“Brincadeira é predominantemente diversão, mas também é “coisa séria””

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As brincadeiras são atividades lúdicas que ninguém sabe ao certo quando surgiram, talvez tenham existido desde sempre, já que crianças fazem parte da história do mundo. Apesar dos pais e pessoas que convivem com elas entenderem pouco deste assunto, o certo é que ninguém abre mão de deixar os pequenos se divertirem à vontade, seja para se distrairem ou para deixar os mais velhos em ‘paz’. Para entender melhor o significado, a importância e as influências que este simples ato exerce na vida das crianças, o Portal Infonet entrevistou a pedagoga especializada em educação infantil, Maria José de Azevedo.

 

Portal Infonet – Brincar é simplesmente o ato de distrair as crianças? Enfim, o que é brincar?

 

Maria José de Azevedo – O brincar serve também para distrair as crianças, mas no ato de brincar, elas recriam e repensam os acontecimentos. É na brincadeira que a criança estabelece os vínculos diferenciados, tomando consciência dos papéis sociais. O brincar é divertir-se infantilmente, entreter-se. É também uma forma lúdica de experiência para a vida. Brincar é uma atividade paradoxal: livre, imprevisível e espontânea, com regras subliminares ou estabelecidas cultural e socialmente. Ao mesmo tempo brincar representa um meio de superação das dificuldades de socialização.


Infonet –
Brincadeira é coisa séria? Por que?

 

MJA – Brincadeira é predominantemente diversão, mas também é “coisa séria”, pois, mesmo sem intenção de aprender, quem brinca aprende. No contexto social a brincadeira traz aprendizagem significativa para as crianças. A aquisição do conhecimento se dá através de duas zonas: a real e a proximal. A zona do desenvolvimento real é a do conhecimento já adquirido, é o que a pessoa traz consigo. Já a proximal, só é atingida com o auxílio de outras pessoas. A zona proximal de desenvolvimento interliga-se portanto à sensibilidade do educador, família ou comunidade em relação às necessidades e capacidades da criança e à sua aptidão para integrar-se ao meio ambiente, visando ao ato de aprender a aprender. As brincadeiras que são oferecidas à criança devem estar adequadas ao seu nível de desenvolvimento.

 

 

Infonet – Quais as habilidades que podem ser desenvolvidas em alguns tipos de brincadeiras. Citar algumas.

 

MJA – Teóricos da educação afirmam que as maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação e moralidade. Portanto, as habilidades desenvolvidas levam a uma capacidade moral ou intelectual mais ampla. Quando a criança negocia o seu posto, de comando ou de submissão na brincadeira, ela estará experimentando situações formadoras do seu caráter e da sua personalidade. Quanto aos aspectos físicos, psicológicos, sociais, culturais e antropológicos, todos eles são contemplados nos diversos tipos de brincadeira. Na minha infância havia uma brincadeira que chamávamos de “marre-marré”, em que alguns representavam o papel dos ricos e outros o papel dos pobres, mas todos queriam ficar do lado dos ricos. Mesmo sendo brincadeira, espelhava a realidade do status social, da luta de classes sociais e o desejo de poder que possuíamos.

 

 

Infonet – Na sua opinião o direito da criança de brincar está sendo garantido? Ou a cada dia o que se vê são mais crianças trabalhando ou grudadas na Tv.

 

MJA – Não. Criança para mim é sinônimo de agitação, de movimento, de atividades diversificadas, é alegria e expressividade. Vemos hoje, empurrados pelos fatores sócio-econômicos, que as casas na cidade estão menores e os quintais com árvores, balanços e espaço estão sumindo. Não vemos mais crianças nas ruas brincando de corda, queimado, roda, bola, peteca… A violência também está contribuindo para que cada vez mais as pessoas estejam trancadas em suas casas e, em conseqüência, as crianças estejam mais próximas da “babá eletrônica”, para alívio dos adultos. Já o trabalho infantil não é privilégio da geração atual, embora venha se agravando cada vez mais. O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional buscam amparar as crianças e lhes conferem direitos que nem sempre são respeitados pela sociedade.

 

 

Infonet – Quais as implicações na vida de uma criança causadas pelo fato de não brincar?

 

MJA – Sem a liberdade para participar de brincadeiras, as crianças podem se desenvolver com limitações psicossociais, cognitivas e de criatividade.

 

Infonet – Existe uma forma de ‘brincar direito’, para que este ato possa gerar benefícios efetivos para as crianças?

 

MJA – Entendo que o “brincar direito”, na concepção dos adultos, é quando as crianças se divertem, respeitam as outras, não se machucam e, para alguns, não se sujem. Já para a criança, o brincar é ter prazer, divertir-se, libertar-se. As propostas de educação infantil dividem-se entre as que reproduzem a escola elementar com ênfase na alfabetização (escolarização) e as que introduzem a brincadeira valorizando a socialização e a recriação das experiências. No Brasil, grande parte dos sistemas pré-escolares tende para o ensino das letras e números, excluindo elementos folclóricos da cultura brasileira como conteúdos do seu projeto pedagógico. As raras propostas de socialização que surgem desde a implantação dos primeiros jardins de infância acabam incorporando ideologias hegemônicas presentes no conteúdo histórico-cultural. É necessário que o educador insira o brincar em um projeto educativo, o que supõe intencionalidade, ter objetivos e consciência da importância de sua ação em relação ao desenvolvimento infantil. Contudo, esse projeto educativo não deve passar de ponto de partida para a prática pedagógica que deve ser dinâmica e flexível.

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