O Fenômeno Bolsonaro

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A grande imprensa nacional está batendo a cabeça, seguida pelos jornais menores que a acompanham acriticamente, em todo azimute, latitude e longitude, pelo país adentro.

 

O “Estado de São Paulo”, por exemplo, manifesta sua insatisfação no editorial de hoje, 22/08, com o título “Bolsonaro e a imprensa”, cuja chamada bem convoca, em toques de alerta, suas “tropas”, país afora.

 

Diz o jornalão paulistano: “As ‘opiniões’ desse candidato sobre ditadura, mulheres, homossexuais e bandidos já são conhecidas. É preciso questioná-lo sobre Previdência, dívida pública e outros temas cruciais”.

 

É como se estivesse a dizer um basta a tantos jornalistas em cercos rebatidos por um cara sozinho espremido no corner pela imprensa.

 

Os que trocam sopapos numa luta de boxe ficam vulneráveis, quando acuados num canto de ringue.

 

Nos quatro cantos de um ringue, o pugilista acuado tem 270o de seu entorno limitado por cordas.

 

Nos 90o da liberdade que lhe resta, o boxer recebe jabs e uppers de todos os lados, e tem sua defesa restrita a um ângulo agudo de quase 45o, incapaz, até mesmo de abrir os próprios braços.

 

Quem viu os debates da Globonews, constatou, por exemplo, que construíram um cenário imitando um espelho esférico; os jornalistas ocupando a concavidade, de modo a bem mirar o foco, onde estava situado o candidato entrevistado, numa posição excelente para ser fuzilado qual inerme adversário.

 

Os que estudam óptica, sabem que os raios incidentes sobre o foco de um espelho esférico, ou mesmo parabólico, nunca divergem, nem erram a mira.

 

De Arquimedes de Siracusa, narra-se o feito de ter defendido sua cidade contra o ataque dos romanos, incendiando as galeras de Roma, utilizando para tanto os escudos metálicos das tropas siracusanas, posicionando-os como espelhos parabólicos, de modo a dirigir os raios solares convenientemente sobre a madeira dos barcos invasores.

 

Uma providência hoje bastante comum, utilizada em alguns coletores ou aquecedores solares, de fácil construção e manutenção.

 

A má construção, por pior imitação, no debate da Globonews, se deu todavia, porque os raios porventura vindo do foco de um espelho são refletidos paralelamente ao seu eixo, em demanda ao infinito, antes fulminando inexoravelmente a sua superfície refletora.

 

Ou seja; o cenário restou excelente para o candidato Bolsonaro responder agressiva e certeiramente os petardos recebidos.

 

Fosse eu um cartunista gozador, tal cenário bem me serviria para bons risos em imagem ou vídeo.

 

Porque na minha interpretação do filme, havia ali um semicírculo de combatentes, todos armados até os dentes, inclusive com artilharia de supremo calibre destrutivo, munição farta, por fulminante e letal, mirando no Bolsonaro, vulneravelmente situado no foco da curva, mas que se defendia, aparando e devolvendo certeiramente, com suas mãos nuas apenas, os petardos recebidos, calando a totalidade dos seus entrevistadores, devolvendo, por simples reflexão, os golpes recebidos.

 

Bolsonaro utilizava bem melhor o cenário, empregando apenas as leis refletivas de Descartes-Snell aplicada aos espelhos curvilíneos, deixando seus agressores, tão chumbados, quão atordoados; e saindo mais vivo e fagueiro do que dantes.

 

Talvez, porque pensasse igual ou parecido, o Editorial do Estado de São Paulo, deste 22/08, explicita uma sua preocupação, utilizando para tanto um texto de 660 palavras, das quais 186 se referem ao candidato Bolsonaro, e 406 sobre uma constatação de sucesso fulcrada em Donald Trump, o “malfadado” Presidente Americano, bem como outras palavras de inconformismo com as notícias vindas da Europa.

 

O Editorial lamenta a ascensão dos partidos populistas de direita no velho mundo, citando que “a ascensão do Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) confundiu o establishment – contra o qual, não à toa, esse partido populista de direita diz lutar”, e por causa de tal constatação (equivocadamente para o Estadão), ter recebido “13% dos votos na eleição de 2017 e 94 cadeiras no Parlamento”.

 

Uma surpresa, tão lamentável, porque se tornou “o primeiro partido com esse perfil a ter relevância política na Alemanha desde a derrota do nazismo na 2.ª Guerra”.

 

Mirando em Bolsonaro, apoia-se o jornalão numa notícia, cuja tradução tedesca não apresenta, na qual, no dia 12 de julho passado, um jornalista alemão, Thomas Walde, experimentara algo diferente, ao entrevistar para a rede de TV ZDF, daquele país, um dos principais líderes do AfD, Alexander Gauland, tratando-o como um político qualquer, e não como um porta-voz estridente de grupos xenófobos, racistas e eurocéticos.

