Convivência

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A casa, como sinônimo de lar, era, até bem pouco tempo, um lugar sagrado para a família. Ali se reuniam todos para fazer alguma coisa e se relacionar. A conversa fluía, a harmonia e, por vezes, a desarmonia girava em torno do grupo.

Os progenitores eram respeitados pelo simples fato de serem os pais, provedores e, naturalmente, mais velhos.

Havia, na verdade, várias reuniões por dia: durante o café da manhã, durante o almoço e durante o jantar. Eram quase certas as presenças de todos da família: pais e filhos em volta da mesa e, às vezes até mesmo antes disso, na preparação dos alimentos.

Naquele tempo quase tudo era manipulado em casa, desde a matéria-prima que era, quase sempre plantada, colhida e manipulada pelos membros da família; até a comida pronta que era feita também ali.

A meninada, desde cedo, tomava parte em todas as tarefas da casa, iniciando por aquelas que os educava para o futuro: arrumar a cama, levar a roupa usada para o cesto, auxiliar em outros serviços domésticos e até na manipulação dos alimentos: na debulha do feijão, no descascar do milho, no pilar do arroz, no preparo do fubá, na limpeza das batatas, etc.

No interior eram as crianças, desde cedo, encarregadas de tomar conta de animais, levá-los aos pastos, às fontes d’água para beberem, aos chiqueiros e currais…

Tudo isso se prestava para despertar no infante o sentimento de responsabilidade, equilíbrio e fibra para vencer, lá na frente, as vicissitudes que porventura surgissem.

Estes momentos de faina diária enfeitavam e enriqueciam as suas existências, davam-lhes experiência, têmpera e história para contar.

Hoje, lamentavelmente, as crianças não ganham mais, nesta fase da vida e através desta tão valorosa formação a experiência, nem a fibra para o enfrentamento e, pior ainda, não têm histórias para contar aos seus filhos, pois nada fazem, nada produzem, nada enfrentam. O que terão, assim, para legar aos seus descendentes, quando estes chegarem? Coitados!

O filósofo Mário Sérgio Cortella afirma, com uma belíssima metáfora, que: “estamos vivendo uma “despamonhalização” da vida em família”, ou seja, não fazemos mais pamonhas, não fazemos mais as coisas juntos.

Fazer pamonhas, aqui usado, pelo ilustre Professor, apenas como exemplo, era uma operação que envolvia todos de uma casa: os homens iam ao roçado, quebravam e transportavam o milho; já em casa era a vez dos outros, crianças, inclusive, se encarregarem de descascar, tirar os cabelinhos do milho, ralar as espigas, preparar os saquinhos com as palhas, encher com aquele líquido ralado e colocar no fogo. E, lá para o final da tarde é que iam comer.

É fácil imaginar que, neste caso, a participação direta da criança naquela elaboração, com o envolvimento espontâneo, obedecendo a regras, respeitando limites e despendendo esforço, se prestava para introjetar nelas um conhecimento que se tornava base para toda a sua formação: as coisas para acontecerem passam por um processo anterior de preparação, nada existe já feito e acabado.

Antes de aparecerem como produto final, havia alguém que fazia, despendendo esforço, energia, tempo e muito trabalho.

A comida, por exemplo, não existia como comida pronta. A cama arrumada, a roupa limpa, o dinheiro para comprar o tênis de grife, eram outros exemplos que aquela criança entendia, naquele gesto tão simples de participar da elaboração de coisas comuns no cotidiano de uma família.

Ela aprendia ali, até de forma lúdica, que tudo para existir tem por trás de si um processo que demanda esforço, dedicação e trabalho.

Esta conscientização se tornava muito importante para a formação da criança.

Criança que amanhã seria adulta e, conhecendo, como partícipe do fazer, estaria certamente muito mais ciente de que tudo tem um procedimento antes de existir como coisa perfeita. Ou seja, é necessário alguém fazer para estar ali, prontinho para ser usado.

Ficaria sabendo que tudo tem que ser feito por alguém, reconhecia que aquilo tem um esforço, uma dedicação, um trabalho por trás. Nada existe sem uma ação, sem um esforço, sem um trabalho. Isto com absoluta certeza, era de muita serventia na sua fase adulta.

Negadas estas informações, como sói acontecer no presente, subtrai-se da criança a oportunidade de conhecer o verdadeiro valor das coisas.

Os nossos filhos estão sendo formados sem saber o valor daquelas ocorrências e, pior ainda, não experimentam a sensação do que é, enfim, o fato mais dignificante do ser humano: o trabalho que realiza, que produz, que completa. Pois, no momento, criança não pode trabalhar.

Ela cresce com a sua formação incompleta. Os pais, logo na tenra idade, dão-lhe um cartão e uma senha. Ela enfia o cartão na máquina digita a senha e o dinheiro sai, ou paga a conta na loja.

Para ela o procedimento é só aquele, pois só aprendeu  operacionalizar a segunda fase do processo – enfiar o cartão, digitar senha, e pegar o dinheiro que sai da máquina – Para ele este é todo o trabalho que dá ganhar dinheiro. Repito, ele não conhece o processo anterior: o esforço, a dedicação e às vezes até o sofrimento que o pai passa para ganhar aquele dinheiro e colocar na máquina. Ela não valoriza.

Portanto, fica muito difícil entender, como também diz o professor Mário Cortella, quanto custa um par de tênis,  uma roupa de grife, ou uma viagem a Disney Word, – para ela é só isso: enfiar o cartão e pagar.

Ainda, repetindo o Mestre: “ele não sabe o trabalho que dá trabalhar”. Quer dizer que ela não teve a oportunidade de saber que tudo tem um processo antes de existir completa.

Para o grande Mestre Mário Sérgio Cortella, no que eu concordo plenamente: “para o jovem atual tudo é muito simples, muito rápido e sem valor…”

Que pena!

Continua na próxima semana.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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