Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: JORGE VERCILLO
CD: “VIDA É ARTE”
Gravadora: RADAR RECORDS

Em sua fase áurea, o cantor e compositor carioca Jorge Vercillo chegou a engatar um sucesso após o outro (“Encontro das Águas, “Final Feliz”, “Que Nem Maré”, “Homem Ranha” e “Fênix” são alguns deles). Inicialmente tido por muitos como um clone de Djavan, não demorou muito para ele conseguir um lugar próprio. Em sua vitoriosa trajetória, já vendou mais de um milhão de CDs e DVDs (conquistou 1 Disco de Diamante e 3 Discos de Platina, sendo indicado 5 vezes ao Grammy Latino). Suas canções já foram gravadas por nomes que vão de Maria Bethânia e Ana Carlina a Buchecha e Claudia Leite, passando, entre outros, por Luiza Possi e Jorge Aragão.
Já de alguns trabalhos para cá, no entanto, ele vem tentando resgatar uma maior execução para suas novas canções e é com este anseio que ele acaba de pôr nas lojas, através da gravadora Radar Records, o décimo título (gravado em estúdio) de sua discografia. Trata-se de “Vida É Arte”, o qual foi por ele próprio produzido ao lado de André Neiva. São treze faixas autorais (oito compostas com parceiros), algumas delas já lançadas na web ao longo do ano passado dentro do projeto intitulado “Extra-Físico”.
Cantor de bom alcance vocal, o lado compositor começa a dar sinais de repetição. Como é, de fato, um intérprete acima da média, talvez uma saída temporária para isso fosse começar a pensar em, doravante, registrar algumas canções alheias.
Há, contudo, momentos interessantes. Um deles – a melhor faixa do disco e que, se bem trabalhada, tem potencial para se transformar em hit – é o reggae “Talismã sem Par”. Outro é a parceria com Flávio Venturini, “Luzes que se Movem pelo Chão”, em cuja letra se explicita uma das paixões atuais de Vercillo: a ufologia. E há ainda a beleza de “Amparados” (uma das duas canções do repertório que foram compostas com o baiano Jota Velloso – a outra é “Noite dos Jangadeiros”). Vercillo também apresenta sua versão para “Pode Ser”, música que ele entregou, há mais de uma década, para ser lançada em disco por Pedro Mariano.
Entre novas parcerias (“Cegueira de Visão”, feita com o produtor e compositor norte-americano Patrick Leonard, responsável pelos trabalhos mais populares de Madonna, em gravação que marca a estreia de Vinicius Vercillo aos treze anos, seu filho mais velho, tocando guitarra solo, e “Quem”, composta com a carioca Luana Mallet que surge dividindo os vocais no registro), Vercillo conta com a presença, em participação especial, do baiano Carlinhos Brown no crítico samba-funk “Silêncio na Favela”.
É mais um CD em uma estrada que segue. Apropriado para fãs, mas, na real, sem a força de trabalhos anteriores do artista…

N O V I D A D E S

* Com a direção musical, arranjos e regências das músicas a cargo do experiente produtor e gaitista Rildo Hora, chegou recentemente às lojas, através da gravadora Biscoito Fino, o CD duplo “Sambas para a Mangueira”. É, na verdade, um consistente painel que alberga trinta sambas compostos em homenagem à verde e rosa desde a sua criação. Há canções extremamente belas, a exemplo de “Sala de Recepção” (de Cartola), “Folhas Secas” (de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito), “Capital do Samba” (de José Ramos), “Estação Derradeira” (de Chico Buarque), “Sei Lá Mangueira” (de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho), “Fala Mangueira” (Mirabeau e Milton de Oliveira), “Os Meninos da Mangueira” (de Sérgio Cabral com o já citado Rildo Hora) e “Transformação” (de Jurandir da Mangueira e João Boa Gente). O time estelar de artistas selecionados para revisitar essas e outras pérolas inclui, entre outros, Beth Carvalho, Alcione, Monarco, Sombrinha, Nelson Sargento, Martinho da Vila, Leny Andrade, Moyseis Marques, Ana Costa, Teresa Cristina e Nilze Carvalho. Realmente imperdível!

