UM OUTRO LULA É POSSÍVEL?

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Acabo de participar da quinta edição do Fórum Social Mundial, que se realizou na cidade de Porto Alegre, nos dias 26 a 31 de janeiro. Como nos demais, o maior evento social do mundo, brindou a diversidade, sonhou a igualdade, festejou a liberdade e exercitou a solidariedade. Vozes de todo o planeta, rituais de todas as tribos, coros de todas as cores e gritos dos mais variados sons, entoavam, como se regidos pelo maestro da esperança, que “um outro mundo é possível”.

 

Esta mesma palavra-esperança era ecoada nas centenas de oficinas e tendas espalhadas pela capital gaúcha, magicamente traduzida em árabe, alemão, inglês, espanhol, francês, guarani, hebraico, hindi, indionésio-bahasa, italiano, japonês, coreano, quéchua, russo e uolof. Nativos, estrangeiros, sem-pátria, negros, brancos, índios, asiáticos, árabes, sindicalistas, militantes partidários, anarquistas, lésbicas, gays, trabalhadores rurais e urbanos, desempregados, com ou sem teto, professores, estudantes, sem-escolas, ideólogos, sem-idéias, dentre outros movimentos sociais, faziam parte desta orquestra de cantadores de um novo mundo. Educação para todos, cultura plural, direitos humanos e fundamentais, fundamentalismo estadunidense e islâmico, Alca, Mercosul, invasão do Iraque, opressão na Palestina, economia solidária, agricultura familiar eram alguns das centenas de tema em debate.

 

Dentre as discussões que se espalharam para o mundo através do alegre porto brasileiro, confesso que uma em especial despertou a minha atenção. E esta expectativa se tornou mais forte depois que participei da passeata de abertura do Fórum, onde as diversas tribos externavam, em faixas e palavras de ordem, as diversas organizações sociais que representavam. E não era preciso procurar muito para encontrar os velhos protestos contra as várias propostas de reformas que atingem o Brasil, mais especificamente aquelas implementadas pelo Governo Lula.

 

“Não às Reformas Universitária, Sindical e Trabalhista”, “Movimento pela Redução dos Juros e Impostos”, “Fora a Opressão do Mercado Financeiro”, “Emprego Já”, “Moradia Digna Para Todos”, “Reforma Agrária”, “Não à Transposição do São Francisco” eram algumas das peças sacadas contra o Governo Lula. Aliás, os protestos contra a política petista somente perdiam para os diversos, unânimes, corretos e certeiros ataques contra a política fundamentalista imposta ao mundo pelo General Bush, principalmente em função da invasão do Iraque e pelo desprezo pela causa dos palestinos. Mas ganhava disparado daquelas defendidas por movimentos específicos, como por exemplo, “Homens unidos contra a violência que atinge as mulheres”, “Católicas em defesa do aborto”, “Frente contra o consumo da coca-cola e do McDonalds”.

 

Não era sem razão, portanto, a curiosidade de todos sobre qual seria a reação dos milhares de participantes do Fórum quando Lula aparecesse para lançar a campanha mundial contra a fome. A expectativa de todos era de que receberia uma estrondosa vaia, embora elogiassem a sua coragem e a de seus ministros em participarem de um evento caracterizado pela contestação. E, de fato, a sua participação foi a mais disputada e freqüentada pelas diversas tribos que perambulam pela Aldeia Universal de Porto Alegre, provocando engarrafamentos e tornando pequeno o estádio conhecido como Gigantinho.

 

Nosso grupo não conseguiu entrar no concorrido estádio, o que nos obrigou a participar do evento diante de um enorme telão instalado na área externa. Mas não nos faltou emoção, mesmo porque nos permitiu o distanciamento dos grupos organizados que madrugaram dentro do Gigantinho, preparados para vaiar ou defender Lula, conforme a concepção ideológica que perfilhavam. Em nossa volta tão-somente os participantes do Fórum, com suas faixas e camisas bem definidas, porém sem a organização que se mostrava visível diante do telão.

 

A expectativa se desfez quando Lula ingressou no ginásio, provocando a imediata reação das torcidas que se espremiam à sua volta, fazendo vencedora aquela que gritava o seu nome como se candidato à reeleição fosse. Mas o que surpreendeu a todos foi o que desfilava, no lado de fora, diante do nosso incrédulo olhar, mais exatamente após um militante do PSOL ter acusado o presidente Lula de “traidor da classe trabalhadora”. Foi impressionante a reação da platéia, principalmente daqueles que estampavam em suas camisas alguns dos mais energéticos protestos contra a política implementada por Lula.

 

É que, longe de concordar com o militante que esbravejara contra Lula, passaram a dele veementemente discordar, acusando-o, ele sim, de estar fazendo o jogo da direita, dos corruptos e de Bush. E durante todo o discurso de Lula aplaudiam emocionados, esquecendo até dos protestos que carregavam em suas respectivas camisas. Era como se estivessem dizendo que “aquele era o Lula possível” ou, como diz um ditado popular, ”sei que minha família tem defeito, mas se você disser eu brigo feio”.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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