 

Segundo o Estadão, ao ser questionado sobre temas a respeito dos quais todos os partidos têm de lidar, e que são muito caros aos alemães, como mudanças climáticas, aposentadoria e avanços da vida digital, houve uma verdadeira desconstrução do discurso de Gauland,

 

O segredo de tal desconstrução, segundo o jornal, teria sido desvendado pelo Thomas Walde ao não ter proposto nenhuma pergunta a respeito de imigração, pois sobre isso todos já sabiam qual era a posição do AfD.

 

“Com alguma ironia”- explicita o Editorial do Estadão, que vale a pena citar até por desconfiança da fonte a confiar – “o jornalista Walde queria saber qual era afinal a ‘alternativa’ defendida pelo AfD para essas questões, uma vez que o partido se apresenta, já em seu nome, como ‘alternativa’”.

 

E prossegue como resultado: “Gauland não soube responder, demonstrando publicamente o imenso despreparo de seu partido – que se limita a propor a implosão do establishment sem conseguir dizer o que pretende colocar no lugar”.

 

Quer o Estadão, amparando-se na revista americana “The Atlantic”, que reverberara tal entrevista, dar “uma lição a ser aprendida pelos jornalistas dos Estados Unidos a respeito de como tratar o presidente Trump e a extrema direita”, e por extensão, por que não!?, toda a mídia brasileira, no caso de Bolsonaro.

 

Prosseguindo ainda, o Editorial finaliza, agora centrando sobre o “mal digerido Mito”: “As ‘opiniões’ desse candidato sobre a ditadura, mulheres, homossexuais e bandidos já são bastante conhecidas; é preciso, a partir de agora, questioná-lo sobre Previdência, dívida pública, responsabilidade fiscal, planos para educação, saúde e saneamento básico, entre outros temas cruciais para o País”.

 

Ou seja: “é preciso tratar Bolsonaro, afinal, como um candidato como outro qualquer”.

 

Os Estadão, como todos os engenheiros de obra feita, sempre veem defeito na pedra angular assentada.

 

O mesmo se pode dizer da fuzilaria mal assestada.

 

Adiantando-se ao conselho do Estadão, o jornalista Reinaldo Azevedo, escrevera em 31 de julho passado, o post “Bolsonaro no Roda Viva 1”, dizendo que não se pode dar a alguém como ele a chance de atuar como um arruaceiro de cervejaria na Munique de 1923”.

 

A profilaxia ditada por Azevedo é idêntica ao Editorial do Estadão.

 

O diagnóstico, todavia se faz odiento e equivocado a saber, porque o novo exemplo de “arruaceiro de cervejaria na Munique de 1923” não estava, no programa Roda Viva, respondendo a despreparados, por preconceituosos jornalistas, nem a equivocados prosélitos. Ali estavam jornalistas que não se contemplam despreparados, nem tão piores; deformadoras de opinião.

 

Hitler, o “arruaceiro”, quando discursou na cervejaria de Munique, não falava a bêbados, mas a um auditório que se fez crescente em alucinação coletiva incontrolável. Tudo aquilo que não acontece ao acaso, como efeito sem causa.

 

Ironicamente, no debate da rede TV que se seguiu depois, o próprio Azevedo, exercitou sua estratégia, quando inquiriu Bolsonaro, não sobre a morte de Odete Roitman e Salomão Ayala, mas sobre a dívida interna, inadimplência que o candidato jamais iria, nem nunca irá dissertar, pois se há alguma solução, esta não lhe dará voto nem aplauso.

 

No máximo, a pergunta de Azevedo resvala ao lugar comum, produzindo queda de audiência do debate, enquanto programa televisivo, afinal por regra geral, tal resposta se faz ilusória, senão demagógica, por todos candidatos.

 

Em disputa eleitoral, é bom até aprender com Hitler, porque é muito fácil desqualificar o que não nos agrada, valendo tudo, até reconstruir o caos. O difícil é fazer do nosso agrado uma preferência geral.

 

O mesmo Estadão que desconstrói o Lula, notória preferência nacional, incomoda-se com a liderança bolsonária, atrabiliária e passionária.

Como se diz comumente: “Vá! calunie audaciosamente, alguma coisa sempre fica…”

 

Há, todavia, uma lição Goebeliana, que pode ficar como escólio conclusivo, afinal toda versão pode restar lesta, presta, e até funesta!

 

Ela vem de mais longe, e é atribuída a Francis Bacon (1561-1626): “Como se diz comumente: Vá! Calunie audaciosamente, sempre ficará alguma coisa…”

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