Demóstenes corrigia a própria gagueira
Há alguma coisa mudando no mundo político ocidental.
A direita avança em muitos lugares; recua em outros. A esquerda perde terreno aqui, recupera-o acolá. Governos que ontem pareciam inexpugnáveis descobrem, de repente, aquilo que todo regime democrático deveria saber desde o primeiro dia: eleitor não constitui patrimônio perpétuo de partido algum.
É a velha sístole e diástole das democracias.
Talvez seja exatamente isso que esteja sendo esquecido.
A vitória recente da AfD na Saxônia-Anhalt, na Alemanha, causou compreensível sobressalto. O partido alcançou aproximadamente 44% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. Não conseguiu maioria absoluta, mas produziu resultado que, há poucos anos, pareceria politicamente inimaginável.
E é justamente a Alemanha que torna o fenômeno particularmente sugestivo.
Ali nasceu, cresceu e governou o Nacional-Socialismo de Adolf Hitler.
Ali se implantou uma ditadura responsável por crimes gigantescos, pelo Holocausto e por uma guerra devastadora.
Seria, portanto, difícil encontrar sociedade ocidental mais educada durante oito décadas para temer qualquer reaparecimento do extremismo de direita.
E, apesar disso, uma parte enorme do eleitorado alemão acaba votando num partido classificado por seus adversários — e por instituições alemãs — como extrema direita.
Que conclusão tirar daí?
Certamente não a de que quarenta e tantos por cento dos eleitores da Saxônia-Anhalt acordaram desejosos de restaurar Hitler.
Tal conclusão seria apenas uma nova forma de preguiça intelectual.
Talvez esteja acontecendo algo mais interessante: a utilização permanente do nazismo como argumento de interdição contra a direita contemporânea começa a perder eficácia eleitoral.
Não porque os crimes do nazismo tenham deixado de ser crimes.
Mas porque o eleitor parece estar aprendendo a distinguir Adolf Hitler de todo político que discorde das políticas migratórias, ambientais, culturais ou identitárias hoje dominantes.
Durante muito tempo bastava pronunciar determinadas palavras.
“Extrema direita.”
“Fascismo.”
“Autoritarismo.”
“Perigo para a democracia.”
E uma discussão inteira podia ser encerrada antes de começar.
Agora parece que o eleitor pergunta:
— Está bem. E quanto à imigração?
— E quanto à insegurança?
— E quanto à economia?
— E quanto ao preço da energia?
— E quanto à soberania nacional?
— E quanto ao meu direito de discordar sem que alguém diagnostique uma doença moral em mim?
É aí que começa a dificuldade.
Porque a esquerda contemporânea fala muito.
Fala quase incessantemente.
Professores falam. Artistas falam. Jornalistas falam. Universidades falam. Organizações internacionais falam. Celebridades falam. Especialistas falam.
Todos explicando ao eleitor aquilo que o eleitor deveria compreender.
O problema é que o eleitor, atrevido, começa a não obedecer.
E o sermão vai ficando cada vez mais parecido com o de Santo Antônio aos Peixes.
Com uma diferença humilhante para os pregadores modernos:
Padre Antônio Vieira sabia que estava falando aos peixes.
Eles ainda imaginam estar falando ao povo.
Talvez lhes fosse mais útil recordar Demóstenes.
Segundo a tradição, o grande orador ateniense tinha dificuldades de dicção. Em vez de reclamar da plateia, tratou de corrigir a própria fala. Exercitava-se diante do mar e colocava pequenos seixos na boca, procurando vencer simultaneamente a gagueira e o estrondo das ondas.
Há grande sabedoria política nisso.
Demóstenes não culpava o mar.
Não declarava as ondas fascistas.
Não dizia que o Egeu ameaçava a democracia.
Não convocava um congresso internacional para investigar por que as águas se recusavam a ouvi-lo.
Corrigia Demóstenes.
Certas esquerdas modernas fazem exatamente o contrário.
Se o eleitor não compreende, corrigem o eleitor.
Se discorda, reeducam-no.
