Sim, também somos trabalhadores

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Nas faculdades de comunicação, algumas teorias definem a mídia como o quarto poder, complementar ao Executivo, Legislativo e Judiciário. Não me filio a essas teorias, por entender que elas atribuem aos meios de comunicação um poder determinante nas ações do Estado, desconsiderando que essas decisões são resultado de um processo complexo em que vários fatores  e atores (inclusive a própria mídia) se articulam e disputam posições. Porém, ainda que a mídia em si não seja um poder de Estado é fato que o jornalismo – pelo seu potencial de influenciar na formação de opiniões e ideias –  se relaciona diretamente com os três poderes.

E aqui já me parece importante estabelecer uma distinção. É o jornalismo que se relaciona com os três poderes, não o jornalista. Quando órgãos ou representantes públicos nos oferecem vinhos, jantares, chocolates e outras “lembrancinhas”, não é em nós jornalistas que eles estão interessados, mas no estabelecimento de uma boa relação com a empresa em que trabalhamos. A preocupação é que aquele jornalista – que ora “representa” um veículo de comunicação – construa uma imagem positiva de quem o “presenteia”. Nós, jornalistas, devemos estar vigilantes. Somos envolvidos em um jogo, apenas para mediar a relação entre poderes políticos e econômicos. Jogo esse que não nos interessa, jogo esse do qual não podemos participar porque vai de encontro aos nossos compromissos éticos assumidos ao final da graduação.

A nossa condição de jornalista não pode ser confundida com a empresa em que trabalhamos. E a nós, jornalistas, cabe cotidianamente exercer a profissão de modo que esse distanciamento fique evidente para nós mesmos e para o conjunto da sociedade.

A nossa realidade é bem distante, bem distinta, oposta aos que participam do flerte entre imprensa, poder político e poder econômico. Somos trabalhadores da comunicação. Trabalhadores explorados, que têm um piso salarial incompatível com a importância social da nossa profissão. Trabalhadores que têm, constantemente, uma série de direitos negados. Trabalhadores que têm desrespeitada a sua jornada de trabalho. Trabalhadores que são vítimas diárias de assédio moral. Trabalhadores submetidos a um modelo de jornalismo em que a velocidade das informações é cada vez mais importante que a qualidade crítica e reflexiva do conteúdo. Trabalhadores que, pelo acúmulo de tarefas progressivo, têm sofrido uma série de problemas de saúde, como depressão e dependência química.

E como trabalhador que somos, o único modo para revertermos esse cenário é de forma coletiva e organizada. Por isso, mais que direito, temos o compromisso de fortalecer o nosso sindicato. É no sindicato que temos espaço para relatar os problemas vivenciados diariamente. É no sindicato que temos contato com outras realidades e experiências de colegas de profissão. É no sindicato que podemos, a partir do debate democrático, discutir e definir estratégias de como enfrentar os problemas.

Aqui em Sergipe, nesta quinta-feira (18) acontecem as eleições para o nosso sindicato local (SINDIJOR) e para a nossa federação nacional (FENAJ). Um primeiro passo para construirmos um sindicato atuante e combativo é participando das eleições, exercendo o direito de voto. Mas não basta. Após as eleições, cabe a nós, jornalistas, participar dos espaços organizados pelo sindicato, como assembleias, reuniões, cursos, seminários, atos públicos, etc. Após as eleições, cabe a nós, jornalistas, contribuir também financeiramente com o sindicato, afinal “não custa lutar, mas a luta custa”.

Só assim, nos reconheceremos e seremos reconhecidos e respeitados – pela sociedade e pelos patrões – como trabalhadores.

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