Uma semana de governo

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Tentemos nos colocar no lugar do governador Marcelo Déda. Uma semana de governo e quão intensa foi a vida dele nesses sete dias? O que ele, um jovem de 46 anos, de esquerda, um socialista, um cristão-novo no poder, terá sentido quando sentou “naquela” cadeira? O que terá pensado quando olhou para “a” cadeira que um dia viu ocupada por outrem? Será que foi uma sensação do tipo “meu Deus, o que estou fazendo aqui?”, ou do tipo “meu Deus, aqui cheguei”, ou talvez ainda “meu Deus, tenho que trocar esta cadeira”?

 

Imaginando a resposta que um surpreendido Edvaldo Nogueira não soube dar, deve ter pensado que ainda está vivendo o sonho do menino de barba rala que um dia chegou à presidência do Diretório Central dos Estudantes da UFS — algo que parecia inatingível no limiar dos anos 80. E o embasbacar é mais justificável quando se vê quem é o prefeito de Aracaju que o substituiu: a geração que foi utópica na adolescência chegou ao poder.

 

Mas Marcelo Déda, que subiu ao púlpito do parlamento estadual com 26 anos, por mérito próprio, terá que confirmar a habilidade, o poder de convencimento e a humildade que demonstrou possuir desde o início da carreira. É ousado, pois corre atrás do que quer, mas tem oratória, é orgulhoso mas sabe dialogar e respeitar os adversários, e sabe buscar aprender aquilo que não conhece ainda. Como soube — ainda aprendiz de revolucionário — aconselhar-se com um militar, general do Exército, mas um par, o deputado Djenal Tavares de Queiroz (do PDS!), homem de convicção naturalmente diversa.

 

Com este poder de monge sedutor, persuasão e liderança, Marcelo Déda deve estar pensado agora nos dois maiores problemas do seu lactante governo: os que herdou e os que criou. Sem culpa reconhecida nos dois, naturalmente, porque involuntário ou sem a integral aprovação dele.

 

O problema involuntário, herdado do governo passado e que vai se revelando pouco a pouco, o absolve mais e insiste em se misturar com aquele medo original, o medo do desconhecido, que salta a cada novidade ou surpresa desvelada no abrir de gaveta ou armário. Já o problema criado se refere diretamente ao governo dele, que, por enquanto, restringe-se aos nomes dos indicados ou empossados nas secretarias, autarquias e empresas públicas. Nomes que, em alguns casos, não são unanimidade para ele — antes os são convenientes.

 

ANA LÚCIA MENEZES — Como o da deputada que queria secretariar a sua área, afinal, é liderança ascendente e responde por farto contingente de eleitores esclarecidos, mas teve que se contentar com pasta mais popular. Ana Lúcia Menezes é como a irmã mais velha que não suporta as ousadias do caçula. É naturalmente uma aliada, possui consangüinidade petista, mas transmuda-se facilmente em ferrenha adversária dentro de casa. A relação dela com o agora colega secretário José Fernandes de Lima, por exemplo, pode azedar de uma hora para outra. Mais do que um educador, Lima é um cientista, um homem de gestos calmos, acostumado com a frieza da física quântica e a realização de projetos. Tem temperamento bem diferente da guerreira emotiva, que transpira e chora na luta pelo que considera ideal. É problema à vista… para Déda resolver.

 

BENEDITO DE FIGEIREDO — O ex-presidente estadual do PMDB foi indicado pelo partido para ocupar a problemática Secretaria da Justiça e Cidadania. A pasta que dirige o depauperado sistema penitenciário exige agilidade na tomada de decisões, porque os presos, na sua eterna ociosidade, têm pressa para fugir. Os críticos apegam-se justamente a esse aspecto para atacar a indicação de Bené, mas se esquecem que ele é um advogado tarimbado e um político experiente, formado no movimento estudantil e que chegou a vice-governador duas vezes e a deputado federal. Não é um neófito.

 

LEÓ FILHO — O simpático secretário de Esporte e Lazer não é exatamente um deus grego, sobram a ele alguns quilos e também pesa a idade, razão porque dizem não ser o modelo mais adequado à pasta. Mas o velho jornalista, amigo eterno do senador Antônio Carlos Valadares, tem experiência na área, já ocupou o mesmo cargo no passado e alguns se lembram dele como o secretário que desenvolveu projetos interessantes no esporte amador. Para sentar num birô basta ter cabeça. Pode ser que dê certo.

 

JOÃO AUGUSTO GAMA — Também há quem duvide da competência do ex-prefeito de Aracaju para a Secretaria do Turismo. Dizem que o máximo que conseguirá fazer é viajar pelo mundo com o professor amigo Jorge Carvalho, estrategicamente nomeado superintendente de Turismo. Mas deve ser maldade. Escolhido secretário por um gesto de gratidão do próprio Marcelo Déda — afinal, ele desistiu de candidatar-se à reeleição para apoiar a candidatura a prefeito do atual governador —, Gama é um empresário de sucesso e administrou Aracaju com competência, realizando obras que são importantes inclusive para o turismo, como a reforma do Mercado Central, onde contou com o apoio decisivo do governo Albano Franco. Demonstrou possuir coragem e visão de futuro. Também pode dar certo.

 

ELOÍSA GALDINO — Há quem diga que a Secretaria de Comunicação continuará uma pasta problemática, mas as críticas que se faz a Eloísa Galdino são conflitantes. Ora se diz que ela é inexperiente, ora se diz que tem fama de mandona. Defeitos facilmente reversíveis em qualidade quando se sabe que a Secom precisa neste momento é justamente de um rosto com ar de novidade, que desinfete e areje o ambiente de trabalho, e que tenha pulso firme para conseguir mudar. A meiga Eloísa Galdino, amiga da primeira-dama Eliane Aquino, talvez tenha sido a aposta mais arriscada de Déda. Se acertar, o governo vai ganhar muito.

 

HERANÇA INCÔMODA — Mas problemas que se prezem são mesmo os herdados. Para citar alguns, o governador Marcelo Déda deve estar queimando neurônios pensando no que fazer com a inoperante Deso — a empresa de saneamento foi no passado a menina dos olhos do governo de Sergipe —, com o combalido Ipes e com a apagada Aperipê, esta um cabidão de empregos. Também o que não faltam são problemas na Segurança Pública, dominada por delegados voluntariosos e uma PM hierarquicamente enfraquecida. E o que dizer da caixa-preta dos DAFs de todas as secretarias?

 

MEDIDAS ACERTADAS — Se ainda não dá para enumerar acertos do governo Marcelo Déda, mesmo porque a conseqüência dos poucos atos ainda não pode ser mensurada, tem-se como medidas corretas a readmissão e promoção dos três oficiais da PM que haviam sido mandados prematuramente para a reserva e a ordem para comprar coletes à prova de bala para todos os PMs que estão nas ruas. São gestos que, certamente, ajudarão a levar a tropa para o lado do governador, coisa que ele, inteligentemente, está buscando.

 

Também foi acertado o cancelamento de contratos, convênios e licitações em andamento — embora sem nenhuma surpresa — e a determinação para se fazer um rastreamento completo do que é a máquina estadual, naquilo que esteja funcionando ou não. O governo itinerante não foi nada diante da dura realidade que os meninos do PT estão enfrentando agora. Mas Déda colocou timoneiros fortes para tocar esse barco. Estão aí Nilson Lima, Lúcia Falcón, Rogério Carvalho, Osvaldo Nascimento, Kércio Pinto, Oliveira Júnior e Edson Ulisses, dentre outros, ajudando-o a guiar a nau.

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