Salvem o Centro

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O centro de Aracaju precisa urgente de uma campanha.   Estão destruindo tudo.  Lembro-me da fatídica tarde em que  o casarão de Augusto Leite foi demolido, dando lugar hoje à medonha agência da Caixa Econômica  Federal, na Barão de Maruim. Eu era um reles assinador da lista contra a demolição. Não podia imaginar jamais que aquele pinheiro que crescera ao lado da casa viesse ao chão com tamanha estupidez. “A força da grana que ergue e destrói coisas belas.” A Prefeitura de Aracaju é servil, cúmplice e ausente nessas questões. Na praça dos Expedicionários, por exemplo, constrói-se agora um botequim ao lado do cemitério da Cruz Vermelha – como pode não se preservar uma área daquela, como pode deixar que a favela tome conta daquele lugar com apanhadores de lixo, construindo casas de alvenaria, transformando aquele local num lixão à céu aberto? Mas voltemos ao centro, onde tudo começou, onde a cidade de Aracaju debruça-se sobre a sua história, não há um projeto cultural de relevo que possa valorizar a área, a Praça Fausto Cardoso é um centro de prostituição, com iluminação aviltante, sem um projeto de luz para a praça, além do chafariz ter sido esquecido no projeto de reforma da PMA. A praça mais parece um deserto de doidos.

Indo pelas ruas do centro, percebemos que as suas casas estão todas à venda. As casas da rua da Frente sofrem demolições constantes, inclusive com a aquiescência da Assembléia Legislativa que tem adquirido imóveis e  os transformados em estacionamentos, além do que o próprio prédio da Assembleia é um acinte a qualquer bom gosto arquitetônico, além da reforma do sétimo andar que mais parece um puleiro agredindo ainda mais a paisagem. A própria Cúria Metropolitana, na esquina do Parque da Catedral, não mostra a beleza que o prédio ostenta. Usado para serviços burocráticos da Arquidiocese, o prédio deveria estar aberto à visitação pública e a Cúria alugar outro lugar para atendimento. Além do mais, a própria Catedral Metropolitana de Aracaju foi completamente descaracterizada. O seu piso, em pedras portuguesas foram trocadas por granito escuro e moderno escurecendo a igreja, as paredes laterais pintadas  com tinta a óleo, quando tudo era com gema de ovo, da época de Orestis Gatti, italiano que posou por aqui e  que assina o teto semi-gótico da Catedral. Como se não bastasse o crime, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, na sacristia, foi restaurada deixando a santa como se a mesma tivesse tendo uma trombose. Isso é crime. Uma tela daquela não se entrega à qualquer um. Mas assim foi feito. Até hoje  choro toda vez que lá vou, porque conheci a tela original assinada por  Horácio Hora em cima da tela de Murilo, tombada pelo Governo do Estado através do decreto n°18.776 , de 02 de maio de 2000. Choro lágrimas de sangue, sofro e evitei por dez anos pisar meus pés por lá. Sem falar na destruição da pia batismal original, além da imagem do Senhor Morto, obra de Rosa Faria, escondida no coro da igreja.

Indo pelas casas da rua Arauá, Santa Luzia, Propriá, Maruim, Estância e mesmo a rua Itabaiana pouco se guardou de tudo que se viveu. Poucas pessoas sabem quem morou ali. A casa de Leandro Maciel, na avenida Barão de Maruim, por exemplo, ainda continua impoluta, graças à sua filha. Mas as outras da avenida Barão de Maruim foram se perdendo com o tempo, dedilhando o seu rosário de agonias, perdendo suas fachadas, seus jardins, algumas abandonadas, tomadas por mendigos e outras à venda, como se não tivessem valor algum.A casa do ex-governador Augusto Franco, na mesma avenida, guarda ainda os azulejos, a louça e a escadaria originais. É uma das poucas remanescentes da época. O poder público deveria destinar verbas para a preservação do patrimônio histórico. O que é 300, 200, 800 mil diante de um monumento? Isso é um sopro como diz Oscar Niemayer. O Centro está morrendo. Salvem o centro antes que eu me mate. As fachadas do mercado, da rua José do Prado Franco, vistas lá de cima,do mercado, levam qualquer ser às lágrimas. Tudo forrado com papelões, as fachadas destruídas cobertas de zinco, os ferros aparecendo e as portas cobertas de cimento. Nada é feito. O centro de Aracaju está agonizando aos nossos olhos. O CREA/SE não tem um projeto, as imobiliárias especulam em cima das casas, as fachadas são cobertas por vidros temperados, muitas se transformam em lojas de departamento, modificando a paisagem total da cidade.

