A simplicidade só é conseguida através de muito trabalho

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  Constantemente leio notícias que mostram o aumento de casos de abandonos de animais de estimação, sobretudo cães idosos que se tornam “peso morto” em alguns lares, porque deixam de ser úteis no contexto familiar aos quais foram trazidos com a incumbência de alegrarem a casa, divertir as crianças, fazer gracinha para as visitas ou posar para fotos postadas nas redes sociais, afinal elas aumentam a possibilidade de “likes” extras. Quem não acha fofo um bichinho?

  Leio e ouço, e cada vez tenho mais a convicção de que não peco por excesso quanto sinto e penso desse modo: pobres de nós seres humanos e tudo aquilo que omitimos em nome da superioridade que julgamos ter sobre os outros animais e sobre a natureza.
  Tenho me permitido viver em muito contato com a natureza e isso tem me transformado por dentro. São muitas as vezes que largo os meus afazeres e vou visitar a praia. Como é bom viver em cidade de praia. Só se sabe isso, quem vive. Essa liberdade, o ar puro, o andar descalço sem nenhum compromisso, fazem bem a alma de qualquer um.  Os ensinamentos da natureza são muito claros e precisos, basta observar. Ah, observar… Tenho aprendido a observar desde que vivo aqui.

   Sempre digo a quem me pergunta, que talvez eu nunca tivesse começado a fotografar se ainda vivesse em São Paulo ou Buenos Aires, minhas antigas moradas. A fotografia tem sido uma descoberta possível, simplesmente porque não caminho mais pela vida atordoadamente com mil distrações, correndo de um lado para o outro, me enchendo de tarefas e compromissos. Não, não quero ser brilhante, importante ou admirada. Estou muito longe da perfeição e nem a busco. Muitas são as vezes, que sou desatinada, estou irritada, decepcionada com a aparente leviandade das amizades e alguns dessabores da vida, mas continuo bastante expansiva, não gosto de esconder rugas e nem tristezas. Sou transparente. E o prazer estampado do meu sorriso será sempre o resultado da benfeitoria em mim mesma, nunca os outros.

   Quem me conhece sabe que não tenho por hábito o costume de me esconder num quarto escuro, abafando os meus sentimentos e questionamentos. Aqui, cabe citar Jorge Luis Borges, escritor e poeta argentino, quando diz existirem no mundo pessoas que usam e não usam guarda-chuvas, eu sou dessas que se encharcam. Reconheço que por ser assim, seja talvez a razão de eu ter recebido uma parte generosa de ganhos nesta vida. Sempre me senti amada, nunca me faltou amor. Aliás são os meus alicerces emocionais que me dão impulso e abrigo quando eu me construo e me desconstruo mediante a situações que vou vivenciando.
Estou aprendendo a reconhecer os momentos felizes quando eles acontecem e não depois. É o que faço com a minha vida, o meu tempo e os meus amores que essencialmente me fazem crescer. O tempo dedicado a fotografia tem me ajudado muito a expressar os meus sentimentos. É justamente o meu olhar sobre o mundo que dá identidade às imagens que crio. Assim sendo, todo meu processo criativo tem nascido de total silêncio e pessoalidade.

   Somente depois que comecei a fotografar, foi que descobri que o essencial para se viver de verdade, para que valha a pena, é ser amado,  amar e amar-se. Esse é o maior ganho, o maior investimento e o maior crescimento que podemos ter.
Tenho descoberto por fim, a sabedoria embutida no verbo crescer. Basta nos despedirmos de hábitos inúteis, de situações e de pessoas, acreditar nos mistérios que nos acontecem e aceitarmos que sempre haverá imprescindíveis desapegos diários.  Tudo fica mais fácil assim.
Parece simples ao se falar, bem que eu queria que fosse simples, mas só se consegue a simplicidade com muito trabalho. E caminhando ….

E caminhando com quem faça valer a pena….

Foto: Arthur Soares

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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