Você acredita no Brasil?

0

Sempre que a sensação de permanência no ambiente de corrupção e impunidade é reforçada, como na absolvição do corrupto e impune Renan Calheiros, a alta estima do brasileiro sofre. E assim é quando se desconfia que a saúde pública não melhora e que a insegurança pública ainda pode ficar pior. O que vem à mente é que o Brasil não tem jeito. O alento, de outro lado, surge quando se vê que as instituições, e a própria democracia, estão funcionando e se aprimorando. Que é cada vez mais comum cassar políticos corruptos — em menos de sete anos, 623 foram punidos por corrupção eleitoral, sendo que 10 em Sergipe —, que a instância máxima do Judiciário aceita denúncias contra 40 aloprados envolvidos num esquema de mau uso do dinheiro público e agora o mesmo STF decide dar início à tão sonhada reforma política definindo que os mandatos eletivos são dos partidos. Então, será que o Brasil tem jeito?

A coluna fez uma enquete com a seguinte indagação: você acredita no Brasil? A pergunta foi enviada a seis personalidades: dois políticos (o governador Marcelo Déda e o ex-governador João Alves Filho), dois acadêmicos (o economista e reitor da UFS Josué Modesto dos Passos Subrinho e o historiador Ibarê Dantas) e dois profissionais da área do Direito (o ministro do STF Carlos Britto e o presidente nacional da OAB Cezar Britto). Infelizmente, só estes dois não a responderam.

ACREDITAR É LUTAR E TRABALHAR — Os políticos, por exigência da labuta ou força do hábito, são os mais entusiastas. O governador Marcelo Déda inicia a resposta com um peremptório “sim!”. Humanista, ele lembra os percalços da evolução do Brasil, que sofreu as dores do colonialismo, do massacre dos índios e do cativeiro dos africanos — “A concentração brutal de renda e indicadores sociais muito baixos são os ecos modernos dos gritos lançados pela tragédia da escravidão” —, menciona que muitas chances foram desperdiçadas e que houve retrocesso, mas conclui que a resultante é positiva.

“A consolidação da democracia, os últimos avanços sociais detectados pelos censos e pesquisas e a saúde econômica obtida nos últimos anos nos dão a certeza de que o Brasil é viável”, diz o governador, acrescentando que não se pode transformar a fé no Brasil numa fé contemplativa, numa utopia paralisante. “Para mim, acreditar no Brasil é lutar e trabalhar para construí-lo enquanto nação livre, democrática e socialmente justa. Sem ufanismos ingênuos, nem pessimismos sistêmicos”.

FALTA LIDERANÇA — Entusiasmado, mas racional, João Alves também inicia com uma manifestação que não deixa dúvida sobre sua crença: “Acredito profundamente no Brasil. Sou um apaixonado!” Ele enxerga o país como uma nação potencialmente destinada a ser grande, pela soma dos privilégios naturais com o multiculturalismo do povo. Mas na sua avaliação também há motivos para preocupação, daí ter dividido a análise entre pontos positivos e negativos.

São pontos positivos destacados por João duas riquezas naturais vitais: a água e a energia. Além da grande reserva de água potável, “o Brasil também é um dos países mais ricos em energia alternativa, não poluente, produzida através das usinas hidrelétricas. Um potencial que está inibido, estagnado, em decorrência de uma legislação ambiental excessivamente rígida, que impede o país de se desenvolver e de se tornar mais competitivo perante o mundo”. Ele enumera o avanço na tecnologia do biodiesel e relaciona cinco conseqüências positivas do que chama de brasilidade: “a inexistência de conflitos religiosos; o melhor regime de convivência racial do mundo; o privilégio de ser o único país continental a utilizar apenas uma língua pátria; o aguçado sentimento de cordialidade, gentileza e hospitalidade; o povo trabalhador e o empresariado adaptável às oscilações do mercado e às legislações”.

Os pontos negativos são a alta taxa de juros e a “maior carga tributária do mundo”, além dos investimentos insuficientes em infra-estrutura, saúde pública e educação pública de qualidade. “Fico revoltado ao ver o Brasil perder o melhor momento da história por ter deixado de investir no conhecimento”, diz João Alves, acreditando que o presidente Lula não está aproveitando as reservas fiscais extraordinárias porque inchou a máquina pública. “Lula conseguiu deixar como marcas do seu governo os escândalos de corrupção e um estado policial, onde nenhuma autoridade no país se sente segura para tratar qualquer assunto em uma ligação telefônica, temendo estar sendo grampeada”, reclama, concluindo que falta um gerente para tanto potencial. “Falta um grande líder para o país. Mas acredito no Brasil. Acredito que tudo isso tem jeito e pode ser modificado num prazo de cinco anos”.