Se persiste em discordar, classificam-no.
Se ainda assim vota errado, passam a suspeitar da própria democracia.
E então aparecem os livros explicando “Como as Democracias Morrem”.
O livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, professores de Harvard, publicado em 2018, surgiu no ambiente de profunda preocupação provocado pela primeira presidência de Donald Trump. Sua tese central é séria: democracias contemporâneas podem ser corroídas gradualmente por governantes eleitos, mediante enfraquecimento de instituições e normas, sem necessidade de tanques nas ruas. (Centro Weatherhead)
Convém lê-lo.
Convém também não o transformar em Evangelho segundo Harvard.
Porque desde então aconteceu algo curioso.
Trump disputou a reeleição em 2020.
Perdeu.
Joe Biden assumiu.
Quatro anos depois, Trump tornou a disputar a Presidência, venceu novamente e teve sua vitória formalmente certificada pelo Congresso. (Reuters)
A democracia americana não morreu porque Trump venceu em 2016.
Também não ressuscitou porque perdeu em 2020.
E não morreu automaticamente outra vez porque retornou ao poder em 2025.
O que aconteceu foi algo muito menos cinematográfico e muito mais democrático:
o eleitor mudou de ideia.
Depois mudou outra vez.
É disso que eleições são feitas.
É claro que instituições podem ser atacadas. É claro que líderes eleitos podem apresentar tendências autoritárias. O assalto ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 mostrou que perigos democráticos não são fantasias acadêmicas.
Mas uma advertência não deve converter-se numa profecia automática segundo a qual toda vitória eleitoral do adversário anuncia o fim da civilização.
Curiosamente, a Hungria oferece agora a demonstração contrária.
Viktor Orbán governou durante dezesseis anos e tornou-se símbolo internacional da chamada direita “iliberal”. Para alguns analistas, era quase a personificação europeia daquela morte lenta das democracias descrita por Levitsky e Ziblatt.
Pois Orbán perdeu a eleição de abril de 2026.
Péter Magyar e seu partido Tisza venceram.
E Orbán saiu.
A suposta autocracia revelou possuir ainda uma característica curiosamente democrática: eleições capazes de derrotar o governante. (Reuters)
Eis a sístole e a diástole.
Hoje ganha a direita.
Amanhã poderá ganhar a esquerda.
Na Suécia, por exemplo, justamente quando se escreve sobre a irresistível marcha mundial da direita, pesquisas apontam o bloco de centro-esquerda à frente para a eleição deste setembro. (Reuters)
Isso deveria produzir menos apocalipse e mais modéstia.
Democracia não é ganhar sempre.
É sobretudo admitir que se pode perder.
Também convém alguma cautela histórica quando se invoca Hitler a cada eleição contemporânea.
Hitler não foi simplesmente escolhido pela maioria absoluta dos alemães numa eleição livre e, depois, rejeitado por essa mesma maioria.
Nas eleições de julho de 1932, os nazistas obtiveram 37,3% dos votos e tornaram-se o maior partido do Reichstag. Em novembro caíram para cerca de 33%. Hitler foi nomeado chanceler por Hindenburg em janeiro de 1933 dentro de uma operação política conduzida por conservadores que imaginavam poder controlá-lo. Depois de chegar ao poder, o regime destruiu progressivamente as condições de competição democrática. (Enciclopédia do Holocausto)
Na Prússia, o apoio nazista também foi expressivo: nas eleições estaduais de abril de 1932, chegou a cerca de 36%. (Enciclopédia do Holocausto)
Hitler não terminou seu governo derrotado numa eleição.
Terminou derrotado numa guerra.
Mas exatamente por isso não é possível saber como um eleitorado submetido durante doze anos a uma ditadura de partido único teria votado, em liberdade, em 1944 ou 1945.
A História não permite esse plebiscito imaginário.
Permite, porém, outra discussão: até onde vai a culpa de um regime, até onde vai a culpa dos que colaboraram com ele e em que momento começa a injustiça de transmitir culpa política de geração em geração.
