Awana Kancha: De Cusco a Pisac

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Cusco por si só já é uma realização de um sonho de viagem com tradições, povo, rito e sabores

Cusco é inigualavelmente sem cerimônia aos olhos do turista, ao mesmo tempo que se completa em ritos, tradições, saberes e lendas. Um contraponto, não. Paradoxalmente sem igual. O seu patrimônio, o mundo o reconhece como um bem a ser preservado para a humanidade. O seu povo, guardião de tudo isso, é o que a humanidade tem de melhor. Patrimônio da Humanidade, Capital Arqueológica da América, a cidade não é somente a principal a ser visitada do Peru. O seu entorno é repleto de locais em que o turista poderão ir mais a fundo em tradições e ritos, principalmente na região do Vale Sagrado Inca, ou Vale de Huatanay.

Não é por acaso que Cusco recebe 2 milhões e 800 mil turistas/ ano (2016), 80% desses são estrangeiros em busca das celebrações, gastronomia, prédios históricos, saberes e bem mais que isso: a hospitaleira população da região do Vale dos Incas.

Nos povoados, as tradições dos toritos de Pucara

A cidade por si só já basta uma viagem ao Peru. Porém, seu entorno também é um convite a fazer uma imersão as tradições milenares dos incas. A dica é partir tão logo que o sol mostre seu brilho, em busca dessas tradições, e tão logo o transporte deixa a zona urbana de Cusco uma paisagem de montanhas, vales, povoados e cores se faz presente em riqueza de detalhes.

Ao primeiro olhar, percebe-se que no telhado das casas há dois touros. Os Toritos de Pucara são conhecidos em muitas partes do mundo, mas esta tradição começou em um “pueblo” chamado Pucara, a 10 Km de Puno, onde pequenos tourinhos eram colocados nos telhados das casas como elemento de proteção, energia e fertilidade para as famílias que nelas moram.

Por vezes, observa-se campesinos vendendo milho em fornos feitos de barros. O milho é encontrado cozido ou assado na lenha, mas são grãos brancos e bem maiores do que os encontrados no Nordeste do Brasil.

Das mãos artesãs quéchua, tradições seculares que movimentam a economia e ganham o mundo

A 24km de Cusco no sentido de Pisac, o pueblo Awana Kancha é um dos centros de exibição da cultura peruana visitado durante todo o ano por turistas em busca do conhecimento milenar das artesãs do Vale Aagrado. À primeira vista, o pequeno vilarejo construído no entorno do centro Awana parece um pouco exótico. Ver tecelã quase que em vitrines constrangeu em sentimento como um pássaro engaiolado que desejava voar, tamanha a sabedoria e habilidade daquela gente. Mas o passeio espelhou um local de beleza e tradição ao observar, primeiramente, um museu com peças milenares do povo andino e da civilização inca.

As tradições das tecelãs de Awana Kancha

O museu é somente o início. Vasos, utensílios de cozinhas, além de vários objetos seculares de cortar a lã, terce-la, tingi-la e transformá-la em peças que ganham o mundo através das mãos habilidosas das tecelãs do Vale Sagrado.

Depois de percorrer objetos seculares, o visitante entra no mundo dos “camelídos sudamericanos” e uma cronologia do tempo e espaço mostram os paços da domesticação dos animais nos Andes Peruanos. São lhamas, alpacas, vicunhas, guanacos, desde os mais dóceis, dispostos em cercados a serem tocados e alimentados, aos mais selvagens, que pastam a uma distância maior.

As tradições, fio a fio, das tecelãs de Awana, um centro comercial e tradicional de Pisac

O condutor do espaço explica cada passo da criação dos animais e como são feitos os cortes da lã e a retirada da pele dos animais para fabricação desde peças de lã de vicunha bebe (mais raras e caras) até as peças fios do pelo da lhama.

Numa outra seção, mulheres vestidas em trajes típicos andinos tecendo as lãs retiradas dos animais fazem a festa dos turistas. As mãos rápidas e ao mesmo tempo sensíveis confeccionam em minutos tecidos. O condutor explica que o centro Awana Kancha trabalha com comunidades campesinas possuidoras das mais tradicionais habilidades têxteis.

Mulheres quéchuas parecem brincas com as mãos, tamanha  habilidade

A mulheres quéchuas (grupo de povos sul-americanos que falam o quíchua) parecem brincar de tecer espaguetes coloridos, tamanha a qualidade e a habilidade das peças. Fotografar é quase que documentar a arte milenar do povo andino ali presente.

Para completar a imersão nas tradições peruanas do Vale Sagrado, o condutor convida a conhecer uma diversidade de milhos e de batatas, também presentes nos mercados das cidades peruanas. Há mais de 4 mil tipos de batata em solo peruano, por isso o tubérculo é tão utilizado na gastronomia andina, juntamente com o milho.