Peço ao Governo do Estado para demolir aquele imbróglio onde funcionava o terminal hidroviário. Para que possamos ver o rio Sergipe! Mas não. Lá está uma placa orçando a obra para transformar aquilo ali num posto policial. Não! Não é possível  que deixemos a nossa Cuba, com vista para o rio, se transformar em placas de cimento, sem apelo cultural algum, pela insensibilidade dos  nossos governantes. E aquele Iate Clube – o que é mesmo aquilo? Com salas alugadas a terceiros, restaurantes de quinta na esquina e isso tudo – creia – cobrindo nossa visão do rio Sergipe. O Iate paga quanto à Prefeitura. Nada. Não há o que evite que casas como a residência do Dr. Augusto Leite na Av. Barão de Maruim,já falada, o Cinema Rio Branco, dizem que preservaram a fachada(quem vê?), a loja INCAL na Rua São Cristóvão  sejam apenas um retrato na parede. Ainda lembro a casa de Hider Gurgel, na Avenida Ivo do Prado, vizinha ao prédio do INSS, onde funcionou a sua  primeira clínica e a outra na Rua Propriá entre a Rua Lagarto e o Parque Teófilo Dantas. Há casas preservadas, como a dos Rollemberg, pela OAB, mas é um caso isolado, mas que nos conforta.

Chamo de insanidade coletiva o que está acontecendo com o centro de Aracaju. O próprio Centro de Turismo – um horror. O edifício São Carlos, vizinho ao Ministério Público, abandonado. Os calçadões com aquelas pedras – um atestado de periculosidade, a Iara, a Cascatinha, a igreja do Carmo, tudo destruído, o Cine Guarani na Pedro Calazans – ó Deus!” Livrai-nos Senhor dos abestados e atoleimados!” E o IPHAN, a Secretaria de Planejamento do Município de Aracaju, os Ministérios Públicos Estadual e Federal – o Prédio da Alfândega, na General Valadão, o que é aquilo, o antigo Hotel Palace… O que podem fazer estes órgãos para nos devolver a face da cidade?

Estão deixando matar o centro de Aracaju. Eu amo o centro. Não há uma família nobre que não tenha morado ali. Hoje só sonhos e retratos de um passado perdido. Não se constrói uma sociedade sem preservar a sua história, a sua arquitetura, a sua paisagem.

Comunico que estou de luto. Ando todos os sábados com o meu carro pelas ruas de Aracaju para me despedir do centro que amo. Perdido entre as esquinas não consigo decifrar o porquê desse descaso. Conforto-me, olhando ao longe, a igrejinha do outro lado do rio.Estou  partindo com o centro. Devoto que sou da paisagem rara de Aracaju, me encontro como  João Cabral “Sevilha Andando”, Aracaju andando num vazio,num oco, num plúmbeo deserto de nós mesmos. O céu que nos protege de Bawlles. Árbitro de um mundo descontente, mundo este sem história, sem futuro, porque o passado foi vendido por poucos reais. Atado e desolado arde Aracaju em nossas costelas sem abraços. Comemos o abandono, o atraso, a memória corroída. Salvemos Aracaju. O centro que padece e agoniza.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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