Eleições UFS 2004: Jorge Carvalho diz que novo reitor deve ser capaz de dialogar com a comunidade

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Com a aproximação da eleição para reitor da Universidade Federal de Sergipe, o clima está esquentando no Campus. Esta semana, quando estão sendo realizadas as matrículas dos estudantes, dezenas de cabos-eleitorais fazem propaganda das chapas, dando idéia do clima que deve imperar na instituição na volta as aulas. A equipe do Portal InfoNet conversou com os três candidatos e publica hoje a entrevista com o professor Jorge Carvalho do Nascimento. Além dele, também são candidatos os professores Josué Modesto Subrinho e Napoleão Queiroz. Confira: PORTAL INFONET – O senhor poderia falar um pouco sobre sua formação e perfil? JORGE CARVALHO – Tenho 47 anos de idade e sou professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, em regime de dedicação exclusiva, além de professor do mestrado em Educação da UFS. Hoje, esta é minha única atividade profissional. Na universidade sou professor adjunto, doutor em Educação, com especialidade na área de História da Educação. Defendi minha tese de doutorado em 1997 na PUC de São Paulo. E, no período do doutorado, passei um ano como pesquisador – com bolsa Sandwich – na Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Na UFS me dedico à docência e, ultimamente, tenho lecionado no Departamento de História as disciplinas: “História da Educação” e “Métodos e Técnicas de Pesquisa de História”. No mestrado em Educação, tenho lecionado a disciplina “Educação Brasileira”. Sou pesquisador, com alguns projetos de pesquisa aprovados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ. Já tive projeto de pesquisa que foram feitos sob os auspícios da CAPES e, ultimamente, tenho desenvolvido uma pesquisa, que concluo no final de junho deste ano, sobre a história do ensino agrícola em Sergipe. Além disso, oriento trabalhos de monografia no Departamento de História, de dissertação no Mestrado em Educação, e coordeno o grupo de estudos e pesquisas em História da Educação. Sou casado pela segunda vez e tenho duas filhas do primeiro casamento. PORTAL INFONET – Dentre os problemas que a Universidade Federal de Sergipe enfrenta, o senhor poderia apontar três que considere mais graves e as respectivas propostas para solucioná-los? JC – O primeiro problema, e o mais grave que vejo na Universidade Federal de Sergipe é o fato de que a instituição, nos últimos oito anos, ter se afastado dos princípios da democracia. A UFS hoje não tem uma gestão democrática. E o que chamo de distanciamento da democracia? Primeiro: o continuísmo e a perpetuação no poder. Nós temos uma gestão na Universidade que está completando oito anos com o mesmo reitor e vice. Agora, este mesmo vice-reitor quer ser candidato a reitor para permanecer mais quatro anos, isto é, ele quer permanecer doze anos na Reitoria. Todavia, antes de ser vice-reitor, ele já havia passado quatro anos como coordenador de Pós-Graduação. Se o professor Josué eventualmente, que não acredito, viesse a vencer a eleição – acho que a comunidade já deu sinais de que não quer mais o continuísmo -, ele teria 16 anos fora da sala de aula exercendo cargos na Reitoria. É mais do que a metade da carreira dele na UFS. Ausência de democracia é, também, o fato de ter professores hoje, na Universidade, sendo processados por delito de opinião. Por exemplo, os professores Pedro Leite e Romero Venâncio, ambos da Adufs, foram processados pela Reitoria por terem cometido um crime “gravíssimo”: deram uma entrevista ao Jornal Cinform dizendo que (José Fernandes) Lima se aposentou e continuou exercendo cargo de reitor. Chamo de ausência de democracia o fato de professores e estudantes, do Colégio de Aplicação, serem processados pela Reitoria da UFS porque resolveram dar um abraço no prédio da Coordenação do Concurso Vestibular, no momento em que estavam fazendo um protesto pedindo que se mudasse a data do Vestibular – porque em função da última greve o concurso aconteceria antes de encerrar as aulas do Colégio. E o diálogo democrático que a Reitoria da Universidade teve foi processar professores e alunos, inclusive menores de idade. Se alguém perguntar ao candidato Josué, que foi quem assinou o pedido à Justiça para processar – ele estava em exercício no