Desculpe por estar vivo

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A primeira vez que aconteceu, foi numa rua movimentada, perto de uma padaria às seis horas da tarde. As pessoas todas ávidas por pão quente se movimentavam apressadas demais, preocupadas demais com seu próprio umbigo e suas urgências pessoais. Era um homem negro, vestido com roupas muito velhas e um pouco sujas, mas com muito alinho, na verdade. Os pés enfiados em sapatos rotos e o pé esquerdo com um imenso buraco que deixava ver a pele negra sem meias.

Ele se aproximou cauteloso, parecia buscar uma sombra pra se esconder. Parecia assustado com alguma coisa, com medo talvez. O rosto muito tenso, com a barba por fazer e um par de olhos muito negros.

– O senhor me desculpe, boa noite, pode me dizer as horas? – falava como se pronunciasse a maior de todas as ofensas, desculpando-se, submisso, assustado.

– São seis e quinze, moço – respondeu intrigado, incomodado com a subserviência e o medo no rosto do outro.

– Muito obrigado. E o senhor desculpe qualquer coisa, viu?! – ia saindo, apressado, como se tivesse feito alguma coisa errada, mas o outro o atalhou:

– Me desculpe por que, moço? O senhor só perguntou as horas… – falava não com raiva, nem com suspeita compaixão, mas com curiosidade mesmo, de quem quer entender o mundo ao seu redor. O homem se assustou, ficou meio sem saber como reagir.

– É que às vezes as pessoas se incomodam, né?! Aí já vou pedindo desculpas… Não quero incomodar ninguém, não… – e foi embora, às pressas, engolido pelas sombras do final da tarde.

O outro ficou lá, estatelado, sem nem saber mais como comprar pão, porque a humanidade às vezes chega a extremos de loucura. Sem conseguir entender verdadeiramente como um ser humano pode pedir desculpas por contactar outro ser humano polidamente. Claro, em alguma parte do seu racionalismo ele podia compreender vagamente que, mesmo sem saber explicar, o homem pedia desculpas porque invadira um mundo que não deveria tocar, uma outra dimensão em que as pessoas bem vestidas e cansadas de trabalhar em empregos remunerados vão à padaria comprar pão quente para o café da noite, olhando apenas e diretamente para seus umbigos.

A história ficou guardada, incomodando que nem espinho encravado. Sem ter sido digerida de todo, sem ter sido compreendida de todo. Até que aconteceu de novo, não faz nem uma semana. Ele vinha no ônibus lotado, as pessoas se espremendo para respirar, para continuar de pé, horas e horas desconfortáveis para qualquer ser humano ou animal na mesma situação.

E lá no meio do amontoado incalculável de passageiros, tinha uma senhorinha, menos velha do que gasta pela vida difícil, gravada em profundas rugas em seu rosto negro. Tinha um lenço azul muito justo na cabeça, escondendo qualquer fio de cabelo, um vestido de algodão surrado e se equilibrava em pé agarrada a uma sacola de feira vermelha e branca. Pediu o ponto e, antes de descer, olhou para as pessoas ao seu redor e pediu desculpas. Apenas isso, sem explicar pelo que se desculpava. E ele lá sentado no fundo do ônibus ainda mais impressionado com o estranho funcionamento do mundo.

Me mandou mensagem no outro dia, intrigado. “Você entende?”. Eu fiquei na dúvida se aquilo que eu tinha era entender ou desentender ou sei lá como explicar que tipo de sentimento sem razão é esse. “Eles pedem desculpas por existir”, foi a única coisa que eu pude dizer. Não que isso seja uma explicação, nem nada, mas é que daqui de onde eu vejo/entendo o mundo tem muita coisa que não se explica.

Não, nenhuma teoria rebuscada, cheia de palavras difíceis e voltas filosóficas é capaz de explicar cenas como essas. Porque, como diria um mestre muito amado, a compreensão não se dá no nível da argumentação racional, mas sim no campo das emoções. E este sentimento, meu querido amigo, que nós dois partilhamos, ainda não tem nome nem conceito próprio, embora seja humano, demasiado humano.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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