PERIGO NA FLORESTA: JABOTIS NAS ÁRVORES…

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Constatamos cada vez mais a importância dos verdadeiros líderes em todos os cenários da sociedade. Ao mesmo tempo em que percebemos essa importância, nos deparamos também com o despreparo e até a atitude simplória assumida por muitos dos pretensos líderes do nosso país. Nesse momento constatamos o quanto à verdadeira preparação e educação da liderança se faz necessária e é importante para a construção de uma verdadeira sociedade.

 

Muitos indivíduos já nascem com o atitudinal de liderança a flor da pele, outros precisam de ajuda para desenvolve-los, mas infelizmente muitos passam a vida toda e não conseguem sequer notar que poderão, se realmente quiserem, fazer a diferença nas suas vidas.

 

Gosto de uma frase famosa do Peter Drucker: “Se você não construir o seu próprio futuro, com certeza alguém irá construí-lo para você”. Infelizmente, para uma maioria de pessoas “inocentes” essa é uma frase 1000% verdadeira, muitos de nós passamos e vivemos toda a nossa vida ‘a mercê de um futuro que foi construído para nós: pode ter sido pelos nossos pais, pelos nossos mestres ou professores, mas que na realidade deveria ter sido construído por nós mesmos.

 

E isso acontece justamente porque não percebemos o quão importante é resgatarmos a nossa autoconsciência, conhecermos mais profundamente nossos sonhos, olharmos para dentro de nós mesmos, buscarmos potencializar nossos talentos internos e, ao mesmo tempo, conhecer as nossas fraquezas, ou seja, os nossos pontos fracos que precisam ser descobertos trabalhados e potencializados.

 

E isso, é muito duro de constatar e aceitar. Olhar para a nossa própria face, descobrirmos nossas fraquezas muitas vezes nos torna débeis e inseguros. Muitas e muitas vezes nos fazem sofrer e muitas vezes também nos tornam insensíveis pela fortaleza que criamos para não ver essas franquezas.

 

Há algum tempo atrás estava falando com um executivo de uma grande empresa e, durante a nossa conversa, pelas respostas que ele me dava, sempre bastante limitadas a um pequeno entorno à sua volta, percebia nitidamente que ele não conseguia, apesar do seu cargo de alto executivo, enxergar o todo da organização. Num dado instante eu lhe perguntei: “Você não acredita que precisa trabalhar e desenvolver a sua visão sistêmica?”.

 

Ele olhou para mim sério e aparentemente aborrecido e me disse: “Fernando, claro que não. Tenho minha visão sistêmica muito desenvolvida. Sei muito bem ver as coisas por vários ângulos e ver ‘à distância’”. Eu resolvi não investir mais naquela afirmação e apenas lhe disse: “Ok”. Mas mesmo assim pensei um pouco a esse respeito.

 

Alguns meses depois fui informado que o mesmo estava se desligando da empresa justamente por conta do seu fraco desempenho com relação aos resultados macros.

Mas, voltando a questão o que faz os pretensos líderes acreditarem que estão preparados para o cargo que estão ocupando? Vale lembrar que no Brasil percebemos que volta e meia uma pessoa é levada a determinados cargos que exigem uma capacidade de liderança extrema, mas que na verdade trata-se mais de uma indicação, geralmente de alguém influente, muitas vezes sem se questionar sobre a capacidade da pessoa para o cargo que vai ocupar. Isto acontece até em grandes empresas privadas, quando um diretor tem um possível “afilhado” para ajudar, ou uma dívida para cumprir.

 

Um dia que estava conversando com um amigo sobre assuntos pertinentes ao tema liderança e ele me afirmou de chofre: “Fernando, quando um jabuti está em cima de uma árvore pode ter certeza de que não foi ele que subiu, alguém o colocou lá…” Num primeiro momento para ser sincero considerei uma colocação muito sem pretensão, em seguida percebi a profundeza da metáfora.

 

Infelizmente isso é verdade, quantos milhares de jabutis percebemos assumindo pretensos papéis de líderes em empresas, em grandes organizações, em renomadas instituições e que na verdade são jabutis disfarçados de líderes? E o pior de tudo é que, muitos deles, nós mesmos os colocamos por lá quando não damos valor ai nosso poder de escolha cidadã por ocasião das eleições.

 

Acredito que nós, como país, perdemos em muito a capacidade de preparar líderes verdadeiros. As escolas não são mais – infelizmente – como antigamente, as faculdades e universidades não são mais como antigamente e, pelo visto, as famílias não são mais como antigamente. No mundo de hoje os indicativos das escolas são os alunos que passaram no vestibular. Pouco importa se os meninos passaram por uma batalha de faz de conta de responder cruzinhas, de aprender por provas que já aconteceram, e passam o ano inteiro fazendo provas simuladas.

 

No mundo de hoje adoramos os “e’s”, portanto: e-mail, “e-commerce”, “e-business”, “e-learning”; “e-music”, “e-book” e por ai vai. Não tenho nada contra a tecnologia, apenas me assusto quando alguém me diz que um colega de trabalho da mesma sala lhe enviou um “e-cartão” de aniversário… O que está havendo? Esquecemos de falar? De nos comunicar? De desenvolver nossa liderança? De nos posicionar? De sermos verdadeiros cidadãos? Ou em outras palavras líderes do rumo das nossas vidas…

 

Infelizmente, na verdade é que constatamos que as instituições que representam a sociedade resolveram esquecer que a formação preparação de líderes precisa acontecer desde a mais tenra infância, os líderes precisam ser desenvolvidos e forjados numa usina de valores morais sólida o suficiente para não caírem nos “mensalões” e muitos outros “ões” da vida.

 

O problema é sério, mas tem soluções, ao invés do mundo educacional despertar para o processo de formação de líderes, são as empresas que estão fazendo pela carência, pela necessidade de terem em seus quadros pessoas que decidam, que antevejam os rumos, que assumam riscos e não “jabutis” que ficam a espera de alguém que os põem ou tiram de confortáveis posições nas árvores da floresta da vida. Assim sendo, por necessitar antever o futuro o mundo organizacional está investindo maciçamente nos seus projetos de formação de verdadeiros líderes. Serão eles e através deles que as mesmas irão perdurar.

 

Cabe a grande empresa Brasil acordar para esse processo, caso contrário o nosso futuro continuará sendo construído pelas espertas raposas ou pelos lobos disfarçados de cordeiros, os quais, por sua vez, irão continuar por séculos colocando e retirando os pacatos jabutis nas árvores da floresta da vida… É como sempre digo uma questão de escolhas, e escolha da cada cidadão brasileiro. Que futuro, que país, que cenário queremos deixar para os nossos descendentes?

 

(*) Fernando Viana é diretor presidente da FBC

fbc@fbcriativo.org.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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