“O Pequeno Príncipe na Empresa”, por Araripe Coutinho

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Quando Antoine Saint-Exupéry lançou “O Pequeno Príncipe”, não imaginou que sua obra pudesse ser tão estudada e direcionada, anos depois, para o mundo dos negócios como um ponto quase que surreal. O tema poético e infantil do livro nos remete a interpretações amplas, capazes de nos colocar frente a um mundo egóico e cheio de concorrência, mas que, longe desses tempos de culto ao lucro fácil e imediato, remete o homem a uma infância perdida, onde, aplicando os ensinamentos de Exupéry, pode-se ir cada vez mais longe.
 
O livro escrito pelo professor Edgar Freitas “O Pequeno Príncipe na Empresa”, de início causa fascínio e rejeição. Como pode, por força da depuração cultural que se coloca, que o mundo dos negócios é para somente aqueles racionais, meticulosos e matematicamente precisos, levar à discussão ensinamentos de um escritor francês que acreditava que ‘o tempo que você perdeu com a sua rosa foi que fez a sua rosa tão importante’. Ou ainda ‘a gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. ‘Se tu queres um amigo, cativa-me’.

 

É exatamente por aí que Edgar Freitas quer introduzir  Exupéry na vida dos homens dos negócios, dos estudantes de administração de empresas. E consegue. A sua narrativa e o domínio completo da matéria mostra um mundo dos negócios  nem sempre entendido assim. A globalização e o automatismo das profissões com a urgência de resultados e transformações coloca, quase sempre, o empregador, líder ou patrão no ponto de todas as ambigüidades. Ou humaniza-se, compreendendo o ser como produto de seu sucesso e vitória  ou contrata, como muitos fazem  por seis meses e  demite e nunca  tendo  na empresa futuros líderes, apenas autômatos mandados.

 

Esta cultura fruto do coronelismo e herança familiar, fez do mundo, e, mais particularmente do Brasil e do Nordeste, um tipo ‘de manda quem pode, obedece quem tem juízo’. Com o “Pequeno Príncipe na  Empresa”, esses paradigmas vão sendo, aos poucos mudados, mostrando que todos, independente da engrenagem, formam um mesmo ponto de convergência que é o sucesso ou o desmoronamento de um negócio  ou de uma empresa.

Formar líderes, mudar consciências, levar discussões novas à sala de aula, nunca foi tarefa fácil, principalmente num mundo de best sellers que ensinam desde dietas milagrosas ou / em como ficar rico vendendo pastéis. Com este livro, além de um achado, o estudante, o professor ou empresário, poderá  visualizar uma nova maneira de dotar a sua empresa e o seu modus operandi  não apenas de tecnologia última geração e máquinas e auditorias infalíveis, além de pesquisas de mercado e excelência de qualidade, mas do humano tão ressaltado na obra de Edgar Freitas, que cita Saint-exupéry apenas como um modelo, que ele mesmo como mestre detectou tão cedo, mostrando a relevância que advém do humano em todas as suas dimensões.

Citando Gardner Gillespie, advogado e associado do Hagan&Hartson, importante  escritório jurídico de Washington: ‘Vivemos uma era de experimentações. E podemos muito bem estar errados’. Aberto às discussões e linhas de pensamentos, é certo que se pode estar errado quando se aponta novo horizonte, novas linhas de ações e, principalmente, quando se usa o livro “O Pequeno Príncipe” como  pano de fundo para se chegar a um conceito pleno e absoluto de excelência.

O mais importante do livro “O Pequeno Príncipe na Empresa”’, não é a diversidade de pensamentos que ele pode causar, nem a quantidade de seguidores que ele pode aderir para si. É a perspicácia inteligente de um homem experimentado, como o autor, que  mesmo sem usar a primeira pessoa, demonstra o porquê do sucesso do seu empreendimento, já que administra hoje uma Faculdade. Assim, com as reformas pretendidas, principalmente de consciência, “O Pequeno Príncipe na Empresa”, abre os sentidos dos leitores para uma razão maior de qualquer empreendimento: o humano.

