Brasil bom de álcool. Ou o novo ciclo da cana

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Uma piadinha que circulou na redação sexta-feira, dia da visita do presidente americano ao Brasil, fazia referência à foto, publicada na primeira página deste JC, onde George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva aparecem contemplando alguns pés de cana-de-açúcar. Segundo a piadinha, enquanto Bush se admirava com a capacidade da planta tropical exótica de produzir o melhor etanol do mundo, Lula acrescentava, feliz da vida: “É dessa planta que a gente faz a melhor cachaça também, companheiro”. Mas, gracejos à parte, se há uma coisa que o Brasil pode se orgulhar de saber fazer bem — além do trinômio futebol, samba e mulher bonita —, essa coisa é o álcool. Seja ele bebível ou combustível

Brasil e Estados Unidos produzem 72% de todo o álcool combustível do planeta, o chamado etanol, mas o produto brasileiro, extraído da cana-de-açúcar, é mais eficiente que o americano, retirado do milho: é ecologicamente melhor porque consome quatro vezes menos energia na sua produção (1.518 kcal contra 6.597 kcal), por isso libera menos gás carbônico durante o processo (500 gramas contra 790 gramas na produção de um litro), e ainda reutiliza o bagaço da cana na cogeração da energia necessária à produção, enquanto lá eles queimam basicamente carvão, óleo combustível e gás natural, ou seja, combustíveis fósseis.

Além disso, os nossos produtores não contam com nenhum subsídio do governo para fabricar o etanol, enquanto os ianques recebem ajuda de R$ 14 centavos de dólar por litro. Como se não bastasse, o governo americano ainda impõe uma tarifa de 54 centavos de dólar por galão de etanol verde e amarelo que entra lá. Ainda assim, o negócio é tão bom que se criou no Brasil um clima de “o petróleo é nosso” a favor de um produto que até um dia desses poucos conheciam pelo nome de etanol.

Parênteses: o etanol, também chamado de álcool etílico, é uma substância obtida da fermentação de açúcares provenientes de diversas plantas e comumente utilizado em bebidas alcólicas, na indústria de perfumaria e como combustível.

 

NOVO CICLO DA CANA-DE-AÇÚCAR — Movidos por essa expectativa positiva, resultado da expansão do consumo interno e da demanda mundial — e também de olho no oportunismo do governo de se aproximar comercialmente dos americanos enquanto eles nos cortejam para reduzir a importância de Hugo Chávez — os produtores estão ampliando as áreas plantas.

A safra de cana-de-açúcar, deverá aumentar 7% neste ano de 2007 em relação à anterior e somará 490 milhões de toneladas. Em São Paulo, Estado que responde por 57% da produção nacional, a safra deverá aumentar para 280 milhões de toneladas. O Nordeste, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), deve produzir pouco mais de 63 milhões de toneladas. Sergipe, ainda segundo a mesma pesquisa, produzirá quase 1,5 milhão de toneladas de cana-de-açúcar.

Enquanto o mundo preocupa-se em diminuir a dependência do petróleo e reduzir a emissão de gases que contribuem para o aquecimento global, Brasil e Estados Unidos apresentam-se em pé de igualdade como potências produtoras do substituto da gasolina. Mas há outra diferença, além da eficiência maior do nosso produto. O Brasil dispõe de muito espaço para a expansão da cana-de-açúcar, podendo ampliar em 16 vezes o terreno hoje plantado, sobretudo em áreas de pastagens. Pode fazê-lo, inclusive, sem precisar reduzir a safra de grãos (o que os americanos não podem, daí a animação também dos plantadores de soja brasileiros, por exemplo, com o crescimento da produção de milho nos Estados Unidos) e sem precisar agredir as matas nativas (embora os ecologistas temam que esse novo ciclo da cana-de-açúcar represente mais devastação).

 

APELO AMBIENTAL VERSUS APELO COMERCIAL — Embora com produção bem modesta em relação a São Paulo, Alagoas, Pernambuco e outros produtores, em Sergipe a cana-de-açúcar também anima expectativas e cresce. Há grupos investindo, como a Destilaria Campo Lindo, do empresário Carlos Vasconcelos (genro de Gentil Barbosa), que está produzindo entre os municípios de Nossa Senhora das Dores e Capela. Também em Capela, crescem os investimentos da Samam e das pequenas usinas Carvão e Junco Novo, enquanto o Grupo José Pessoa produz e destila em Pacatuba. E, claro, a maior produtora de cana-de-açúcar do Estado, a tradicional Usina São José do Pinheiro, com sede em Laranjeiras, também segue a tendência do mercado e tem ampliado a área cultivada.

Osvaldo Franco, da Pinheiro, avalia que a boa expectativa, por si só, faz crescer a oferta de álcool. O apelo ambiental é forte, o etanol polui bem menos do que os combustíveis fósseis, 20% da frota nacional já roda com álcool e o produto está presente em 40% do combustível veicular, mas o mercado ainda é muito dependente do petróleo. Ele e os empresários produtores de cana-de-açúcar torcem, por exemplo, para que o preço internacional do petróleo se mantenha alto. Hoje está na casa dos 60 dólares, mas vem caindo. “Se baixar de 40 dólares o barril, o etanol perde a força. O apelo comercial ainda é mais forte”, constata Osvaldo Franco, com a experiência de quem administra a mais bem sucedida empresa sucroalcooleira de Sergipe.

Portanto, é cruzar o dedo e torcer para que os árabes e a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), da qual a Venezuela de Chávez faz parte, mantenham o nível de oferta da comoditie no mercado.

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