O perseguidor.
Em “Les miserables”, Victor Hugo traça seu personagem mais sinistro.
O inspetor plenipotenciário, Javert, supera em maldade até mesmo o casal Thenardier, figuras exemplares não tão incomuns, por excedente poltronaria e total ausência de caráter.
Os Thenardier sobrevivem aplicando todos os golpes, qualquer um, sobretudo quando tira proveito das carências dos desvalidos, farejando-lhes a menor dificuldade, para dela explorar um aproveito, igual aos abutres na carniça, golfando sofregamente que o melhor da proteína, qualquer uma, é quando ela vem fedida, valendo o gozo que a rumina.
Do ruminar da senhora Thenardier, o proceder não lhe enaltece qualquer traço de maternidade.
Teria ela amamentado em carinho a sua prole? Talvez sim, talvez não tanto…
Não lembro e não creio, as palavras traçadas por Hugo já me soam tão distantes!
De seu ventre, contudo, contrariando até mesmo o próprio Evangelho, que afirma ser muito difícil, quase impossível, saírem bons frutos de uma árvore má, dali saíram a doce Eponine e o garoto Gavroche, que se revelariam os heróis maiores nas barricadas revolucionarias, imortalizadas inclusive, na épica pintura de Eugene Delacroix.
Naquele painel famoso, assaz visitado no Museu do Louvre, o genial Eugene enaltece Eponine, desfraldando a bandeira tricolor, representando a liberdade conduzindo o povo, acima das barricadas revoltadas, tendo o travesso Gavroche a seu lado.
Se lembro pouco da mamãe Thenardier, o pai fora na juventude um soldado que fugia da luta nos campos de Waterloo (1815) para realizar uma rapace repescagem nos bolsos dos seus colegas mortos, e qualquer um de uniforme distinto, que possuísse algum alforje a carecer bom esvazio.
Como o acaso é tão vadio quanto se faz baldio, aquele diligente batedor de carteira, indiferente a dois exércitos que se enfrentavam em feito heroico, ali fugia da luta para dela tirar proveito, qual seja; “aliviar” os bolsos dos caídos, apropriando-se de seus pertences.
Aconteceu então, que em pleno furto dos pecúleos de um finado, o pretenso defunto se mexeu, dir-se-á; ressuscitou, e o Thenardier num repente virou herói, ideal salvador de um figurão importante, um Gentil-homem Pontmercy, com direito a medalha e honraria, como soez acontece na vida comum, quando a esperteza rouba a cena e deturpa o feito, exaltando muita fama e galhardia, sem nenhuma valia ou valentia.
Deixemos, porém, a vilania dos Thenardier, o meu tema é inspirado em Javert, o perseguidor implacável de Hugo, sobretudo quando vejo muita gente o imitando, nesses novéis tempos de muita “caça aos fascistas”.
A lembrança e o comparo me chegam porque o Inspetor Javert tem um Pensamento absolutista. Ele não enxerga zonas cinzentas.
Se para Javert o mundo se divide entre honestos e criminosos, para os seus atuais imitadores, o mundo, e em particular o Brasil, se divide entre “democratas”, amantes ternos da democracia, e seus inimigos demos vindos todos dos infernos: os “fascistas”, hoje travestidos de “bolsonaristas”, praga trevosa e perigosa a ser caçada e espicaçada, para a qual a lei não pode lhe ser invocada como instrumento de justiça. Ela tem que ser a própria justiça e implacável!
Nascido num ambiente marginal, filho de uma cartomante e criado próximo às prisões, Javert desenvolve profundo horror à criminalidade.
Ele vê desde a infância os presos nas galés acorrentados, sofrerem todo tipo de sevícias, privações e torturas, se brutalizando e se desumanizando progressivamente…
Reconhecendo a escória de onde vinha dizia para si mesmo, a título de psicologia e compensação: “Não serei aquilo de onde vim.”
Se a lei se transformara em sua religião pessoal, o Javert hodierno, por lembrança de um padecimento passado, acontecido ou historiado, tem como missão uma vendeta pessoal de cassar o de não seu agrado, encarando-o como um seu “fascista”, por melhor escolha, para fazê-lo sofrer igual sem dor e piedade.
Para Javert não existe nenhuma trégua paga para o erro.
O se drama pessoal se choca com Lean Valjean, o herói da trama.
Valjean deveria ser: criminoso; perverso; irrecuperável. Conhecera-o pagando infindos trabalhos forçados porque roubara um pão.
Quem rouba um pão para matar a fome é capaz de tudo; não é mesmo?
É preciso afastá-lo da sociedade perpetuamente submetendo-o sobre correntes…
Valjean, todavia, se revela generoso; corajoso; e pior: moralmente superior ao próprio policial. Igual a Bolsonaro, perante tantos seus inimigos e torturadores.
Javert não consegue integrar essa contradição.
Sua crise não é emocional: é lógica.
Quando percebe que um ex-presidiário pode ser mais virtuoso que um agente da lei, seu universo desmorona.
Interessante é que mesmo Javert, redescobrindo sempre Valjean fazendo o bem em variados personagens em sua fuga sem fim, horas como Jean Guindaste, por sua força fantástica, horas como o alcaide caridoso Monsieur Madeleine, horas como o jardineiro Fauchelevent, horas como Monsieur Leblanc ou Urbaine Fabre, sempre honesto apolíneo e querido, tornando o mundo melhor na sua passagem, na outra ponta, o perseguidor só carrega frustrações no seu tresloucado prosseguir, a ponto de preferir dar um termo definitivo a própria vida, justo depois de tê-la sido poupada, por aquele que todos motivos teria para ser seu algoz, num dos episódios quase finais das barricadas revolucionárias.
Se Javert findou jogando-se ao Sena, como Judas, arrependido, não há remorso ainda em tantos perseguidores insaciáveis do Bolsonaro.
E este virando, cada vez mais, enaltecido pelas multidões: Mito! Mito! Mito!
Até quando, meu Deus!
Comentários estão fechados.