiam as suas vidas. Sabem que suas cidades morrerão se um dia ele resolver voltar para o céu, desgostoso do tratamento recebido. Sabem que seus filhos não terão sobrevida ou vida decente se ele cismar em negar a sua proteção, mesmo porque já é indecente a seca que teima sugar a esperança aguerrida.

 

Mas, infelizmente, nem só a adoração, o reconhecimento e o respeito cruzam as águas do Pai Chico. A ganância de alguns tem desafiado a imortalidade do rio, fazendo com que já externe sinais de impaciência, cansaço e dor. Represas e usinas interrompem, sem qualquer explicação lógica, o seu livre andar, matando-o da mesma forma cruel com que a poluição tolhe o seu respirar e o desmatamento inescrupuloso o faz diariamente definhar.

 

Pena que nem todos tenham uma Mãe Gangá ou um Pai Chico para purificar as suas vidas, mergulhando em suas águas nos momentos de aflição. Pena que a cobiça patrimonial vede o olhar daqueles que já foram abençoados pelo Velho Rio, impedindo-os de ajudar na sua recuperação. Pena que a ambição política seque a razão dos que foram eleitos para proteger o São Francisco, transformando-os em patrocinadores de um assassino projeto de transposição de suas águas, sem destinar qualquer esforço para que se inicie a sua urgente revitalização.

 

Não sei se um dia conhecerei a Mãe Gangá venerada pelos hindus, tampouco sei se ele me acolherá em suas águas se o destino permitir a apresentação. Sei apenas que o Pai Chico adorado pelos nordestinos está pedindo ajuda a seus devotos, antes que morra diante do olhar insensível da ambição. O Ganges da minha vida, o que conheço sagrado, desesperadamente pede socorro.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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