O sertão não vai virar mar – Marcos Cardoso

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“O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. A profecia atribuída a Antônio Conselheiro e popularizada na música “Sobradinho”, de Sá e Guarabira, não se materializará. Não pelos desígnios supremos, mas por força da interferência do homem mesmo. A segunda parte do terrível relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), da ONU, fechado na semana passada em Bruxelas após uma apaixonada discussão, conclui que o aquecimento global provocará, num futuro próximo, dentre tantos danos, a transformação do sertão nordestino em deserto.

O documento, resultado de uma semana de debates entre 400 especialistas de mais de 100 países sobre 28 mil dados científicos copilados de todo o planeta, foi amenizado por cientistas de nações altamente poluentes, como Estados Unidos, China e Rússia. O futuro pode ser bem mais cinzento. A previsão mais pessimista é que aquecimento global será devastador para a Terra. É de se antever, portanto, que as mudanças climáticas afetarão os sergipanos como um todo, por causas diretas e indiretas.

Com a elevação do nível do mar, por exemplo. Como no mundo tudo se interliga, há uma interdependência de sistemas e biomas, o derretimento das geleiras nas montanhas e nos pólos faz os oceanos subirem, ameaçando a vulnerável costa sergipana. Cidades litorâneas como Pirambu, Barra dos Coqueiros, Aracaju e até Brejo Grande — à margem do rio São Francisco, mas próxima do Atlântico — poderão simplesmente desaparecer, numa previsão mais sombria. Pequenos países-ilhas do Pacífico já estão sofrendo esse tipo de ameaça.

Subindo, o mar avança sobre os leitos dos rios. No São Francisco, onde essa pressão oceânica já é perceptível, a água salgada poderia facilmente chegar à área de captação de adutoras, como a que abastece Aracaju e que é responsável por mais de 50% da água doce que chega às torneiras da capital. Uma equação de difícil solução: mais calor e menos água potável. Os cientistas concluíram que mais de 1 bilhão de pessoas poderão sofrer com a falta de água em um futuro próximo. E, como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, as populações mais pobres do mundo serão as mais afetadas pelo aquecimento global.

Previsões catastróficas

 # Passando de zona semi-árida a zona árida, no Nordeste as conseqüências dessa mudança afetarão a alimentação, sanidade e saúde da população local. Resultado da falta de água potável, má alimentação e sanidade precária ou inexistente, uma simples diarréia, por exemplo, poderá matar muita gente.

# Enquanto o Nordeste morre de sede, o Sul se inunda. A ONU alerta para problemas de inundações na região do rio da Prata, ao sul do continente americano.

# A mudança climática também terá impacto sobre a produção agrícola da região Sudeste.
São Paulo perderá uma importante área de cultivo de café, inutilizada por causa do aquecimento.

# O derretimento precoce da camada de gelo de grandes cadeias de montanhas, como o Himalaia e os Andes, reduzirá a oferta de água na Ásia e na América do Sul. As geleiras funcionam como reservatórios, acumulando água em forma de gelo durante o inverno para liberá-la gradualmente com o derretimento no verão. De acordo com os cientistas, até o final do século, 75% do gelo dos Alpes poderão ter desaparecido.

# O relatório também prevê que, se a temperatura global subir mais de 1,5º C em relação aos índices de 1990, os ecossistemas regionais mudarão a ponto de levar à extinção de cerca de 30% das espécies de animais e plantas do planeta.

# O aquecimento global pode levar ao desaparecimento de 10% a 25% da floresta amazônica até 2080. Há 50% de probabilidade de que a floresta dê lugar a uma vegetação de cerrado. A extensão dessa transformação vai depender de quanto a temperatura global subir.

# Há determinadas zonas geográficas e ecossistemas mais vulneráveis a este fenômeno, entre eles recifes de corais, pólos, tundra, florestas boreais e regiões mediterrâneas.

# O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas cita o aumento das mortes durante as ondas de calor, a extensão das doenças tropicais, as ameaças aos habitats indígenas, o risco crescente de incêndios florestais e o desaparecimento de muitos sistemas biológicos.

# A OMS (Organização Mundial de Saúde) alerta que as mudanças climáticas esperadas por cientistas devem levar ao crescimento das ocorrências de desnutrição e de doenças infecciosas e respiratórias, com efeitos sobretudo para as crianças. A OMS usa, como “primeiro exemplo alarmante”, a morte de 35.000 pessoas na Europa por causa da onda de calor em 2003.

# Tomar medidas para a adaptação das sociedades — como sistemas de proteção contra doenças, cheias ou secas, até então consideradas eficientes — já “não serão suficiente para fazer frente a todos os impactos esperados do aquecimento global”, alerta o documento.

Em maio, na Tailândia, o IPCC divulgará a terceira parte, que abordará as formas de impedir o aumento da concentração de gases nocivos ao ambiente. Está previsto que o painel se reúna em Bangcoc e em Valência, Espanha, em novembro, onde apresentará uma síntese do trabalho para levar aos governos dos países envolvidos.

Correio 

“O seu artigo sobre D. José Vicente Távora repercutiu na Academia Sergipana de Letras, na sessão desta segunda-feira (2). Parabéns. Você transmitiu os sentimentos de todos aqueles sergipanos que enalteceram D. Távora como um grande representante da Igreja Católica Apostólica Romana. Ético, tolerante, culto e acima de tudo progressista.”

Anderson Nascimento, presidente da ASL.

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