Pilotando no mercadinho

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Quando resolvi escrever na Infonet, eu me perguntei qual seria a temática que estaria a debater. Falaria dos homens? Ser-lhes-ia um crítico mordaz ou um tecedor de loas contumaz? Jamais!

 

 

Se na critica sempre auferi um desafeto, no elogio nunca foi diferente, porque quem recebe o louvor, sempre se acha mais merecedor, e assim, mais das vezes, o encômio é desprezado, não por ser medíocre, mas por absoluta falta titular de origem. É aquela velha história; “Tanto tens, tanto vales. Nada tens, nada vales”.

 

 

Mesmo que haja muita inteligência e criatividade; um elogio de um Odilon, pouco vale ou nada vale.

 

 

Perquirindo esta mais ou menos valia, eu me questionava se falaria dos fatos, do cotidiano da vida, ou da mesquinha conversa fiada que nos preenche os dias? Talvez! Dizia eu. Eu não sou de ferro! Eu também tenho os meus defeitos! E um deles é encarar com ironia as bobagens que os homens pensam e fazem, geralmente em unanimidades ululantes de obviedades.

 

 

Neste particular, falta à imprensa nacional um “reacionário” Nelson Rodrigues, em sua fase mais lúcida e percuciente, fustigando “padres de passeata, freiras de minissaia e grã-finas com cara de cadáver”, em contracorrente a tanta unanimidade, naquele tempo e também agora, na grande imprensa paulista e no seu gargarejo local, periférico, igual sobrecu, surrando sem piedade o Senado, porque ousou pensar-lhe diferente, absolvendo o Renan presidente.

Marcus Porcius Cato (243aC – 149aC), chamado Catão o Antigo, ou o Censor, travou batalha contra o luxo, eliminando vários senadores aos quais considerou indignos. È célebre a sua frase: Delenda est Cartago! É preciso destruir Cartago.

 

 

Todavia, o mais contundente não é o sobrecu, leme inútil sem prestígio. O destaque é a bravura de Calheiros, porque está a se revelar um guerreiro resistente, com culpa ou sem ela, mas se defendendo, por ser este o direito de todos, resistindo contra a parede, lutando mais bravamente que César, frente a tantos sicários.

 

 

E o mais deprimente é o seu ato suscitar outros sicários, aos milhares e aos milhões, ressuscitando aquela velha unanimidade burra de quem falava Nelson, que não mudou de lado e permanece ali, nomeadamente sem mudanças, como era no princípio, agora e sempre, “per secula, seculorum”; medíocre, e bote mediocridade nisso!

 

 

E preconceituosa também! E totalitária! E furibunda e atrabiliária contra os que a superam em destemor! No entanto quer se crer tolerante, aberta ao livre discutir das idéias, afeita ao contraditório, quando em verdade, espuma odientamente a democracia, arvorando a lei só para si, no momento sanguissedento de linchar o seu desafeto.

 

 

Desse modo não são só os votos dos senadores que precisam ser abertos para a cusparada e o escárnio coletivos. É preciso também que a temática dos artigos da imprensa, sobretudo da pequena, esta que não ousa pensar distintamente da sulista, reflita nacarada e acriticamente o libelo condenatório verborrejado.

 

 

Porque triste de quem pensar diferente dessa gente! Vai ter que sentir o visgo de sua baba rábica pegagenta, engolir o seu vômito por desgosto, e ser mordido na canela, para aleijá-la e deixá-la seca. Inclusive eu, se tivesse mais de meia dúzia de leitores…

Antoine Quentin Fouquier de Tinville (1746-1795), político francês, acusador público do Tribunal Revolucionário no período do terror da Revolução Francesa. Atuou nos processo de Charlotte Corday, de Maria Antonieta, dos Girondinos, de Barnave, dos Hébertistas, dos Dantonistas, tendo inclusive conduzido Roberspierre, Saint Just e Couthon à guilhotina. Sua acusação atingira todo o universo ideológico de então, e sempre com a pena capital. Quando caiu em desgraça e foi acusado de promover acusações facciosas, defendeu-se alegando ter apenas cumprido a lei emanada de uma Convenção investida de todas os poderes. Acontece que a grande liderança desta Convenção já tinha sido decapitada em processos acusados pelo imoderado procurador Fouquier. E assim, Fouquier-Tinville foi guilhotinado em 7 de maio de 1795.

 

 

Estaria eu, só com esta meia dúzia de bons leitores, suscitando outros de contumácia peçonhenta, correndo um sério risco de virar coxo? Só porque estou, por bobeira, cometendo a asneira de abrir um flanco com os ousados e os abusados?

 

 

É bom destacar que na vida os ousados são sempre bem-vindos. Já os abusados serão sempre um perigo, sobretudo quando a vida se faz plena. Porque os ousados possuem idéias e as defendem, enquanto os abusados tudo abafam; as idéias e seus autores.

 

 

Não vêem os abusados que as idéias existem para aclarar a discussão dos homens que lutam por uma rota sem traumas. E assim, em defesa deste fato, corriqueiramente rotineiro, ouso citar Walter Benjamin, um suicida vitimado por abusados nazistas: ”as idéias, como as prostitutas, batem boca em público”.

 

 

E esta frase me toca profundamente porque me agrada o debater de idéias sem prejulgamentos contra ninguém, muito menos contra as meretrizes, que se vendem em carícias e delícias.

