ZENÓBIA FOI AO PUNKA

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Cartas do Apolônio

 

Lisboa, 24 de outubro de 2004

 

Caros amigos de Sergipe:

 

Diante da mais absoluta falta do que fazer em Portugal, Zenóbia minha patroa sexagenária resolveu passar um fim de semana diferente.

Foi aí para a terrinha e acabou entrando no Punka, aquele festival de música alternativa que atraiu góticos, punks, clubers e ex-maconheiros em geral no último fim de semana. Uma loucura. A anciã voltou ensandecida.

Disse-me a catita, que se jogou debaixo daquele teto de flande, saracoteando até de manhã no calor infernal do Espaço Emes.

É verdade que a sexagenária entrou no local por engano. Foi atraída por um out door onde se lia “Independência ou Morte”. Evidentemente, pensou que se tratava de uma homenagem à memória de D. Pedro II e como boa monarquista que é, resolveu prestigiar a honraria.

Ao chegar lá dentro, qual não foi a sua surpresa ao se deparar com um bando de cabeludos batendo cabeça ao som de bandas com nomes estranhos como Warlord, Los Hermanos e até uma tal Sambacaitá.

Zenóbia não se fez de rogada. Inebriada pela fumaça de gelo seco que vinha do palco e a dos morrões que vinham da platéia, Zenóbia foi à loucura. A velha – pode-se dizer – ficou doidona. Começou então a sacudir a enorme flacidez de um lado para o outro atraindo olhares curiosos.

-Cara, essa velha é muito doida! Comentou um exótico que mais parecia uma árvore de natal carregada de piercings, brincos e trezentas tatuagens.

-Unf, hanh, uunnhh… Respondeu um cabeludinho que gentilmente lhe retribuia um cunilinguos.               

Desinibida e completamente sem semancol, Zenobinha começou a gritar feito uma índia Yanomani em dia de festa. A segurança pensou que a tresloucada senhora estava passando mal e logo chamou o Samu. Este chegou rápido e entrou de maca e tudo. A essa altura, o vocalista da Snooze avisou – em inglês, naturalmente – que haveria uma intervenção ambulatorial no recinto, mas que logo tudo se normalizaria. A platéia não entendeu uma só palavra mas mesmo assim aplaudiu entusiasticamente. Felizmente tudo não passou de uma empolgação momentânea, de uma exacerbação zenobiana.

Refeita do susto, a platéia voltou a assistir o show deixando Zenóbia à vontade para dar seus saracoetios desconcertantes e seus urros ensurdecedores.    

O fato é que minha patroa sexagenária voltou muito empolgada e quer porque quer, montar aqui uma banda de punk rock chamada ‘Culatras & Retambufas”. Ponderei que não ficava bem uma senhora, anciã da terceira idade requebrando justamente a nedegueira em cima de um palco, a gritar entre solos ensurdecedores de guitarras elétricas. Afinal tenho um nome a zelar. O que diriam os meus amigos?

A anciã nem deu ouvidos aos meus argumentos. Disse que abandonará a psicanálise clínica e doravante se dedicará ao manuseio de microfones, guitarras e pedaleiras. Temo pela cultura portuguesa já tão aviltada e, sobretudo,  pela minha amizade com o Zé Saramago, que aliás odeia rock.

 

 Até semana que vem.

 Um abraço do

 Apolônio Lisboa

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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