Profª. Drª. Andreza Maynard
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
Em 1944, a Itália foi um dos principais palcos dos combates terrestres na Europa Ocidental. Como era de se esperar, o país concentrou militares de várias nacionalidades, incluindo tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), mas também recebeu uma nova, e pouco provável, moradora. Seu nome era Clarice Gurgel Valente, mais conhecida como Clarice Lispector.
A escritora, que em 1943 publicou o romance Perto do Coração Selvagem, causando furor na literatura brasileira, era casada com o diplomata Maury Gurgel Valente. Ele havia sido designado para ocupar o posto de vice-cônsul em Nápoles. Em razão da missão atribuída a Maury, o jovem casal, ainda sem filhos, mudou-se do Brasil e passou a residir em Nápoles entre 1944 e 1946, quando se transferiu para a Suíça.
Os anos de 1944 e 1945 foram decisivos para a Itália. O país já havia rompido com a Alemanha nazista em setembro de 1943, mas permaneceu dividido. Enquanto o Sul estava sob controle dos Aliados, o Norte era ocupado pelos alemães. O primeiro semestre de 1944 foi marcado pela reconquista de parte do território italiano pelas forças aliadas.
Clarice chegou à Itália em um momento em que os Aliados ainda lutavam contra os alemães. Em uma carta enviada ao amigo Lúcio Cardoso, a escritora relatou que permaneceu 12 dias em Natal, aguardando o clipper (hidroavião utilizado à época), e embarcou no dia 30 de julho de 1944, às 14 horas. Foi preciso fazer escalas na Libéria, em Dacar, Lisboa, Casablanca, Argel e Taranto, até conseguir chegar a Nápoles no final de agosto. O percurso ilustra as dificuldades e a complexidade dos deslocamentos internacionais em meio à Segunda Guerra Mundial.
Segundo o historiador Francisco Ferraz, o primeiro contingente da FEB chegou a Nápoles em 16 de julho de 1944. Pouco mais de um mês depois, Clarice Lispector desembarcou na cidade e passou a atuar como assistente de enfermagem voluntária no hospital da FEB instalado na região. De acordo com Teresa Montero, a escritora visitava os feridos, levava flores, escrevia cartas e conversava com os compatriotas hospitalizados. Embora não tenha integrado o grupo das 73 enfermeiras brasileiras enviadas oficialmente à Itália, sua atuação voluntária demonstra o comprometimento cívico e humanitário de Clarice, bem como constitui uma faceta pouco conhecida de sua trajetória.
Dotada de uma sensibilidade sui generis, ela captou sensações relacionadas aos momentos finais da Guerra. Em outra carta, endereçada a Elisa Lispector e Tania Kaufmann e datada de 9 de maio de 1945, a escritora relata a falta de entusiasmo diante do cessar-fogo e da vitória dos Aliados. Segundo seu relato, até mesmo entre os italianos havia certo estranhamento diante da ausência de comemorações pelo fim da Guerra. Clarice atribuiu essa reação ao cansaço acumulado pela população e ao fato de que, de certa forma, a Itália havia saído derrotada do conflito.
A experiência de Clarice Lispector na Itália demonstra como a Guerra não foi vivida apenas por soldados e líderes políticos. Suas cartas revelam o olhar de uma intelectual brasileira que acompanhou de perto os impactos humanos do conflito, testemunhando a destruição, o sofrimento e o esgotamento da população europeia. Ao mesmo tempo, sua atuação voluntária junto aos pracinhas da FEB evidencia formas de participação civil frequentemente esquecidas pela historiografia, ampliando a nossa compreensão sobre as múltiplas relações entre o Brasil e a Segunda Guerra Mundial.
Para saber mais:
FERRAZ, Francisco Cesar. Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Contexto, 2022.
LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Organização de Teresa Montero. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
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