PARTE 2 — CANAL DE XINGÓ: A OBRA QUE ENVELHECEU NO PALANQUE
Imagine morar a poucos quilômetros de um dos maiores rios do mundo e, ainda assim, depender de carro-pipa, cisterna e oração para atravessar o verão. O sertanejo olha para o São Francisco carregando bilhões de litros e depois olha para a própria torneira seca. Entre uma coisa e outra existe um canal que, há anos, aparece em mapas coloridos, discursos inflamados e fotografias de Brasília. Só não aparece, com a mesma desenvoltura, atravessando o sertão. O Canal de Xingó tornou-se a mais bem hidratada das promessas políticas. Ele não leva água para as casas, mas abastece campanhas com uma regularidade impressionante.
A obra já passou por tantos governos, ministros, reuniões, estudos e anúncios que deveria receber aposentadoria especial por tempo de palanque. Em 2017, anunciaram edital. Em 2018, autorizaram projeto básico. Em 2021, o Governo Federal anunciou licitação para o início das obras. Em 2024, o Congresso voltou a debater o começo da construção. Em 2025, Fábio Mitidieri declarou que o sonho“nunca esteve tão perto de se tornar realidade”. Em 2026, continuamos falando do início. O Canal de Xingó é uma obra com infância eterna: todo ano nasce de novo, sempre cercada pelas mesmas autoridades emocionadas e pela mesma terra seca.
O projeto, registre-se, é gigantesco e necessário. São aproximadamente 305 quilômetros, vazão máxima projetada de 36 metros cúbicos por segundo e capacidade para irrigar cerca de 16,5 mil hectares. O traçado contempla Canindé de São Francisco, Poço Redondo, Porto da Folha, Nossa Senhora da Glória e Monte Alegre, em Sergipe, além de Paulo Afonso e Santa Brígida, na Bahia. A água serviria ao consumo humano e animal, à agricultura e às atividades industriais, ajudando a transformar uma região historicamente condenada a negociar com a seca. Não é apenas um canal. É a possibilidade de o sertanejo deixar de pedir sobrevivência e começar a planejar o futuro.
Água muda tudo. Mantém o jovem no campo, salva o rebanho, permite plantar, atrai pequenas indústrias e devolve às famílias o direito de permanecer onde nasceram. A ausência dela faz o contrário: expulsa pessoas, destrói renda e transforma qualquer estiagem em sentença. Por isso, o Canal de Xingó não pode ser tratado como bondade de governador, ministro, senador ou presidente. O político que eventualmente cortar a fita não estará oferecendo um presente. Estará apenas entregando, com décadas de atraso, aquilo que o sertão já pagou em impostos, sofrimento e espera. Favor seria o sertanejo ainda mandar flores.
Fábio Mitidieri assumiu o Canal de Xingó como uma das vitrines de sua articulação em Brasília. Reuniu-se com ministros, conversou com a Codevasf, agradeceu ao presidente Lula e anunciou que a obra estava mais próxima da realidade. Cobrar recursos federais faz parte do dever de um governador e merece reconhecimento. O problema começa quando a reunião vira produto eleitoral antes de a engenharia virar obra. Em maio de 2026, reportagem do Jornal do Diaregistrou que a licitação mais recente previa 10,6 quilômetros da primeira etapa, pelo valor de aproximadamente R$ 119 milhões, mas que o início esperado para 2025 ainda não havia ocorrido. A promessa avançou quilômetros na comunicação. A máquina, segundo a reportagem, ainda procurava o caminho.
O governador não controla sozinho o orçamento da União nem comanda a Codevasf, mas responde politicamente pelo modo como apresenta o projeto aos sergipanos. Se está perto, mostre o cronograma. Se há dinheiro, diga quanto está assegurado. Se existe contrato, apresente a ordem de serviço. Se a obra começou, informe quantos quilômetros foram executados. O sertanejo já recebeu abraços, mapas, discursos e promessas suficientes para encher um reservatório. Agora quer ver escavadeira, concreto e água. Fábio não pode posar como pai da obra quando o anúncio rende manchete e virar apenas parente distante quando chega a hora de explicar o atraso.
Mesmo concluído, o canal não será uma varinha mágica. De nada adiantará transportar água por centenas de quilômetros e entregá-la a adutoras frágeis, reservatórios insuficientes e redes urbanas envelhecidas. Seria uma epopeia hídrica terminar derrotada pelo último cano enferrujado da rua. O Canal de Xingó precisa caminhar junto com a recuperação das adutoras, a ampliação dos reservatórios, a redução das perdas e a integração entre Deso, Iguá e os sistemas municipais. Depois de esperar décadas para a água chegar ao sertão, seria uma crueldade vê-la parar na esquina porque produção e distribuição ainda estão discutindo quem deveria abrir o registro.
A obra precisa sair do circuito turístico dos gabinetes. É necessário um painel público com orçamento, licitações, contratos, desapropriações, etapas executadas, fotografias georreferenciadas e prazos atualizados. União, governos de Sergipe e da Bahia, Codevasf, municípios e órgãos de controle devem assumir responsabilidades identificáveis. O Canal de Xingó não pode continuar sendo inaugurado no discurso a cada eleição e adiado na realidade depois que as urnas fecham. O sertão já produziu um oceano de paciência. Agora exige engenharia, dinheiro, fiscalização e prazo. Porque, até aqui, a única sede que essa obra matou com absoluta eficiência foi a dos políticos por fotografia e manchete.
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