Deveria vir todo livro com tarjas pretas, seu efeito colateral, de início, causa rejeição, mas depois, com certeza, fascínio. Tivesse sido escrito “O Pequeno Príncipe na Empresa”, por um americano, e Hilda Hilst estava certa quando disse: “Aprenda inglês. Só publique em inglês, porque você pode escrever uma obra prima em português que nada acontece”. Talvez seja  o enigma da esfinge. Edgar Freitas achou  o caminho. O livro “O Pequeno Príncipe na Empresa” não descarta as chaves mágicas do bom empreendedor, do líder, da empresa bem-sucedida. Acredita que o capital intelectual é igual ao capital humano mais o capital da economia de mercado mais o capital estrutural.

Compreende a gerência do conhecimento e as estratégias de gerência e exploração do capital intelectual: a organização que aprende, o paradigma complexo da gerência do conhecimento, o pensamento sistêmico, o domínio pessoal, os modelos mentais, a visão compartilhada, a aprendizagem em equipe, a liderança. Citando Exupèry, Edgar Freitas, constrói os capítulos a seguir, usando citações do “O Pequeno Príncipe”. No capítulo “Os baobás”, onde Exupéry acredita que ‘um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando…’ O autor conclui que é assim mesmo na vida real. “Os baobás que insistiam em brotar no planeta do Pequeno Príncipe podem ser comparados aos problemas, conflitos e desafios que afetam as organizações”. E concluiu: “É no desafio do exercício intenso que os músculos se tornam fortes. É, até mesmo, no sangrar das bolhas que as mãos se tornam resistentes. No calor do fogo, o ouro se torna cada vez mais puro e na lapidação da pedra bruta, revela-se o diamante mais precioso”.

O livro “O Pequeno Príncipe na Empresa”, 213 páginas, Editora Fanese, é quase que uma leitura obrigatória para quem um dia apelidou de mundo dos negócios o desejo de ser um profissional  de Administração. Rótulos à parte, profissionais bem sucedidos,  humanos ou arrogantes, homens de sucesso ou vitórias não colhidas, histórias de diferentes matizes em qualquer lugar do mundo, nas mais diversas mudanças da civilização, num mundo onde globalização, mercado e excelência, já são palavras gastas – não importa. O Pequeno Príncipe é sempre a possibilidade de acender lampiões. “Tem que acender o farol pela noite e apagar pela manhã”.

Edgar Freitas, talvez pelo seu aguçado bom gosto pela arte dramática, por escritores como Flaubert, Ana Cristina César, Rimbaud, Drummond, Pessoa e artistas como Tomie Othake, Monet, JoséLima, Iberê Camargo e uma requintada permanência com os grandes cineastas como Almodóvar, Felline, Luccino Visconti, além  de uma intensa procura por formas que dêem ao homem a mais sutil forma de pensar e de agir. Ainda que seja como administrador de empresas ou líder, encontrou em Saint-Exupéry as respostas para centenas de indagações que exige o novo-velho milênio.

O autor se debruçou, buscando o que Rilke, Rainer Maria, disse ‘não acredites que o destino seja mais do que a infância e do que nela contém’. E Exupèry, deixa claro isto, que é preciso colocar o humano em seu devido lugar, julgá-lo pedra preciosa e rosa importante.Ter cuidado com os baobás, implica também na compreensão dessa verdade.
 
Em tempo de  George Bush, Silvio Santos perguntando “Quem quer dinheiro?”, greve de banco no governo dos trabalhadores, barbáries institucionalizadas e imbecilização da mídia e prêmios comprados, de mundo com equações supostamente prontas para se vencer esquecendo-se do outro é importante ouvir a voz de Exupéry e de Edgar Freitas, ainda que  só compreendam isso com o passar dos anos.

*Araripe Coutinho é membro da UBE/SP, membro do Mac da Academia Sergipana de Letras.

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