* Após um jejum de treze anos, o cantor e compositor paulista Chico Salem anuncia ainda para 2016 o lançamento de seu segundo álbum. Intitulado “Maior ou Igual a Dois”, o repertório contará com treze faixas, dentre parcerias do artista com Arnaldo Antunes, Marcelo Jeneci e Zeca Baleiro.

* De Curitiba (PR), chega o novo e belo CD do Tao do Trio, grupo vocal formado por Suzie Franco, Fernanda Sabbagh e Cris Lemos. Produzido com elogiável competência por Vicente Ribeiro, o álbum intitulado “Flor de Dor” é um mergulho em parte da obra da poetisa Etel Frota que, através de treze faixas, viu seus versos serem musicados por Iso Fisher, Rubens Nogueira, Luis Felipe Gama e Zé Rodrix, entre outros. Um trabalho minucioso, concretizado com precisão cirúrgica que mostra porque ainda vale a pena continuar apostando e acreditando na música de qualidade. Após discos dedicados aos repertórios do baiano Caetano Veloso e do carioca Cartola, desta vez o Tao do Trio se volta para a sua própria aldeia, mostrando-se mais do que nunca universal. Em “Quatro Acalantos”, há a participação especial de Helena Bel, cantora que fez parte da formação original do grupo que completa vinte e dois anos de carreira (ela que foi substituída, em 2015, por Fernanda). Entre os destaques estão as ótimas “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, “Prazo Final”, “Dolor”, “Sanctus” e “Fim de Turnê”. Corra, ouça e divulgue!

* Ismael Silva, que foi o fundador da “Deixa Falar”, historicamente a primeira escola de samba do Rio de Janeiro, ganhou recentemente uma merecida homenagem. Trata-se do CD “Ismael Silva: Uma Escola de Samba”, lançado pela gravadora Mills Records, o qual reúne os talentos de Augusto Martins e Cláudio Jorge em doze faixas. Além das duas canções mais conhecidas de Ismael (“Se Você Jurar” e “Antonico”), o repertório joga luzes sobre outros bonitos temas menos batidos, a exemplo de “Contrastes”, “Me Diga teu Nome”, “Dona do Lugar” e “Quem Não Quer Sou Eu”.

* A cantora Joana Flor vem revelando seu talento na noite paulistana, onde pode mostrar também seu lado como multi-instrumentista. Dona de belo timbre vocal e com personalidade musical própria e já bem delineada, ela lançou, no ano passado, o seu primeiro CD, após ter disponibilizado dois EPs. Trata-se de “Indivíduo Lugar”, álbum produzido por ela e Manoel Barenbain e que se faz composto por oito faixas, metade assinada solitariamente por ela. Dentre estas os destaques ficam por conta de “Cores” e “Película”. As demais são regravações de canções de Chico Buarque (“A Rita”), Paulo Vanzolini (“Samba Erudito”), Marku Ribas (“Zamba Bem”) e Walter Franco (“Feito Gente”), em escolhas que comprovam sua pluralidade de influências. Vale a pena conhecer!

* Produzindo entusiasticamente, Ivan Lins tenciona lançar três discos este ano. Além do álbum dedicado ao fado que contará com gravações em Portugal e participações de músicos lusitanos, há o acalentado projeto de música caipira que apresentas parcerias com o cantor e compositor paulistano Rafael Altério (com quem Ivan forma a dupla Fioravante & Guimarães). Já o terceiro título vai reunir números de shows feitos por Ivan com o compositor, pianista e produtor musical gaúcho Geraldo Flach. A conferir!