cargo de reitor-, sobre o assunto, ele dirá que não está processando essas pessoas e que a UFS apenas moveu uma ação de reintegração de posse. Ora, se está movendo uma ação de reintegração de posse é porque entende que as pessoas, que estão sendo apontadas como responsáveis na opinião deles, ocuparam um espaço que não deveriam ocupar. Então, uma Reitoria que entende que a presença de professores e alunos em um edifício da Universidade significa ocupação ilegal, me parece que não é nada democrática. Por último, chamo de ausência de democracia na UFS o fato de termos Conselhos Superiores – o Conselho Universitário, o Conselho do Ensino da Pesquisa -, no qual a maioria dos votos é de ocupantes de cargo de confiança do reitor. Ou seja, o reitor e seu vice aprovam hoje, nesses Conselhos, qualquer matéria que queiram. Nós temos uma situação diagnosticada que é essa e o que propomos? Vemos que é necessário que logo nos primeiros dias da nova administração seja convocada uma assembléia estatuinte, na Universidade, para mudar os estatutos da UFS e estabelecer padrões de funcionamento democrático da instituição. Para evitar que professores continuem sendo processados por delito de opinião, e que alunos e professores não possam se manifestar livremente, no ambiente do Campus. Para fazer com que os Conselhos se tornem mais representativos e democráticos, para retirar esse monte de ocupante de cargo de confiança que ocupa as cadeiras e que encaminham os interesses do reitor e do vice-reitor. PORTAL INFONET – E quais seriam os dois outros problemas? JC – O segundo problema que se diagnostica é a degradação das condições de trabalho na UFS. É uma forma de degradação sobre a qual não é necessário fazer grandes comentários, basta caminhar pelo Campus e ver as condições sob as quais trabalhamos, e que não são as mais adequadas. Somos uma universidade que se hoje recebe uma pessoa que venha tratar de seu interesses, e acontece algum acidente – a pessoa cai e bate a cabeça na calçada, por exemplo – não existe um posto médico para atendê-la. Uma instituição na qual circulam, diariamente, mais de cinco mil pessoas. Outro ponto: na UFS, para cada professor, corresponde um grupo de 17,3 alunos. Se você for a Universidade Federal de Alagoas, para cada professor corresponde um grupo de 11 alunos. Os dados que estou citando são estatísticas da Secretaria de Ensino Superior, do Ministério da Educação, publicada em 2002. Se analisarmos os dados, na UFBA a proporção é de 10,4 estudantes para cada professor; em Pernambuco é de 16,8 estudantes; na Paraíba 11,6; no Rio Grande do Norte, 13,7; no Ceará é de 14,8 estudantes. Estou dizendo: somos a universidade federal da região Nordeste na qual o professor tem as piores condições de trabalho. Não vejo, por exemplo, a nossa Reitoria debatendo essa situação. Precisamos de um plano de expansão da Universidade. Estamos encolhendo e não podemos continuar sendo a menor universidade federal. A Reitoria da UFS tem feito uma propaganda muito grande dizendo o seguinte: que na gestão deles o número de doutores pulou de 50 para 150. Isso é verdade. Agora, esta é uma verdade de pé de barro. O número absoluto impressiona, mas se você pegar o número relativo, proporcional, percebe que crescemos pouco. Formar doutores não foi um programa da UFS, foi um programa do Governo Federal. Todas as universidades federais neste período fizeram a mesma coisa. Em Sergipe, por exemplo, cresceu 200% o número de doutores, mas na Universidade Federal de Rondônia cresceu 800%. É um exemplo para demonstrar como se faz propaganda enganosa. Tentam manipular dados para impressionar a comunidade universitária, mas as nossas condições de trabalho estão degradadas. Posso dizer que na Região Nordeste existe 110 professores doutores para cada grupo de um milhão de habitantes. Em Sergipe somos apenas 100 professores doutores para cada milhão de habitantes. Ou seja, estamos devendo a população. A UFS tem que reunir as forças da sociedade para ampliar o quadro docente da instituição. Anualmente temos visto o reitor e o vice-reitor correndo para aprovar emendas no orçamento, e todas que eles aprovam são para fazer obra. E sabe o motivo? Vivemos na UFS a síndrome do prefeito do interior. Eles estão mais interessados em colocar placa em parede do que fazer com que a UFS cumpra a sua