 

 

Porque só elas, as putas, merecem de nós a mesma compreensão que o Cristo tanto lhes dera enquanto fustigara a tantos fariseus. E haja fariseus, e haja sepulcros caiados também, nessas nossas medonhas e enfadonhas caçadas de bruxas. Daí eu preferir o debate das idéias, aos homens e à sua pequenez.

 

 

Prefiro deixar também o proselitismo dos fatos que enaltecem as letras garrafais dos jornais. Recusar por isso a pertencer a torcidas de times, escolas de samba ou pastoris; gritos de muitos hurras, e outras coisas mais vis. Daí porque eu procuro falar de coisas; umas importantes e outras nem tanto.

 

 

E assim, para ser mais explícito no momento, não me empolga escrever nem ler nada sobre este debate inútil de Renan Calheiros e seus iguais, sobretudo, os que não se vêem espelho, e se encarnam novos Catão, Fouquier –Tinville ou Torquemada. Só para citar acusadores que a história marcou como cruéis e intolerantes.

 

 

Melhor seria existir um mecanismo constitucional menos cruel que os levassem a descansar em suas casas por um bom período. Por que esperar intolerantes oito anos para mudá-los? Tem tanto carro de mercadinho precisando dessa gente como manobrista fazendo feira!

 

 

Aliás, só para consignar um gozo; uma das coisas boas da alternância dos poderes e da passagem do tempo é a queda desses “deuses”.

Tomás de Torquemada (1420-1498), frade dominicano espanhol, confessor gera da Rainha Isabel de Castela, a Católica, Inquisidor Geral de Aragão e Castela é símbolo da face intolerante da Igreja Católica, conduzindo muitos judeus, mouros e hereges à morte na fogueira. Utilizando a desconfiança popular contra estes segmentos étnico-religiosos, defendendo uma política de “sangre limpia”, conduziu milhares deles às fogueiras, pretendendo deste modo limpar o sangue da Espanha, dotando-a apenas de sangue cristão. Perseguindo os “marranos” (judeus convertidos), realizava inomináveis autos de fé, onde uma série de torturas era realizada em praça pública culminando com a morte na fogueira. Tomás de Torquemada, um neto de marrano também, morreu na cama com medo de ser envenenado por seus inimigos.

 

 

Tenho visto ultimamente tantos ídolos derrubados, pilotando humildemente carrinhos de mercadinho! Uma novidade!

 

 

Porque esse povo estava até outro dia dirigindo e mandando em tudo, e hoje está a fazer suas barbeiragens com carrinhos de supermercado; igual a todo mundo, com rala serventia, ou então jogando conversa fora nos bancos do calçadão, batendo pernas no shopping. Tudo ao gosto do que foi, e do que é…

 

 

O que me faz lembrar Cícero cultuando o desapego a títulos: Omnia mea mecum porto. Isto é; o que temos de importante é a nossa riqueza pessoal. O que existe de importante em cada um de nós é a inteligência, o coração, o caráter, tudo aquilo que a gente carrega sem valise e sem chapéu, sem lenço e sem documento, como diria o poeta da vida em busca do céu.

 

 

Infelizmente algumas pessoas não vêem em Cícero um sábio que viveu e sentiu na própria pele o valor essencial do ser. Sentem-se profundamente infelizes com a perda do poder e o retorno à inevidência só sua.

 

 

E assim preferiam continuar vivendo a ilusão da importância que só o cargo lhe dava, cercado pelos eternos áulicos de sempre. Os mesmos que viram o rosto aos ídolos rotineiramente decaídos, em escárnio por ordinário.

 

 

Porque o extraordinário é reconhecer que “o que foi não é nada”, igual à pegada inútil do animal, seja ela de um rinoceronte míope, ou de um obeso hipopótamo, no poetar de Fernando Pessoa, que preferia simplesmente as aves por seu vôo sem rastro.

 

 

E assim só porque o ideal é voar como as aves, passando sem deixar rastros, eu me volto para os carrinhos de mercadinho, democráticos, necessários e livres, esperando os simples e os não tão simples, para conduzir mantimentos ou utensílios apenas.

 

Ajudando a vida, é verdade! Mas ajuntando também o concreto ao abstrato, ajustando o sonho e a realidade, seguindo em frente, suscitando o riso sábio descontraído.

 

Ou seja, aos críticos e aos não tão críticos do lascivo Renan, prefiro melhor companhia nos mercados, escolhendo o acarapeba e o robalo, sem roubá-los. Adquirir a bisteca suína e gorda, o pernil caprino e tenro, e a carne de sol da “coréia”, junto com o queijo qualho e a manteiga de garrafa.

Fernando Antonio Nogueira Pessoa (1888-1995), poeta e escritor português, gostava de escrever criando heterônimos, ou seja, personalidades poéticas completas. Os três heterônimos mais conhecidos são Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caieiro. De Fernando Pessoa é a frase: “viver não é necessário; o que é necessário é criar”. È seu também: “Se depois que eu morrer, quiserem escrever minha biografia / Não há nada mais simples. / Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. / Entre uma e outra todos os dias são meus”.

 

 

Ter por mor idéia de moqueca o camarão bi-barbado, junto com o sarapatel escuro, o saroio frágil e o macasado alvo.

 

 

E o surruru, o caranguejo, a pilombeta, o feijão de corda e o saborito. Tudo a seu tempo, por mais gostoso e mais bonito.

 

 

Muito melhor que os cargos vãos, lastimados e chorados, bem despedidos por necessários.

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