Editorial: A estrela do PT caiu na taca do governador

O PT de Sergipe, que um dia marchou com ares de revolução, hoje parece desfilar de chapéu na mão pelos corredores do governo Fábio Mitidieri. É uma cena curiosa, quase carnavalesca: o partido que nasceu vendendo estrelinha, camisa, adesivo e esperança popular agora parece mais interessado em calcular espaço, cargo, diretoria, secretaria e acomodação política. O velho PT de Marcelo Déda tinha rua, suor, voz rouca, comício, professor, estudante, sindicato e periferia. O PT de hoje tem resolução, reunião fechada, nota dúbia e uma estranha habilidade de chamar rendição de estratégia.

Marcelo Déda não foi apenas um nome do PT; foi o maior produto político que o partido conseguiu entregar em Sergipe. Foi prefeito de Aracaju, reeleito com votação expressiva, depois governador eleito em 2006 e reeleito em 2010, consolidando um ciclo em que o PT tinha identidade, militância e musculatura eleitoral própria. Sua trajetória é registrada como a de um político que saiu do Parlamento, passou pela prefeitura e chegou ao governo com forte capital popular. Aquele PT tinha cara. Podia-se gostar ou não, votar ou não, concordar ou não, mas era um partido reconhecível. Tinha discurso, tinha projeto, tinha gente que acreditava que “caminhando e cantando” ainda dava para chegar em algum lugar sem pedir carona no carro oficial de adversário.

Era o PT de Déda, de Iran Barbosa, Ana Lúcia, Diomedes, Gozinho, Marcélio Bomfim, Carlos Oliveira e tantos outros que davam ao partido uma feição de luta social, de organização popular e de enfrentamento político. Era um PT que fazia reunião com cheiro de café fraco, panfleto dobrado na mão e militante convencido de que a estrela vermelha ainda brilhava por convicção, não por conveniência. A estrela era vendida para financiar campanha, não para comprar silêncio. A camisa era vestida com orgulho, não dobrada no armário enquanto se esperava a nomeação. O adesivo grudava no carro, na pasta, na bicicleta, no coração do militante. Hoje, parece que o adesivo foi substituído pelo crachá.

O contraste com o presente é brutal. O PT sergipano, hoje conduzido por Rogério Carvalho, tendo João Daniel como uma de suas principais referências internas e Márcio Macêdo como nome nacional com trânsito no governo Lula, poderia perfeitamente montar uma chapa de esquerda, reorganizar PCdoB, PSOL, movimentos sociais, sindicatos, professores, servidores e juventude. Poderia disputar o governo com candidatura própria, reconstruir discurso, chamar a militância para a rua e dizer: “aqui ainda existe partido”. Mas, em vez disso, optou por se aproximar do governador Fábio Mitidieri. A imprensa registrou que o PT oficializou apoio à reeleição de Mitidieri em 2026, em decisão aprovada pelo diretório estadual e coordenada por Rogério Carvalho, justificando a aliança pela formação do palanque de Lula em Sergipe.

E aí mora a grande contradição, daquelas que nem marqueteiro com planilha, café forte e reza braba consegue explicar sem suar. Rogério Carvalho disputou o governo em 2022, venceu Fábio Mitidieri no primeiro turno, chegou ao segundo como a grande aposta do PT e terminou derrotado pelo terceirinho Fábio Mitidieri. Até aí, faz parte do jogo. O problema é o capítulo seguinte: o PT saiu de candidato ao Palácio para quase porteiro político do palanque que o venceu. A legenda que antes queria governar Sergipe agora parece satisfeita em fazer figuração de luxo, sorrindo para foto, segurando a bandeira e fingindo que continua no comando da própria história. O resultado é uma ironia pronta para virar cordel: o partido que tinha candidato, militância, discurso e estrela própria agora empresta a estrela para iluminar a festa dos outros. É como se o PT tivesse entrado na disputa para comandar o curral e, depois da derrota, aceitasse alegremente segurar a porteira para o vaqueiro passar.

Rogério Carvalho, que poderia se apresentar como líder de uma esquerda autônoma, escolheu o caminho da composição. João Daniel, que carrega a simbologia do PT rural, dos movimentos sociais e da militância mais orgânica, não conseguiu impedir que o partido perdesse densidade de oposição. Márcio Macêdo, mesmo tendo sido ministro da Secretaria-Geral da Presidência e sendo uma ponte direta com Lula, tampouco conseguiu transformar o peso nacional do PT em força estadual independente. Pelo contrário, Márcio já defendia a reaproximação com Fábio Mitidieri para uma nova composição entre PT e grupo governista. É muita estrela para pouca luz própria. É muito discurso de povo para pouca coragem de enfrentar o poder local.

A divisão interna também ajuda a explicar essa anemia política que tomou conta do ambiente. Rogério e Márcio se enfrentaram na eleição do diretório estadual do PT, escancarando uma disputa que parecia menos debate partidário e mais briga por controle remoto em sala pequena: cada um querendo mandar no volume, na pauta e no futuro da legenda. A publicação ainda apontou o controle de diretórios municipais por Rogério Carvalho e João Daniel, enquanto uma resolução anterior falava em reconstrução das bases sociais, fortalecimento dos movimentos populares e combate aos projetos adversários ao campo petista. Bonito no papel. Quase poesia revolucionária de auditório climatizado. Pois bem: se antes havia resolução de combate, agora parece haver resolução de abraço coletivo. Se havia chamado à militância, agora há convite para o cochilo estratégico. Se havia defesa da autonomia, agora falta só pendurar uma placa na porta do partido: “procura-se identidade perdida, recompensa-se com cargo, silêncio e nota oficial”.

O problema é que o petista raiz percebe. O militante antigo, aquele que vendia estrelinha, que botava bandeira no ombro e que acreditava em projeto coletivo, sabe distinguir aliança tática de capitulação estética. Uma coisa é compor para governar com programa, força e respeito. Outra coisa é entrar no palanque do governador como figurante disciplinado, batendo palma na hora certa e fingindo que a estrela ainda comanda o espetáculo. O PT de Déda era protagonista. O PT de agora corre o risco de virar coadjuvante de luxo, daqueles que aparecem bem na foto, mas não decidem o roteiro. E quando um partido que já governou Sergipe aceita viver de migalha palaciana, o eleitor pode até reconhecer a legenda, mas talvez já não reconheça a alma.

No fim, a pergunta é simples e incômoda: o PT de Sergipe ainda quer ser PT ou quer apenas administrar sua sobrevivência dentro do governo dos outros? Porque partido forte monta chapa, disputa narrativa, chama sua base, assume risco e enfrenta eleição. Partido fraco terceiriza o sonho, negocia o símbolo e chama submissão de responsabilidade. O PT que um dia caminhava e cantava agora parece caminhar devagar para não perder o cargo e cantar baixo para não incomodar o governador. A estrela, que já foi vendida nas ruas como sinal de esperança, agora parece cair mansamente na taca do vaqueiro Metidieri. E, quando estrela vira enfeite de sela, não ilumina mais o caminho de ninguém.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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