* Através da gravadora Fina Flor, fez-se lançado recentemente “É Bom Cantar”, o segundo CD do cantor Chico Faria. Ele, que desde cedo conviveu com a nata da MPB (posto que é filho de Ruy Faria, integrante da formação original do MPB-4 que saiu do grupo em 2004, e de Cynara, uma das componentes do Quarteto em Cy), é um intérprete correto, jamais se aventurando por arroubos estilísticos. Seu timbre educado emoldura com destreza o repertório escolhido, composto por apenas nove faixas (seis delas são inéditas). O melhor momento é “Puro Ouro”, inspirado samba de Joyce Morena que, aliás, surge como convidada especial. Há as participações, nos vocais, dos já citados Ruy e Quarteto em Cy na canção-título (de Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro) e na regravação de “Sinhá” (parceria de João Bosco com Chico Buarque). Músicas como “Ares do Céu” (de Sombrinha, Sombra e Jotabê) e “Investida Fatal” (de Dona Ivone Lara, André Lara e Bruno Castro) se destacam em meio a outras assinadas por Ruy Quaresma, o produtor do álbum (“Viagem de Ida e Volta”, feita ao lado de Aldir Blanc e Paulo Emílio), Dori Caymmi (“Bico de Pena”), Guinga (“Bem Assombrada”, composta com Thiago Amud) e Jorge Vercillo (“Samba-Oração”).

* O novo CD da cantora e compositora carioca Fernanda Abreu, depois de dez anos de jejum, chegará em breve às lojas através da gravadora Sony Music. Intitulado “Amor Geral”, esse oitavo álbum solo da artista contém repertório inédito. São dez músicas (nove delas autorais – a exceção é “Double Love”, de Fausto Fawcett e Carlos Laufer), duas delas criadas em parceria com o cantor e compositor Qinho e outras duas feitas com a dupla Gabriel Moura e Jovi Joviniano. Fernanda também planeja relançar este ano, em formato digital, toda sua discografia, a qual se iniciou em 1990, após a saúda da banda Blitz.

* O ápice do sucesso de Paulo Ricardo ocorreu quando ele esteve à frente da banda RPM, na década de oitenta do século passado, época em que o rock nacional assolava as rádios e lotava os shows realizados em grandes arenas e ginásios. Ancorado na bela estampa e avalizado por nomes como Caetano Veloso e Milton Nascimento, ele se tornou quase que instantaneamente um fenômeno nacional. Choque de egos entre os integrantes fez com que a banda se dissolvesse no auge (ainda que se reunisse em futuras tentativas) e, em sua carreira solo, permeada por alguns problemas pessoais, Paulo Ricardo tentou vários caminhos, nenhum deles conseguindo fazer com que chegasse perto da fama de outrora. Bom compositor e ótimo intérprete, ele segue em frente com o recente lançamento do CD intitulado “Novo Álbum”, o qual chegou ao mercado através da gravadora Universal. Produzido por ele próprio ao lado de Guilherme Canaes, esse projeto contém um repertório formado por nove músicas autorais e inéditas (mais a regravação de “Raios X” e uma nova versão para “Vida Real”, o propagado tema de abertura do reality show global “Big Brother Brasil”), cinco delas criadas com os parceiros João Paulo Mendonça, Marcos Zeeba e Lucas Silveira. Embora ainda não seja o CD que o artista deve ao seu público, há momentos interessantes, dentre os quais as faixas “Eu Não Sei”, “Novo Single” e “Isabela”, esta uma homenagem a sua filha. Na capa, aliás, a foto do outro filho, Luis Eduardo, aponta explicitamente para o desejo de um renascimento musical, fato que, infelizmente, ainda não foi desta vez que aconteceu.

* A cantora e compositora carioca Ana Sucha estará lançando, neste primeiro semestre, o seu CD de estreia no mercado fonográfico, o qual, sob a produção de Eugenio Dale, trará, no repertório, tanto canções autorais quanto temas alheios. Quem viver ouvirá!

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

Quaisquer críticas e/ou sugestões a este blog serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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