atividade fim. Hoje a Universidade tem feito muita coisa, por conta de um esforço extraordinário dos seus docentes, de seus técnicos administrativos, esforço pessoal extraordinário dos seus discentes. Os professores da UFS vivem diariamente com os seus computadores conectados na Internet, procurando os editais que as agências de financiamento a pesquisa publicam, para concorrerem a essas verbas. A UFS não dá assistência nenhuma para que esses professores elaborem esses editais. PORTAL INFONET – E o que mudaria com a gestão “Novo Tempo”? JC – Queremos ter um centro de atendimento ao pesquisador da UFS, para auxiliar os professores e assessorá-los na elaboração de projetos, na apropriação de custos, no encaminhamento desses projetos, na discussão dos mesmos com as agências de financiamento. Assessorá-los colocando profissionais de contabilidade e economia à disposição deles, para na hora da prestação de contas, esses profissionais acompanharem a elaboração dos relatórios. Infelizmente, hoje eles não recebem nenhum tipo de assistência da UFS. PORTAL INFONET – Com relação ao problema de contratação de mais professores para a UFS, não seria necessário que o Governo Federal demonstrasse mais boa vontade neste sentido? JC – Em política não existe boa vontade. Há relação de força. O reitor não é capaz de mobilizar deputados e senadores para fazer um edifício e colocar uma placa com o nome dele? Por que não mobiliza para lutar pela expansão do quadro da UFS? Há dois anos foi criada uma nova Universidade Federal na Paraíba, com um quadro docente maior que o nosso, a Universidade Federal de Campina Grande. Antes a unidade era apenas era um campi da Federal da Paraíba. A coisa mudou porque o reitor de lá teve sensibilidade de mobilizar as forças da sociedade do Estado para pressionar o Governo Federal e fazer crescer o quadro. O Tocantins é um Estado que tem uma população menor que a de Sergipe, mas ganhou uma Universidade que já nasceu maior que a nossa. Considero que é uma questão de omissão da nossa Reitoria, de falta de planejamento e incapacidade gerencial. Dá para se admitir que uma universidade pequena e pobre como a nossa devolva dinheiro do Ministério da Educação para comprar livro para a sua biblioteca? A UFS fez isto ano passado. Recursos que o MEC mandou para adquirir livros para a biblioteca e isso sem nenhuma justificativa. Há um nome: incompetência gerencial. PORTAL INFONET – O terceiro problema… JC – A terceira questão é sobre a inserção social da UFS. Temos na Universidade professores, pesquisadores, técnicos, estudantes, tomando iniciativas e fazendo trabalhos extraordinários. Todos sem ajuda da Universidade, sob condições que não são as ideais. A UFS não estabeleceu ainda, através de sua Reitoria, que teria obrigação de fazê-lo, um canal para mostrar a sociedade o que é que sua comunidade está fazendo aqui e que seria útil para a vida social. Para trazer da vida social as demandas das coisas que poderiam, e poderão, ser produzidas aqui. Pretendemos estabelecer este canal para que o trabalho que é feito seja um trabalho que a sociedade conheça. Seja útil a vida social e da Universidade. PORTAL INFONET – De que forma vocês fariam isso? Já têm idéias de alguns mecanismos que poderiam ser utilizados? JC – Há vários mecanismos que podem ser utilizados. Primeiro: a assessoria de comunicação da UFS precisa deixar de ser o escritório de propaganda do reitor e do vice-reitor. Hoje o boletim da UFS é só para dizer de qual solenidade o reitor e o vice participaram, mas não fala do professor da Engenharia Química que faz a experiência no laboratório, na área de engenharia de alimentos, por exemplo. Não diz do que é que os professores do Hospital Universitário estão produzindo e das atividades de prestação de serviço à sociedade que ele tem. Não é possível que uma universidade que tem uma assessoria de comunicação utilize a mesma para fazer propaganda personalista do reitor e do vice e não, por exemplo, para divulgar os trabalhos de pesquisa e extensão que seus professores e estudantes e técnicos estão fazendo aqui dentro. Outra observação: temos, há dez anos, o curso de Comunicação Social na UFS e, por incrível que pareça, nenhum dos assessores é egresso da instituição. Outra coisa: a Universidade Federal de Sergipe não tem ainda uma emissora de rádio