DEVEMOS MATAR O TEMPO?

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O sonho da aposentadoria permeia o imaginário de todos nós. Sem dúvida, todo aquele que trabalha quer um dia poder parar e usufruir, do seu jeito, um pouco do que este mundo tem de bom, sem, contudo, estar atrelado a uma obrigação, a um horário.

A perspectiva de aposentação é um momento muito delicado; é hora de dar vazão aos sonhos, imaginar como será a vida após aquela data, e muitas elucubrações ocorrem naquele momento tão esperado. Trata-se, seguramente, de uma cisão muito radical na vida de uma pessoa.

 

Uns deprimem-se, sentem-se diminuídos, consideram-se no fim da jornada, acham-se inúteis. Imaginam que quando tinham toda a força e a saúde não existia a condição. Agora têm a condição, mas, minguam-lhes as forças e a saúde. Pensando assim, às vezes, angustiados, sofrem.

 

Lembro aqui do que disse Amália Rodrigues, a maior cantora de fado de Portugal:

 

”Quando eu era jovem, tinha um sonho: queria possuir um par de sapatos. Não consegui. Hoje, depois de velha e doente, tenho quinhentos ou mil pares, se quiser. Porém, não tenho mais pernas para andar. De que me adiantam, pois, os sapatos agora”.

 

Esta é a conclusão a que chegam aqueles que vêem na aposentadoria o seu lado mais melancólico. Não têm mais o vigor, a destreza e a coragem que possuíam quando começaram a trabalhar.

 

Outros, em contrapartida, sonham com o que, afinal, poderão realizar. Acreditam estar livres do jugo patronal, do horário a cumprir, das rotinas diárias etc.

 

No meu caso em particular, quando me aposentei, surgiram perguntas, conselhos e admoestações. Uns indagavam: o que você vai fazer com a liberdade que terá daqui para frente? E, várias sugestões foram feitas: você deve prestar serviços a uma instituição beneficente; vá advogar, você não é bacharel em direito? Outros falavam: vá ensinar, você não é professor? Outros ainda diziam simplesmente: você já trabalhou muito; vá descansar, viaje, curta a vida…

 

Além destas sugestões, duas diametralmente opostas, uma da outra, me chamaram mais a atenção.

 

A primeira vaticinava que eu deveria arranjar qualquer coisa para fazer e obter lucro, e para tanto, que eu não perdesse tempo, pois, “tempo é dinheiro”.

 

A segunda era no sentido de que eu teria que praticar alguma atividade para “matar o tempo”.

 

O meu lado pragmático acredita na primeira versão. O tempo realmente poderá ser mensurado em valores monetários.

 

Perder tempo é perder oportunidades e, às vezes, dinheiro ou prazer. Perder tempo é comprometer o futuro.

 

Uma das mais antigas expressões de que se tem notícias sobre a relação existente entre o tempo, ocorrência de um fato e a sua atribuição de valor monetário, ou seja, que realmente o tempo pode se assemelhar a uma mercadoria de valor, vem até nós pelas mãos e inteligência de Teofrasto, filósofo grego, que viveu entre os anos 372 e 287 antes de Cristo. Já naquela época ele fez a seguinte afirmativa: O tempo é muito caro”.

 

Mais de mil anos depois, o grande cientista Benjamim Franklin, que viveu de 1706 a 1790, inventor prolífero, também teria chegado a essa mesma conclusão, após ler os mestres da antiguidade, Teofrasto, inclusive, quando cunhou a celebre frase: “tempo é dinheiro”.

 

Essa frase, tão significativa, transformou-se, em seguida, num mantra do capitalismo americano.

 

No entanto, como sói acontecer com estas assertivas, não devemos levá-las aos extrremos sob pena de sectarizar dramaticamente o valor que o tempo realmente tem como moeda e confundirmos a verdadeira importância que ele tem dentro do espaço da lógica e do bom senso.

 

Desperdiçar tempo fique claro, é usá-lo em demasia naquilo que realmente nada produz.

 

Quanto à segunda sugestão – aquela que me impulsionava a buscar algo para fazer, a fim de “matar o tempo” – foi a que mais incomodou.

 

Matar o tempo? Como? Cheguei ao meu melhor tempo, aquele em que não terei mais a obrigação de cumprir horário e suportar a rotina de uma repartição pública.

 

Conquistei, a duras penas e durante um espaço de tempo de mais de quarenta anos de trabalho, o prêmio que agora recebo e tenho que matá-lo? Não, não posso. Quero vivificá-lo. Quero torná-lo maior, o mais extenso possível.

 

Pois, na verdade, não há como e nem porque matá-lo.

 

O que acontece, de fato, é exatamente o contrário. É o tempo quem nos mata a todos, sem exceção.

 

A aposentadoria deverá ser tida como a melhor fase da vida de uma pessoa. É o prêmio, e como tal deverá ser usufruída. 

 

É uma oportunidade que felizmente temos, para fazer aquelas coisas que tanto queríamos e não podíamos por faltar exatamente o tempo.

 

Agora que o temos não o matemos. Ele é precioso e a nós só é permitido usá-lo. Nada mais. Se usarmos bem o nosso tempo, parabéns. Porém, se mau uso fizermos dele, pagaremos, inexoravelmente, um preço muito alto.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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