Há lhamas, vicunhas e outros tipos de camelídeos no centro em visitação

Logo após o conhecimento, tudo aquilo que foi visto ali está exposto em arte em uma das lojas. As peças trabalhadas a mão são adquiridas a preços não tão convidativos, mas vale a pena uma garimpada para adquirir, ao menos, um souvenir da localidade.

Pelas ruas de Pisac e Urubamba

A próxima parada é em um mirante que se observa uma bela vista do Vale Sagrado, um vale verde e fértil cortado pelo rio Urubamba, que desce da região de Cusco e Machu Picchu rumo ao Amazonas. O rio também é chamado de Vilcanota ou Vilcamayu, significando “Rio Sagrado” em quíchua, o que corrobora a denominação do vale. A estrada é sinuosa e cheia de altos e baixos, por isso uma distância de cerca de 7km parece ser de mais de uma hora. A paisagem compensa.

Pelas ruas de Pisac

Chega-se à Pisac, uma cidadela de poucos 10.000 habitantes. Observe os transportes dos povoamentos do Vale Sagrado, que mais parecem motocicletas adaptadas, mas que são utilitários e taxis de toda extensão do vale.

A Pisac original foi povoada no século X e era um centro importante na época inca. Pare para conhecer o famoso mercado local, que ferve de gente e de barracas aos domingos, terças e quintas. O mercado ocupa alguns quarteirões entre a rua e a praça principais. Em época de chuva o mercado não faz tanto sucesso assim, mas vale a pena uma conferida.

Pelas ruas de Pisac

Dicas de viagem

Nas imediações de Awana Kancha não há hospedagem e o passeio e feito em sistema de bate e volta ou quando se alonga até outros pontos turísticos do Vale Sagrado, como Puca Pucara e Tabomachay. A localidade fica a poucos 22km de Cusco e por ser a estrada bastante sinuosa, demora mais de 30minutos para chegar.

Cusco possui uma infinidade de tipos de hospedagem, desde hostel, pousadas, hotéis, hotéis boutiques, conventos e albergues. A maioria deles fica no Centro Histórico e imediações do bairro San Blass. Perceba que a rede hoteleira oferece um serviço diferenciado, por conta dos turistas que dormem em Cusco e saem nas primeiras horas do dia para ir a Machu Picchu, como serviço diferenciado de lanche e horário do café da manhã, disponibilidade de kits lanches, disponibilidade de chá da folha de coca 24h ao dia, entre outros serviços.

Tipos de batatas e milhos também são conhecidos no centro do Awana Kancha

A questão do mal da altitude não é lenda. Algumas pessoas sofrem com dor de cabeça, dores abdominais, enjoos, náuseas, calafrios. Outras apenas sofrem com um dos sintomas ou o conjunto deles e outras não sentem nada. A melhor dica é ao chegar em Cusco e descansar um pouco e evitar fazer esforço físico.

O chá da folha da erva não é recomendado consumido ao anoitecer e antes de dormir. Há pessoas que apresentam picos de elevação de pressão arterial.

A automedicação não é recomendada, mas nas farmácias cusquenhas vendem livremente um composto para o mal da altitude. Consulte os componentes da formula antes de tomá-la.

Ceviche é o tradicional

Gastroterapia

Come-se muito bem no Peru e não é lenda que a culinária peruana tem ganhado adeptos e fãs em todo o mundo. Das comidinhas de rua, aos mercados e restaurantes estrelados, o toque dos ingredientes andinos em Cusco e a ruralidade dos ingredientes fazem da culinária regional bem apreciada e considerada saudável, com toques apimentados e bem temperados de especiarias cultivadas pelos cusquenhos. O milho e a batata estão quase que presentes em todos os pratos. O ceviche é um dos mais procurados, porém, há pratos que não devem ser desprezados, como a tradicional sopa crioula e a batata huancaina.

Truta com alcaparras

No mercado São Pedro o visitante terá o contato com as comidas diárias do cusquenhos, a exemplo de pescados (truta), mariscos e tipos de ceviches, preparados sem nenhuma cerimônia e servido ali mesmo. Há também uma sopa bem apreciada por moradores, com um pedaço de frango debulhado aos olhos do turista. O caldo de sabor apurado leva ervas e especiarias, a exemplo de alguns tipos de pimentas, como a ají, e ganha partes do frango.

Degustar da Chicha Morada, um suco de milho escuro adocicado faz parte das iguarias locais, além de embalagens de um torresmo de porco misturado a um grão de milho assado na brasa, como se fosse um amendoim brasileiro.

Comidinhas de rua

Caso queira apreciar da culinária neoandina, base para a cozinha criativa peruana, e que hoje ganha um mundo pelas mãos dos grandes chefes, não deixe de reservar um lugar nos restaurantes da adjacência da praça principal. Pescados, ceviches e sopas são as estrelas do cardápio, porém, não esqueça também da culinária crioula, puxada pelos cortes de carne de vaca, alpaca e o cuy, um roedor bem apreciado na culinária andina, servido grelhado com acompanhamentos.

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