Emancipação Política de Sergipe completa 199 anos: o que comemorar?

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O professor Luiz Fernando Soltelo explica o processo de emancipação política do estado (Foto: ASN)

O Estado de Sergipe completa nesta segunda-feira, 8, 199 anos de independência política da Bahia. Em quase dois séculos de emancipação, a trajetória da ex-colônia baiana mostrou que os primeiros anos da conquista da liberdade política trouxe o desafio de ‘andar sozinho’, com as ‘próprias pernas’. O professor e historiador Luiz Fernando Sotelo afirma que a independência da Bahia não foi um processo ‘automático’ e, por isso, nos anos que se seguiram à emancipação, Sergipe e Bahia continuaram a manter relações que até hoje deixaram algumas heranças.

Cópia do decreto imperial assinado pelo imperador D. João VI (Foto: Portal Infonet)

O Decreto 

O ponto de partida para a emancipação política de Sergipe foi o decreto imperial de D. João VI, assinado em 08 de julho de 1820, emancipando o estado sergipano da Bahia. Mas segundo o professor Fernando Sotelo, a conquista da independência, nos âmbitos políticos, econômicos e sociais, foi “doída’ e “demorada”. “Um ano depois do decreto, o primeiro governador de Sergipe, Brigadeiro Carlos César Burlamaque, foi deposto por tropas vindas da Bahia e levado para Salvador”, conta Sotelo.

Ele explica que a emancipação de Sergipe degradou ao governo baiano porque o estado sergipano representava uma grande fonte de renda. “Sergipe representava 1/3 das rendas da Bahia. Era uma porcentagem a menos de receita para o estado baiano”, informa. Além disso, alguns importantes industriais de Sergipe não apoiavam a emancipação, pois temiam sofrer grandes perdas financeiras. “Alguns sergipanos que eram ligados aos interesses da Bahia lutaram contra a emancipação”, reitera.

Escritor e professor Luiz Fernando Sotelo (Foto: Portal Infonet)

Brasil e Sergipe

O professor explica que houve dois marcos importantes para o reconhecimento da liberdade política de Sergipe. “O primeiro foi em setembro de 1822. A independência do Brasil se casa com a de Sergipe”, diz Sotelo. Em virtude disso, as demais autoridades da época que aderiram a independência do Brasil também passaram a aderir a emancipação política do território sergipano.

Ainda neste contexto de independência, Sotelo ressalta que em 05 de dezembro de 1822 o imperador D.Pedro I, filho de D. João VI, reitera o decreto assinado pelo pai em carta enviada ao governo baiano. “Numa correspondência à junta governativa da Bahia, o imperador D. Pedro I disse que o governo baiano tinha que ‘eleger um determinado número de deputados, excluindo-se daí aqueles que serão eleitos por Sergipe, que é independente desde Carta Régia de meu pai, datada de 08 de julho de 1820′”, resume o professor.

Ele lembra também que o dia 24 de outubro foi muito comemorado no passado, mas que por não haver consenso entre historiadores sobre a importância da data ela foi abandonada. “Muitos acreditavam que este dia teria sido a data de posse de Burlamaque, primeiro governador de Sergipe. Mas escritos mostraram que na verdade ele havia tomado posse em 24 de julho de 1822; não em outubro”, argumenta.

Independências

A partir da independência política em 1820, Sergipe ainda dependência da Bahia, que à época passou a ser o seu principal comprador de produtos sucroalcooleiro (derivados de açúcar), portanto, seu principal parceiro comercial. “Eu  costumo dizer que a verdadeira independência veio aos poucos durante os séculos”, conta. Em síntese, ele divide essa independência a partir dos anos de 1850, quando o então governador Inácio Barbosa investiu na produção de açúcar, ao invés de só comercializá-lo com a Bahia. “Como o comércio daquela época era marítimo, durante o trajeto pelo mar o açúcar perdia qualidade por entrar em contato com a maresia e o ar. Então Inácio Barbosa decidiu pesar e vender o açúcar que era plantado no território sergipano”, relembra.

Outro marco importante foi a descoberta de petróleo em terras sergipanas na década de 60. “O que coroou nossa independência econômica da Bahia foi alguns pontos de petróleo achados no município de Carmópolis. Desde então, Sergipe começou a ter uma importante fonte de renda. Aumentando, assim, seu poder econômico”, explica. E, por fim, segundo o professor, ainda a década de 60 trouxe ao estado o primeiro grande polo de disseminação de conhecimento. “Em seguida à descoberta do petróleo veio nossa independência cultural com a criação da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em 1968”, afirma.

Laços com a Bahia

Mesmo com esse panorama de separação entre os estados, o professor Sotelo acredita que há mais coisas que os une em comparação com as coisas que os separam. “Embora tenhamos conquistado nossa independência em vários setores, há laços entre Sergipe e Bahia que duram até hoje”, acredita. Ele faz referência as pessoas que moram na região Sul de Sergipe, como no município de Estância, que ainda mantêm uma maior ligação com Salvador do que com Aracaju. “Algo semelhante acontece com alguns municípios fronteiriços da Bahia, a exemplo de Olindina, Coronel São João Sá, Jeremoabo e Paulo Afonso, que têm uma ligação com Sergipe”, diz Soltelo. “Para algumas pessoas dessas cidades é mais fácil vir a Aracaju para estudar ou trabalhar do que ir a Salvador. Se há uma ligação nossa com a Bahia, há também uma ligação dos baianos para com os sergipanos”, completa.

Por João Paulo Schneider 

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