A loja

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Acordou muito cedo, como sempre, mas teve preguiça de levantar. Chovia para fora da janela e fazia frio até embaixo dos lençóis. Mas não fosse ele, quem cuidaria da loja? Resmungou consigo e levantou-se a contragosto para mais um dia de trabalho solitário. Depois de se arrumar, saiu de casa na neblina matinal. Ia a pé diariamente à concessionária da família, cuidava sozinho de tudo, uma vez que os filhos não admitiam ter que fazer parte de nada por ali.

Na loja, foi direto para a cozinha acender o fogo, e, enquanto a água do chimarrão aquecia, ele abriu as portas de ferro que protegiam as vidraças. Raios tímidos de sol entraram calmamente pelas grandes janelas envidraçadas para iluminar os dez carros empoeirados do salão. Estavam expostos dois fuscas zero quilômetro, uma kombi, um SP2 e uns outros modelos, todos fora de linha. Nenhum deles à venda. Há dez anos a loja não tinha mais clientes, não vendia nem comprava, circulavam por ali apenas algumas poucas almas curiosas, uns tiravam fotos dos carros, outros sentavam para um dedo de prosa com seu Otmar.

A concessionária tornara-se alguma coisa entre santuário e sanatório. Seu Otmar passeava por ali com a cuia de chimarrão na mão arrumando quinquilharias pelas paredes, ferramentas ainda expostas, as fotos da família, uma coleção de chaveiros que fora de sua esposa. A loja permanecia organizada como se ainda funcionasse, todos os arquivos em ordem e devidamente mortos, os carros expostos e silenciosos, a mesa para atender os clientes que nunca vinham. E seu Otmar passeando lembranças em horário comercial.

Naquele dia, resolveu limpar os carros empoeirados, chegou a pegar um pano úmido, mas logo começou a espirrar e tossir, os olhos marejados de tanta poeira. Desistiu da empreitada e foi organizar as fotos sobre a mesa: os filhos ainda crianças, uma lembrança do dia de seu casamento com Susi, uma foto deles dois ao lado do Karmann-Ghia azul piscina. Olhos marejados de lembrar. Abrir as portas da loja todos os dias é como não esquecer. Há os que limpam túmulos e levam flores, ele preferia ter uma loja fantasma.

Na parede havia uma coleção de chaveiros que Susi juntara por toda sua vida. Peças que ela trouxera de cada uma das viagens que fizeram juntos, presentes de amigos que conheciam a sua coleção, chaveiros comprados em dias especiais para lembrar o nascimento do primeiro filho, o casamento do mais novo, a formatura da filha do meio. Susi lembrava com chaveiros. Ela sempre fora mais simples do que ele, que precisava daquela loja inteira para não apagar uma vida – ou duas.

A esposa já morrera há anos, e ele continuava ali, tomando chimarrão, limpando os carros, colocando as ferramentas em ordem, organizando os arquivos contábeis e dos empregados. Havia sempre muita coisa a fazer na loja, embora tudo fosse de uma inutilidade espantosa. Otmar precisava das coisas mais miúdas e inúteis para continuar.

Fazia muito frio naquela manhã de inverno e, depois de limpar cada um dos porta-retratos sobre a mesa, ele achou melhor sentar-se num daqueles fuscas e se aquecer um pouco. Tirou de dentro de uma das gavetas da mesa um radinho de pilhas e acomodou-se com a cuida de chimarrão no banco da frente do fusquinha 86. Colocou o rádio sobre o painel e girou o dial. Tocava uma música antiga que falava de um amor perdido. Lembrou-se de Susi e de toda a vida que dividiu com ela, as bananas amadurecendo na fruteira, os três filhos crescendo, eles trabalhando juntos e sendo pacientes para suportar a humanidade do outro.

Pensou em vender a loja, se desfazer dos arquivos e todas aquelas ferramentas inúteis – queria guardar só a coleção de chaveiros. Os carros, podia vender a algum colecionador, alguém que valorizasse aquelas raridades. Tudo junto deveria valer um bom dinheiro. Contou moedas, fez cálculos e mais cálculos, enquanto tomava o chimarrão e ouvia o chiado do rádio. Por fim, mais uma vez, chegou à conclusão de que não teria nada a fazer com esse dinheiro.

E continuou abrindo a loja todas as manhãs. Mesmo nas mais frias.

[PS: Seu Otmar Walter Essig mora em Estrela (RS). O resto são invenções]

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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