A Carta

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Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 2007.

 

Mamãe,

 

Desde que cheguei, esta é a segunda vez que escrevo. É falta de tempo e vivo cansado porque o trabalho aqui é diferente que aí. Trabalho o dia todo e acordo de madrugada para pegar transporte, ônibus e metrô e quando chego onde moro, no Favelão já de noite, vou dormir e daqui a pouco estou acordando para voltar, hoje escrevo com folga porque é feriado. Os domingos, sou sincero, eu durmo até mais tarde, converso e tomo umas e outras. Até que já fui ao Maraca, que loucura! Vezes vou a uns bailes com meus primos e até namoro, mas nada de  sério. E o pai? Essa é a vida aqui, feito um escravo da construção e ainda dizem que eu tive sorte que tenho carteira assinada, só se for sorte… ói, vou ficar calado. Mas se perguntarem diga que eu estou bem, mas não aconselhe ninguém vir pra aqui, vida de pobre aqui é pior que aí, só não volto logo porque tenho vergonha. A vida aqui no morro estou entrosando tenho um amigo que é de dentro daquilo, a senhora sabe, né, de dentro dos donos daquilo, mas ele me garantiu que se quiser entrar eu entro tem mais dinheiro, mas se não quiser tudo bem só não pode é ficar dedurando o que vê por aqui nem em conversa com a polícia. Eu disse o que a minha avó dizia: em boca fechada não entra mosquito. Ele bateu com a mão aberta na minha gritando: é isso aí, mano! Vou terminar e saudades de todos. Não pude mandar presente de Natal. E o ano novo vai ser a mesma coisa pra mim. Benção, mãe, do seu filho José.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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