Pedro Carvalho Oliveira
Professor de História Moderna e Contemporânea do Curso de História da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)
Coordenador do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)
Iany Lais Carneiro Silva
Graduanda em História pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)
Integrante do Grupo de Estudos História do Tempo Presente, Política e Movimentos Sociais (Gehpmov-CNPq)
Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid-CAPES-Univasf)
Recentemente, o filme “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2025, resgatou a música “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de Erasmo Carlos, lançada em 1971. Acompanhando o sucesso do filme, a canção ganhou enorme popularidade entre um público que até pouco tempo não conhecia a composição, cuja letra narra um incômodo, uma situação desagradável e que exige uma atitude, uma tomada de decisão, um posicionamento. Escrita em um contexto de intensificação dos mecanismos de opressão da ditadura militar, Erasmo Carlos convidava o público a agir, a não ficar “no conforto acomodado como tantos por aí”, de acordo com a letra. E embora trate da sombria conjuntura dos “anos de chumbo”, a música deve seu sucesso recente aos embates que ocorrem atualmente pela memória daqueles tempos.
Este é um exemplo de como a música pode documentar uma época e ao mesmo tempo resistir à passagem do tempo, ganhando novo sentido em novas épocas nas quais o passado parece, ainda, não ter passado por completo. Isto nos serve de alerta para repensarmos o papel que as músicas possuem em nossa sociedade, geralmente tratadas como peças de entretenimento ou de reflexões breves sobre os sentimentos individuais. Nas canções aparentemente mais banais podem existir mensagens que traduzem com riqueza de detalhes os dramas, dilemas e visões de mundo da época em que foram escritas. Basta sabermos onde e como encontrar essas mensagens.
Nos anos 1960 e 1970, a música se tornou política. O rock’n’roll se tornou o som da liberdade, das mais variadas transgressões e da rebeldia contra a cultura burguesa dominante. Ao mesmo tempo, a música popular latino-americana, personificada em nomes como Victor Jara, Mercedes Sossa e Milton Nascimento, para citarmos apenas alguns, resgataram tradições musicais latino-americanas para tratar da condição do “terceiro mundo”, do apagamento das culturas originárias e das alternativas à guerra. Em outra dimensão da apropriação política da música, os tons foram mais sombrios.
O rock fascista é um exemplo disto. As bandas deste gênero musical, surgido no final dos anos 1970, afirmam em suas músicas a devoção por seus ídolos políticos, expressam o ódio aos seus inimigos e sugerem formas de destruí-los, determinando o tipo de sociedade que idealizam. É por este motivo que as músicas são, na maioria das vezes, esforços para demonstrar insatisfação e explicar as razões dos seus ressentimentos e como “resolvê-los”, sempre com violência e ódio, assim como era com os fascismos clássicos. Enquanto muitas bandas de rock estão ligadas a causas e movimentos sociais, lutando pela inclusão de setores marginalizados e defendendo os mais vulneráveis, as bandas fascistas incentivam a perseguição, a exclusão e a violência contra seus alvos.
É preciso destacarmos, com preocupação, que o rock fascista chegou à América do Sul no início dos anos 1980. No Brasil, o surgimento da subcultura skinhead teve grande influência das ideias neofascistas ou de nacionalismo extremista importadas da Europa, o que permitiu que uma militância violenta já estivesse presente em suas primeiras manifestações musicais. Nos anos 1990, foi possível observar um enorme crescimento do rock fascista sul-americano. No Brasil, foram as bandas Locomotiva, Grupo Separatista Branco e Comando Blindado que ganharam notoriedade. Poderiam estas músicas e suas mensagens ganhar novo fôlego em contextos de intensificação autoritária?
As músicas cuja dimensão textual expressa ideias políticas correspondem, muitas vezes, aos debates políticos de sua própria época. Se, por um lado, na ditadura o discurso discreto de enfrentamento simbolizava as formas de contornar a censura e combater a opressão, por outro a música de revolta popular dos “anos rebeldes” pareciam manifestar, às claras, a crise das estruturas (sociais, culturais, econômicas) que eram acusadas de levar o mundo à iminência de uma guerra nuclear. Ao mesmo tempo, jovens fascistas se apropriaram do ritmo da rebeldia para discursar em favor do conservadorismo reacionário como solução para um mundo em mudança. O que dizem, realmente, as músicas que você ouve?
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