COPO DE ÁGUA PELA METADE — Para o reitor da UFS, Josué Modesto dos Passos Subrinho, há razões tanto para o otimismo quanto para o pessimismo. Ele divide sua análise em três partes. “Se focarmos a questão no aspecto econômico, de um lado temos alguns ganhos importantes, como a consolidação da estabilidade econômica, a retomada, ainda tímida, do crescimento econômico e dos investimentos, a menor dependência do financiamento externo, melhoria na situação das contas públicas etc. De outro lado, ainda neste aspecto, tanto os países desenvolvidos quanto, principalmente, os chamados emergentes têm crescido a taxas e por tempo muito mais significativos que o Brasil, onde os problemas fiscais não foram resolvidos satisfatoriamente e o ambiente para os investimentos é muito adverso”.

Do ponto de vista sócio-político, Josué também vê por um lado uma melhoria significativa de indicadores de redução de pobreza, melhoria na distribuição de renda, aumento da expectativa de vida etc., “não obstante ainda serem indicadores muito inferiores aos alcançados em países semelhantes ao Brasil”.

E do ponto de vista político, para ele o mais positivo é estarmos passando pelo mais duradouro processo democrático em um País tão conturbado por surtos autoritários. “Diversas instituições funcionam melhor e estão mostrando vitalidade, a exemplo dos organismos de controle do próprio Estado, incluindo o Judiciário, a fiscalização ativa da imprensa e a alternância de poder propiciada pelas eleições”.

Tudo pesado, o reitor acha que o brasileiro vive aquela situação que pode ser descrita como o copo de água que está meio cheio ou meio vazio, dependendo do ponto de vista do observador. “Eu estou entre os que acham que temos mais razões para acreditar no futuro do Brasil e não para achar que éramos felizes e não sabíamos”. 

O QUE É ACREDITAR NO BRASIL? — A indagação é do professor e historiador Ibarê Dantas, tentando primeiro melhorar a pergunta inicial. “Crer na capacidade empreendedora do seu povo? Ou avaliar que caminhamos celeremente para construir uma democracia com cidadania plena com a disponibilidade de bens e serviços semelhante ao padrão de vida do primeiro mundo? Neste último caso, mesmo respondendo de forma sumária e, portanto, incorrendo em alguns simplismos, temos algumas dificuldades a vencer”.

Ibarê vê como necessidades primeiras derrotar as carências na educação, na saúde e na segurança “e não acreditamos que a médio prazo iremos superá-las. Pois estamos encaminhando mal todos os três itens, especialmente o último”.

Segundo, “embora vivamos num Estado de Direito com ampla liberdade de manifestação e de organização, estamos ampliando nossos direitos civis, políticos e, sobretudo, os sociais, sem ligar para os deveres e sem cultivar o exercício da responsabilidade. As razões dessa cultura de irresponsabilidade, por certo, encontram-se nas posturas corporativistas e populistas que, por sua vez, estão associadas à concepção estatista, que considera o Estado como uma matriz opulenta capaz de gerar todas as riquezas e prover todas as carências da sociedade. Tal mentalidade tem sido um elemento inibidor das atividades produtivas e do progresso sócio-econômico”.

Mas ele admite que nos últimos anos houve avanços animadores no controle das contas públicas e na consolidação de algumas instituições fundamentais. “Mas não tem sido um avanço generalizado, basta ver os casos de alguns Tribunais de Contas”.

Não obstante esses óbices, Ibarê acha que o nível de consolidação das instituições tem sido suficiente para retirar do horizonte a possibilidade de retorno do Estado Autoritário, pelo menos a médio prazo. Enfim, com uma contida crença, conclui: “Apesar de alguns problemas, que têm se acentuado no presente, devemos acreditar que continuaremos a avançar num ritmo não acelerado, mas capaz de amenizar algumas das mazelas contemporâneas”.

As quatro opiniões, embora até divergentes, encerram uma avaliação bem consistente dos problemas nacionais e, apesar de tudo, delineiam um quadro bastante animador do futuro do País. E você, acredita no Brasil?

Comentários