Entre o Palácio e a feira, Valmir assusta mais que margem de erro

A disputa entre Fábio Mitidieri e Valmir de Francisquinho não é apenas uma briga de pesquisa. É uma briga de natureza política. De um lado, está Fábio, governador, sentado sobre a máquina, cercado de prefeitos, lideranças, cargos, programas, eventos, mídia institucional e uma estrutura capaz de transformar gestão em campanha permanente. Do outro, está Valmir, com a voz de Pato rouco, o jeito de feira, o corpo a corpo bruto e uma ligação popular que não nasce em gabinete, não se compra com release e não se ensaia com marqueteiro. Fábio tem o Governo do Estado nas mãos. Valmir tem algo que assusta qualquer governo: o povo olhando para ele e se reconhecendo.

As pesquisas dos últimos 90 dias mostram exatamente essa guerra entre máquina e povo. O Instituto França colocou Fábio na frente em março, com 42,88% contra 35,03% de Valmir na estimulada. A W1 veio no dia 30 de março e virou a mesa: Valmir apareceu com 38,1% contra 30,8% de Fábio. Em abril, nova confusão: Veritá e Instituto França deram vantagem a Fábio, mas a W1 voltou a mostrar Valmir na liderança, com 39,9% contra 35,3%. No mesmo período, JR Comunicações, Positiva Pesquisas e EIPE/Rede Xodó também apontaram Valmir numericamente à frente ou em empate técnico. Ou seja: Valmir não é invenção de grupo de WhatsApp, nem espuma de rede social, nem saudade de Itabaiana. Valmir aparece de forma consistente como o adversário que impede o Palácio de dormir tranquilo.

Em maio e junho, o tabuleiro ficou ainda mais interessante. O Real Time Big Data mostrou Fábio numericamente à frente, com 41% contra 38%, mas em empate técnico. Já o INOR colocou Valmir com 39,72% contra 32,90% de Fábio, vantagem mais confortável e politicamente venenosa para o governo. Depois, a W1 de junho trouxe Fábio na frente, com 44,7% contra 38% ou 38,7% de Valmir, dependendo da publicação. Pronto: a mesma W1 que antes era raio X quando favorecia Valmir virou diploma de estabilidade quando favoreceu Fábio. Pesquisa em Sergipe virou aquele espelho de banheiro de político: quando embeleza, é verdade científica; quando mostra olheira, é metodologia suspeita.

Fábio Mitidieri faz campanha há muito tempo, embora o nome técnico seja gestão. O projeto “Sergipe é Aqui” virou uma espécie de campanha eleitoral itinerante com crachá administrativo, levando serviços, secretarias, atendimentos, anúncios e estrutura do Governo do Estado para os municípios. No papel, é descentralização. Na prática política, é vitrine com som, toldo, equipe, rede social e governador aparecendo onde o eleitor está. O problema é que visitar município com máquina pública é uma coisa; ter liga orgânica com o povo é outra completamente diferente. Fábio pode até chegar com tenda, serviço, câmera e secretário. Valmir chega com a voz de pato rouco e o povo reconhece. É a diferença entre ser anunciado pelo cerimonial e ser puxado pelo braço na feira.

Essa é a disputa que as pesquisas tentam medir, mas nem sempre conseguem explicar. Fábio olha para as lideranças, e muitas lideranças olham para Fábio porque o Governo do Estado tem caneta, obra, convênio, cargo, agenda e sobrevivência política. Valmir olha para a população, e parte da população olha para Valmir como alguém que saiu da mesma poeira, fala a mesma língua e conhece o mesmo balcão de feira. É por isso que a eleição não pode ser lida apenas como governo contra oposição. É máquina contra rua. É gabinete contra mercado. É estrutura contra identidade. É o governador que precisa provar que conhece o povo contra o ex-prefeito que muitos veem como reflexo desse povo.

E há ainda o bombardeio. Valmir está praticamente entrando na campanha oficial depois de anos sendo metralhado por narrativas de inelegibilidade, processos, dúvidas jurídicas, ataques digitais e uma artilharia diária que começa cedo, toma café no rádio, almoça nas redes sociais e janta nos grupos de WhatsApp. É evidente que disputar contra a máquina é difícil. A máquina não precisa correr, ela ocupa. Não precisa gritar, ela pauta. Não precisa pedir passagem, ela já está sentada na primeira fila. Mesmo assim, Valmir segue aparecendo competitivo em vários levantamentos. Isso não é detalhe. Isso é sinal político. Quando um candidato apanha de manhã, de tarde e de noite e ainda aparece no jogo, é porque existe ali algo que não cabe no PowerPoint do governo.

A mídia também faz suas ginásticas olímpicas. Quando Laércio Oliveira, identificado com a direita, fala em Flávio Bolsonaro, em Rodrigo Valadares e, ao mesmo tempo, sustenta apoio a Fábio Mitidieri e a Edvaldo Nogueira, parte do debate trata isso como habilidade política, amplitude, engenharia, maturidade, composição. Mas quando aparece Manoel da Rosinha ou alguém com histórico ligado ao PT orbitando Valmir, aí alguns correm para gritar que Valmir está abraçado aos petistas, como se a política de Sergipe fosse convento ideológico e não feira de aliança com cheiro de pastel, café e conveniência. A pergunta que incomoda é simples: o critério é ideológico ou é apenas o endereço do apoio? Porque se mistura só é problema quando ajuda Valmir, então não estamos diante de análise política. Estamos diante de torcida com microfone.

Rogério Carvalho, por sua vez, é peça central nesse xadrez. O PT tem nome, tem senador, tem projeto e tem palanque próprio a preservar. O petismo sergipano, quando fala de eleição, fala sobretudo em Rogério. Por isso, qualquer tentativa de transformar apoio isolado em carimbo definitivo precisa ser vista com cautela. A eleição de 2026 em Sergipe ainda está longe de ser uma fotografia parada. Ela é filme em movimento, com pesquisa servindo de munição, mídia servindo de tambor, governo servindo de máquina e Valmir servindo de espelho popular para uma parcela expressiva do eleitorado. No fim, a pergunta que fica não é apenas quem lidera a última pesquisa. A pergunta é quem consegue transformar número em voto, palanque em confiança e barulho em vitória. E nesse ponto, por mais que o Governo do Estado tenha estrutura de sobra, Valmir continua sendo o personagem que obriga o Palácio a dormir com um olho aberto e o ar-condicionado no modo preocupação.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

Comentários estão fechados.

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais