Parto difícil

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Nove meses depois e após um parto complicado por interferências diversas, nasceu o tão aguardado novo emprego de José Eduardo Dutra. Ele que já esteve no céu que é o Senado e no paraíso que é a presidência da Petrobras, agora tem que se contentar com a terrena direção da BR Distribuidora. Não é nada, não é nada, a subsidiária da estatal é responsável pela maior logística de distribuição de combustíveis do país — dos postos BR aos Ipiranga, dos próprios lubrificantes aos da marca Agip, além de biodiesel e gás veicular. Faturou R$ 48 bilhões em 2006, quando lucrou R$ 580 milhões. E, o que Zé Eduardo queria mais do que tudo, a sede fica no Rio de Janeiro.

Desde o começo do segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva que o compadre Marcelo Déda o assediava pedindo uma colocação para o companheiro que tinha acabado de perder a eleição e a chance de voltar ao Senado. Mas Lula, sabe como é, cada vez mais enredado nessa teia de interesses formada pelos partidos políticos que o cercam, além dos próprios interesses governamentais e de petistas, foi empurrando com a barriga. O ideal seria o retorno à presidência da Petrobras, mas o baiano Sérgio Gabrielli está lá desde que Dutra saiu em meados de 2006 e se fortaleceu no cargo com a eleição de Jaques Wagner para o governo da Bahia. Falou-se também em ministério, mas aí a briga é quase genocida. Então, a presidência da Petrobras Distribuidora S.A. acaba sendo muito bem-vinda.

Em agosto, Lula já havia garantido a Déda que Zé Eduardo iria para a BR. Quando esteve aqui no início deste setembro, para o batismo da plataforma Piranema, o presidente, após ouvir uma cobrança pública meio teatralizada por Déda, Lula admitiu publicamente pela primeira vez que o ex-presidente da Petrobras voltaria ao seu governo, mas não podia confirmar ainda o posto. Nesse caso, não podia interferir em questões de mercado, como também não podia demitir a então presidenta da empresa, Maria das Graças Foster, que estava presente à solenidade no Teatro Tobias Barreto.

Finalmente, o Conselho de Administração da Petrobras aprovou na reunião de sexta-feira o nome de José Eduardo de Barros Dutra para presidir a BR, no lugar de Maria das Graças, que ocupará a diretoria de Gás e Energia, em substituição a Ildo Sauer. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que tem ainda muita ascensão sobre o Ministério das Minas e Energia, não queria a indicação de Zé Eduardo, mas acabou se dando por satisfeita com a demissão de Ildo Sauer, este sim, um notório adversário dela.

 

PT, PMDB E PALACIANOS QUERIAM A BR — O certo é que havia nos bastidores do governo uma guerra aberta por causa do comando da BR Distribuidora. Três correntes disputavam a indicação para a presidência da estatal: PT, PMDB e um grupo do Planalto e da companhia que preferia um nome técnico para o cargo. Enquanto os petistas já haviam fechado questão em torno de Zé Eduardo, o PMDB trabalhava duro para indicar o ex-deputado e ex-governador do Rio, Moreira Franco. Outro nome cotado para o cargo era o do atual diretor de Mercado Consumidor da BR, Marco Antonio Vaz Capute, que era o candidato de Dilma Rousseff e de Maria das Graças.

A justificativa da ministra e aliada era evitar o loteamento político da companhia distribuidora. Este é um problema que Zé Eduardo terá logo que enfrentar, como também as divisões internas, pois gerentes e funcionários da estatal também torciam pela indicação de Capute, diretor responsável pelos grandes clientes que compram diretamente da BR, como empresas de aviação, transportadoras e outras. Capute já era diretor da BR na gestão FHC e mantém-se no posto desde o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas contou a favor de José Eduardo Dutra a “dívida” que Lula tinha com o seu compadre Déda e o fato de ter saído bem-avaliado da presidência da Petrobras, cargo que ocupou durante três anos.
A distribuidora estatal sempre encheu os olhos de políticos pelos seus contratos bilionários de compra de álcool e suas encomendas também vultosas, ainda mais agora depois da aquisição das operações da Ipiranga nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A Petrobras Distribuidora foi criada no dia 12 de novembro de 1971 e, em 1974, no terceiro ano de vida, já havia assumido o posto de maior distribuidora de derivados do petróleo do país, exercendo sua função em condições de igualdade com as demais distribuidoras e superando concorrentes nacionais e estrangeiras.
A posição de liderança no setor se mantém até hoje e pode ser confirmada através da considerável estrutura construída pela Petrobras Distribuidora. Hoje, são mais de 7.200 postos de serviços, constituindo a maior e única rede de postos presente em todo o território nacional. Além de mais de 10 mil grandes clientes entre indústrias, termoelétricas, companhias de aviação e frota de veículos leves e pesados. A BR tem por objetivo, além da distribuição, do comércio e da industrialização de produtos de petróleo e derivados, atividades de importação e exportação. Atenta a novas oportunidades de negócios, a companhia vem desenvolvendo parcerias para a implantação de unidades térmicas a gás natural para fornecimento de energia elétrica.

Tomara que a chegada de Dutra à BR Distribuidora seja boa para Sergipe, como foi quando ele passou pela Petrobras.

 

Correio

“Seu comentário de domingo (16 de setembro) é um resgate magistral do tempo em que jornalismo se fazia com ética e desassombro. A parte final, então, transcrevendo os disparates do senador Almeida Lima, está impecável: sem sujar as mãos batendo, permitiu ao desastrado que se autoflagelasse. Sergipe lhe agradece (tenho certeza de que a maioria pensa assim) por ter transformado sua coluna num canal de nossa indignação contra esse monte de corruptos”.

Paulo Fernando Teles Morais, jornalista e escritor.

 

“Parabenizo-o pelo seu artigo do último domingo, embora tenha divergências quanto as conclusões, até porque, sendo um profissional do direito com absoluta formação jurídica, para mim o que não está no processo não está no mundo. E sem a prova plena não há condenação justificável. Fui um homem público com longa vida nas atividades do Estado, e graças a Deus de tudo não guardo triturações na consciência”.
Manoel Cabral Machado, ex-governador, professor aposentado da UFS, escritor.

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