regular funcionando – que também seria um excelente instrumento para divulgar a instituição -, para ser laboratório desse curso. Ou seja, os estudantes e professores estão ávidos e interessados em fazer e falta gerenciamento, falta administração. A visão que temos hoje, da Reitoria, é de um grupo de burocratas que estão, há doze anos, gerenciando a Universidade. É necessário que se discuta com a comunidade universitária as prioridades para aplicar os recursos da instituição. Dou um exemplo: este ano, quando começou o semestre letivo, o restaurante universitário estava parado porque precisava de R$ 4 mil para comprar um peça de reposição da caldeira. Todavia, a Reitoria levou para o Hotel da Ilha os assessores do reitor que comeram e dormiram no local a título de fazer o Planejamento Estratégico da UFS. Esta reunião custou a universidade R$ 7 mil. Será que aqui no Campus não tinha nenhum auditório onde esses assessores pudessem se reunir para fazer o Planejamento Estratégico? Será que a Universidade, que não tinha R$ 4 mil para comprar uma peça que faria o restaurante universitário voltar a funcionar, tinha R$ 7 mil para pagar uma conta de hotel dos assessores dele? PORTAL INFONET – Essa não é uma questão de dotação específica? JC – Não. Existe dinheiro de custeio e existe dinheiro de investimento. Concertar equipamento é dinheiro de custeio, não investimento. Pagar conta de hotel é custeio, não investimento. E mesmo que não fosse, que fosse outra rubrica diferente, uma universidade que tem tantos auditórios no Campus precisa pagar R$ 7 mil a um hotel para fazer uma reunião? Só se estivesse nadando em dinheiro. Uma universidade onde falta tinta nas impressoras dos micro-computadores e papel? Falta mesmo é prioridade. A Reitoria precisa se mobilizar e enviar seus técnicos para conversar com as instituições públicas, privadas, com movimento sindical, com as diversas organizações políticas, administrativas, sociais, para mostrar quais são os programas que temos aqui. È só questão de querer. O problema é que os professores fazem seus projetos, são bem sucedidos, mas institucionalmente a Universidade não toma providências para fazer com que os resultados disso cheguem à sociedade. PORTAL INFONET – Apesar da limitação do poder de atuação do reitor, como a atuação da chapa “Novos Tempos” poderia mudar isto? JC – Há um ponto de partida essencial. A UFS tem uma administração muito personalista. Sou professor efetivo desde 1991, antes era substituto. Até hoje não conheço um reitor que tenha vindo aqui consultar, por exemplo, o meu Departamento, sobre como vai ser aplicado o orçamento do ano que vem. Esse é um tipo de discussão que tem sido feita a portas fechadas, nos hotéis, entre o reitor e seus assessores. Ora, os recursos são poucos? São. Mas como algumas universidades federais têm tido mais êxito que a nossa? Por ter um sistema de gestão diferente. Entendemos que apenas uma gestão democrática, participativa, que ouça a comunidade sobre como vai aplicar os recursos que recebe, vai poder mudar esse quadro. Há limitação, mas não existe apenas para a UFS, existe para todas as outras instituições, que têm conseguido resolver seus problemas e têm conseguido crescer, diferentemente da nossa. Precisamos crescer para superar os limites que estão postos hoje. O novo reitor deve ser uma pessoa capaz de dialogar com a comunidade universitária. Algo que não acontece hoje. PORTAL INFONET – Algum partido político apóia a iniciativa da “Novo Tempo”? Quem banca a campanha da chapa? JC – A chapa “Novo Tempo” não tem a participação de nenhum partido político. O financiamento está se dando do seguinte modo: nós temos um grupo de colegas professores, da instituição, que se comprometeram dar, mensalmente, R$ 100,00. A campanha da chapa “Novo Tempo” está sendo financiada, então, pelos professores da UFS. Temos nos reunido todas as sextas-feiras, às 17 horas, e discutido os rumos da campanha. Com essa ajuda estamos financiando o nosso material. Também tenho recebido apoio de técnicos, que doam R$ 50,00, e estudantes, que contribuem com quanto podem. Confira a entrevista com o professor Napoleão Queiroz. Confira a entrevista com o professor Josué Modesto Subrinho. Participe da enquete: “Quem seria o reitor ideal para a UFS?”.

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