Em Sergipe, a política conseguiu fazer um truque digno de mágico de circo itinerante. O cidadão acorda sem água na torneira, mas descobre que o dinheiro da concessão do saneamento está sendo usado para comprar participação em empresa de gás. Parece piada, mas é política pública. A lógica é simples, quase didática. Vende-se o problema visível e investe-se em algo invisível para quem está com o balde na mão. No papel, é estratégia. Na rua, é sede. E quando a realidade começa a bater na porta, não adianta discurso técnico, porque o povo não bebe justificativa.
O documento é claro. O dinheiro da concessão da água e do esgoto vai bancar a compra de ações da Sergás. Não é interpretação forçada, não é teoria de bastidor, é texto oficial. A narrativa institucional fala em desenvolvimento, competitividade e atração de investimentos. Tudo muito bonito. Só esqueceram de avisar que desenvolvimento não enche caixa d’água. A população não está discutindo matriz energética. Está discutindo falta de água na pia, no banho e no mínimo da dignidade.
E aí entra o momento didático, quase aula de química para adultos cansados. Na tabela periódica, água é H2O. Gás natural é outra coisa completamente diferente. Um mata a sede. O outro movimenta indústria. O governo resolveu fazer um intercâmbio curioso entre os elementos. Pegou o dinheiro que nasceu da água e decidiu investir no gás. É como vender o feijão para comprar tempero. É sofisticado no discurso, mas indigesto na prática. O problema é que quem está sem água não quer aula de química, quer abrir a torneira e ver sair solução.
Enquanto isso, Sergipe vive um roteiro repetido todos os dias. Protestos no interior, avenidas bloqueadas na capital, gente com balde na cabeça e revolta no olhar. Não é narrativa de oposição, é rotina da população. E nesse cenário, a decisão de usar o dinheiro da concessão para outra finalidade soa como provocação. Porque o cidadão comum entende uma coisa básica. Se venderam a água, era para resolver a água. Quando o recurso muda de destino, o problema deixa de ser técnico e passa a ser político.
O governo tenta embalar a operação como movimento estratégico. Fala em fortalecer a Sergás, ampliar competitividade, atrair investimentos. Tudo legítimo dentro de uma lógica econômica. O problema é o timing. Não se faz investimento em gás ignorando uma crise hídrica que está nas ruas. Não se muda o destino do dinheiro sem antes entregar aquilo que justificou a venda. A política tem dessas miopias elegantes. Enxerga o longo prazo e esquece o curto prazo que grita.
E aqui está o ponto que ninguém quer dizer em voz alta. Quando o dinheiro da concessão muda de rota, muda também o contrato psicológico com a população. O povo aceitou o discurso de que a concessão traria melhoria no abastecimento. Não aceitou financiar estratégia energética enquanto falta água em casa. Isso não é só decisão administrativa. É quebra de expectativa. E política não costuma sobreviver bem quando frustra expectativa básica de sobrevivência.
A pergunta que fica não é jurídica, é moral e política. O dinheiro da água está resolvendo a água ou está sendo deslocado para outro projeto de poder? Sergipe precisa responder isso em voz alta. E não apenas nas redes sociais. Precisa cobrar, participar, pressionar. Porque enquanto o governo faz engenharia financeira, o povo faz engenharia doméstica para armazenar água. E essa conta, mais cedo ou mais tarde, não fecha.
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