Encantação

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O motoqueiro trazia na mão direita um capacete. Eu enxerguei rosas vermelhas. Miopia rima com poesia.

O inusitado sempre me captura o coração. Aquilo que me faz assustar: é possível fazer isso desta forma?! Minha alma fica presa aí, nesse susto bom da descoberta. Quando a criança descobre que a chuva cai do céu e é bom tomar banho de bica. A descoberta. Sempre me lembrarei do primeiro Gabriel García Márquez que eu li. Meu coração se prendeu para sempre ao de Cândida Erêndira, desde a fatídica tarde calorenta em que me deitei na rede pra ler o livrinho de capa bonita e cheiro de mofo. Tive febre do susto da descoberta daquela literatura. Meu coração em Macondo, cada vez que releio é um novo deleite, mas nunca como a primeira leitura, a descoberta do novo. Me deu uma comichão que nunca passou: de querer um dia despertar em alguém essa sensação.

A menina achou que o poeta era feito de luz de alga marinha de neve de eventos mágicos. O poeta, coitado, é só um ser humano de alma rasgada.

Fui caminhando, mundo girando. Dei sorte de encontrar essa sensação muitas vezes na vida, coisa boa de sentir que ainda há muito pra ver e pra aprender. Lembro um dia, faz tantos anos que já embaralho a história. Sentada na casa do poeta fotógrafo vi um pôr-do-sol lindo feito com uma Nikon F1000. Olhei até gastar a sensação do novo, de ver e tocar um foto que podia ser outro olhar, podia ser outra coisa, a primeira vez que vi uma foto assim, cuidado com luz e sombra. O poeta, encantado de meu encanto, sentou comigo e me ensinou um monte de coisas sobre fotografia, mas ele não falava de fotometria, controle de luz, filmes, ele falava pra mim era de poesia, de olhar o mundo, da pessoa que era e podia ser atrás de uma câmera. Foi um assombro descobrir o que era fotografia, enfim: olhar o mundo com olhos de poeta. Desde o dia que soube da morte de Damário da Cruz, me nasceu o ressentimento de nunca lhe ter agradecido por tanto ensinamento assim que ganhei tão de graça e despretensiosamente.

Correu: o menino, a água sobre o asfalto, o dia e a noite. Correu meu olhar do seu. E meu medo de ficar parado no tempo. Só o coração parou.

Teve outra vez que parei do outro lado da rua esquecida da vida vendo o menino pintando a parede. Um monstro colorido nascendo, e eu encantada de ver. Um homem-menino feliz encima dos andaimes, saltitando como se fosse festa, usando até as cores que estão fora da paleta para encontrar o desenho que morava em sua cabeça, em seu coração. Ele pintava como se a vida estivesse em suas mãos e, pintando, pudesse flutuar entre o sempre e o nada. De tanto olhar, esqueci de gritar lá de baixo um ciao Göla, ho arrivato! Eu só conseguia pensar: um dia quero escrever como ele pinta. E guardei a memória da alegria e do assombro de descobrir como se mover no mundo sem se perder das batidas do próprio coração.

Passa boi, passa boiada. E a menina vai cantando até o fim de sua estrada.

Mas com poesia é diferente, porque poesia me encanta sempre, porque sempre é de outro jeito. Cada livro e cada página é um encanto de descobrir que as palavras podem sim se alinhar daquele jeito e despertar aquele quentinho no coração. Claro que eu pensei em Manuel de Barros e o encanto de ser menino, mas pensei em todos os outros e outras também. E pensei com especial carinho numa menina bonita que me assustou dia desses porque me mostrou que se pode escrever para a academia e os acadêmicos a partir das palavras mais poéticas. É uma dissertação de mestrado, mas é pura poesia o livrinho de capa azul que se chama “Miguilins no sertão da cabaça azul”. Outro dia, Ednalda Soares me contou, com risinho abafado, que no dia da sua banca de defesa, os professores só quiseram aprová-la depois de colocar uma advertência, que eu não lembro exatamente como era, mas dizia mais ou menos: cuidado, esta dissertação contém poesia. E eu ri do medo que as pessoas acadêmicas têm do pensamento poético, lírico, onírico. Cuidado, os devaneadores são perigosos! E eu quis voltar pra re-escrever minha dissertação só de tinta azul e poesia. E fiquei tão feliz de ela me dizer que sou uma miguilim também, eu sonhadora, parte do mundo do devaneio.

Morre o fim e não se acaba. É a eternidade.

Tomara eu viva até o dia de ver a academia aprendendo com a poesia. E a escola toda borrada de palavras mágicas brotadas do devaneio infantil. 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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