É nesse terreno que O Leitor, de Bernhard Schlink — e sua adaptação cinematográfica — se torna especialmente provocativo.
Hanna Schmitz foi guarda da SS e participou de crimes. Não é inocentada pela narrativa. Mas o processo em que aparece expõe também a terrível dificuldade de individualizar responsabilidades quando toda uma sociedade posterior procura compreender a culpa de seus predecessores.
Hanna acaba assumindo responsabilidade específica por um relatório que não poderia ter escrito porque escondia um segredo que lhe parecia ainda mais vergonhoso: era analfabeta.
O filme não absolve o nazismo.
Faz pergunta muito mais inquietante: como julgar indivíduos dentro de uma culpa histórica que ameaça transformar-se em culpa coletiva? (Revista da Academia Americana de Psiquiatria e Direito)
Hannah Arendt produziu incômodo semelhante em “Eichmann em Jerusalém”.
Ela não absolveu Eichmann.
Ao contrário: acompanhou um julgamento cujo desfecho condenatório não considerava injustificável.
Mas incomodou profundamente muita gente ao recusar a representação confortável do acusado como um monstro metafísico.
Enxergou nele algo talvez mais perturbador: um burocrata medíocre capaz de participar de um sistema monstruoso — daí sua famosa formulação sobre a “banalidade do mal”.
E também atacou o caráter teatral de partes do julgamento.
A própria disposição da sala lhe pareceu feita como um teatro. E registrou que a tradução simultânea alemã, justamente aquela destinada ao réu e à defesa, era frequentemente tão ruim que chegava a tornar-se incompreensível.
Pesquisas posteriores confirmam que houve problemas e erros de interpretação durante as sessões, embora os principais protagonistas do processo dominassem o alemão e por vezes recorressem diretamente a ele. (newyorker.com)
Essa observação não absolve Eichmann.
Mostra coisa diferente:
Aty o julgamento de um culpado deve preocupar-se em não transformar justiça em liturgia.
Porque democracia, afinal, não consiste em condenar somente aqueles de quem gostamos de condenar.
Consiste em aplicar regras também quando o réu nos repugna.
E talvez a esquerda contemporânea pudesse transportar essa mesma prudência para o terreno político.
O adversário não precisa ser inocente de todos os defeitos para ter direito a existir.
A direita pode errar.
Pode exceder-se.
Pode governar mal.
Pode perder eleições.
Orbán acaba de demonstrá-lo.
E a esquerda pode vencer novamente.
É o jogo.
O problema surge quando uma das partes passa a acreditar que sua derrota não significa alternância, mas catástrofe; que sua vitória representa democracia, enquanto a vitória do outro constitui ameaça à democracia.
Isso já não é democracia.
É uma doutrina de direito divino com urnas eletrônicas.
Talvez por isso tantos discursos progressistas estejam progressivamente perdendo ouvidos.
Não porque o eleitor tenha ficado necessariamente mais ignorante.
Talvez porque tenha ficado cansado de ser informado, a cada eleição, de que somente uma escolha é moralmente admissível.
Demóstenes conhecia método diferente.
Quando não conseguia falar adequadamente, não amaldiçoava os ouvintes.
Colocava um seixo na boca e treinava.
Certas esquerdas contemporâneas, contudo, parecem ter desenvolvido gagueira muito mais resistente.
Continuam pronunciando as mesmas palavras — fascismo, extrema direita, ameaça, autoritarismo — mesmo quando parcela crescente do público já não reage como deveria.
Talvez um seixo seja pouco.
Talvez precisem realmente de um granito.
Quem sabe de um paralelepípedo inteiro.
Não para lançá-lo contra o adversário — dessa tentação já padecem bastante —, mas para colocá-lo metaforicamente no próprio palato e aprender novamente a difícil arte democrática de convencer.
Porque quem se julga proprietário da verdade deixa de argumentar.
Quem deixa de argumentar passa a pregar.
Quem prega sem ser ouvido termina falando aos peixes.
E quem, depois disso, culpa os peixes talvez jamais tenha entendido Demóstenes.
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