A felicidade é uma ilha

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Na felicidade tem um pé de manga

Na felicidade tem uma mangueira centenária cravada no meio do terreiro, tronco que precisa de cinco pessoas pra abraçar, retorcido e velho, uma avó carregada de mangas e flores – já é verão! Porque a felicidade é de verão. Tem uns banquinhos e uma mesa na sombra da grande árvore-avó, tempo de não passar, escorregar frágil lento leve pelos ponteiros. O terreiro de areia solta se enche de pé de menino no fim do dia, correria, risada, grito, briga, chinelo voando e uma algazarra  mansa, alaranjando com o sol que cai. “Um dois três salve eu!” O cachorro amarelo se aninha na areia pra esfriar o corpo e coçar as pulgas. “Sua disgraça me dê minha chinela pra cá vá!” E nada tem pressa, na verdade.

Felicidade tem cabôco sentado na beira do barco contando história de visage no deslizar do rio acima. A caipora se pendurando na galharia intrincada do mangue nas margens, observando de longe quem vai e quem vem, sob o sol abrasador. E os pés molhados na água friinha da maré. Rio acima, rio abaixo, barco desliza levando gente comida sacola de roupa sonhos cansaços a feira do mês lágrima de saudade. O rio é quem sabe.

Tem um almoço servido na doçura do lar. Delicadeza é preparar comida e chamar pra sentar ao redor da mesa. Isso se chama também devoção. Comer é uma coisa muito feliz. E a gente ali comendo e contando história, de lembrar, de inventar, de ser assim sem parar de rir nunca e mangar da cara de quem come mais. Uma luz que espalha o dia. E a modorra da tarde quente que descobre uma rede pendurada no meio da praça, balançando triste e sozinha, esperando quem lhe deite e dê forma de corpo.

Felicidade é povoado quieto no mundo, escondido de carro, de fábrica, de azáfama, de “progresso”. Casa sem muro, povoamento sem rua, pé descalço na areia morna das trilhas que levam uma casa a outra sob a sombra de imensas mangueiras. Canto de todos os pássaros, barulho de bicho no mato. “Meu pai uma vez achou um tatu, bem ali ó, perto ali da Mangueira Grande. Penso que veio boiando com um pedaço de pau na maré e veio dá aqui na ilha.” A tarde aberta em azul e um vento fresco que sopra perene vindo lá do rio e atravessando toda a ilha. As janelas abertas das casas e a gente passando pelo lado. “Boa tarde!” E um responde de lá. “Ôôô!” E é quase um aboio, mas é um jeito cabôco de desejar uma boa tarde para todos sem nem levantar a vista do chapéu. “Tá boa? E sua mãe, como é que tá?” Todo mundo se conhece e fala a mesma língua, lembra as mesmas histórias, conta o tempo no mesmo calendário.

Cair de tarde de felicidade tem revoada de pássaro, tem céu pintado de todas as cores, tem fresca, lua brilhando desde cedo, as cadeiras na porta de casa se balançando, quem senta só observa nem fala nem ri, só olha o dia acabar lento. Um cheiro de café recém torrado que vem de todas as cozinhas ao mesmo tempo, e um beiju com coco bem torradinho de um lado só, que não decide se é doce ou salgado.

Felicidade, de repente, também é uma festa. Tem caruru, bobó, mungunzá e arroz doce, comidos em grandes porções. Sabores da infância, de outros tempos. Já disse hoje que comer é uma coisa muito feliz? E a gente ri daquela comida toda cheirando. Aumenta o som, traz o par pro meio do salão e arrasta a chinela no chão. Zambumba, triângulo e sanfona, mesmo que sejam só de mentirinha, vindos de dentro de uma caixa preta com zumbido de fundo. A felicidade se completa num forró animado, risos altos, menino, mulher, homem, avó, cachorro e bêbado, todos no salão. E a música não para, nem a comida, nem a alegria. A memória de um forró de candeeiro. Todos se animam de lembrar.

É noite de lua. Céu coalhado de estrelas e os caminhos todos iluminados como se os postes ainda não estivessem ali. “Sai do sereno, minino.” Dormir no silêncio dos sons noturnos, corujas enormes com cantos assustadores, uma galinha sendo morta para o almoço do dia seguinte, conversas e risos abafados de quem passa pelos caminhos e não quer acordar os vizinhos do lado de lá da janela. Felicidade, pela manhã, acorda com a galinha olhando direto em nossos olhos. “Pó pó.” O dia começa cedo, céu claro, brisa fresca, cheiro de café que acorda. A vida inteira recomeça.

A felicidade é uma ilha. E cada um que encontre a sua.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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