O TREM DA VIDA

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Não se pode negar a precisão e a organização do Trem da Vida, com a sua enorme capacidade de acomodar a todos nos seus mais amplos e diferentes vagões. O velho e o novo, o triste e o alegre, o pobre e o rico, o pacífico e o violento, o esperançoso e o desiludido, todos, indistintamente, são os passageiros compulsórios do garboso Trem. Não importa sequer o sexo, a religião ou a cor do transportado, o Trem foi planejado com tecnologia de primeiro mundo, embora com algumas acomodações mais confortáveis e luxuosas do que outras. Neste sentido, é mesmo bom esclarecer que, ao menos no requisito igualdade de condições dos transportados, o Trem da Vida não é um primor de Justiça distributiva. Seus primeiros e mais luxuosos vagões são infinitamente mais luxuosos e confortáveis do que os últimos, embora sejam aqueles destinados a uma pequena minoria de passageiros, quase sempre da mesma cor, sangue e poder aquisitivo. Mais ainda, nos privilegiados vagões o serviço de bordo é farto e de qualidade, não faltando mimos para tornar a viagem o mais agradável possível, carinhos estes não encontrados ou subtraídos dos demais passageiros. Mas gosta O Maquinista, talvez para quebrar a monotonia de sua vida eterna, de aprontar algumas pegadinhas com os seus transportados. Uma de suas preferidas é misturar as tribos assentadas em cada vagão, fazendo com que uma prove do sabor ou dissabor da outra, não lhes oferecendo a oportunidade de trocar de assento. Outra das suas brincadeiras prediletas, aperfeiçoando o seu experimento, consiste em colocar no vagão de uma tribo apenas um membro da outra, ficando a aguardar a reação que causará a presença do intruso. Sabe-se que da mistura, não raro, conflitos inconciliáveis têm sido colhidos nos vagões, alguns encurtando precocemente a viagem de vários passageiros, outras quase destruindo o próprio Trem. Observa-se ainda que as tribos mais raivosas, estranhamente, falam com perfeição a amorosa língua da religião, usando constante e fartamente o nome de Deus, mesmo quando jogam pela janela um ou outro penitente dissidente. Não ficavam atrás em violência os que se julgam donos do próprio vagão; quer seja por acreditarem que adquiriam o lugar por desejo divino; quer seja porque a alvura de suas peles os fazem se sentir superiores; quer seja porque o sexo que balança entre as pernas é entendido como sinônimo de poder. O consolo é saber que a mistura não resulta em apenas guerras, destruições, ódios e preconceitos, pois também tem permitido o nascimento de novas formas de relacionamento humano. Casais de idades, cores e sexos diferentes ou semelhantes se formam harmônica e amorosamente, enfrentando e destruindo pacificamente os preconceitos e conflitos que constantemente os ameaçam. Nestes vagões, culturas, raças e religiões se aceitam fraternalmente, proclamando a possibilidade da igualdade permanecer viva e parceira da diversidade. Suspeita-se, hoje, que O Maquinista também gosta de promover a mistura por outras razões, pois parece que goza mais visivelmente quando sente que a paz reina no vagão que aceita a mistura por ele arquitetada, especialmente quando acolhe o amor que une e torna iguais os fisicamente diferentes, demonstrando que a idade, o sexo ou a cor do corpo é mero detalhe em uma relação efetivamente amorosa. Parece que adora quando todos conseguem cantar alegremente uma mesma oração, fazendo parte do coro até aqueles que não professam qualquer religião. Pouco importa se por gozação ou deliberado querer d’O Maquinista, o certo é que misturar os passageiros tem sido a melhor das alternativas, mesmo quando se corre o risco de eventuais revoluções, guerras e conflitos. Se a inclusão é melhor que a exclusão, se a interação é mais justa que o isolamento, se a igualdade de tratamento é mais nobre do que a discriminação, nada é melhor do que estimular a mistura. E quem provou do doce sabor da mistura, sabe que o Trem da Vida somente trilhará altivo e justo quando o egoísmo, o ódio, o preconceito e a desigualdade deixarem de ser servidos nos mais privilegiados vagões. * Cezar Britto é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear. cezarbritto@infonet.com.br

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