Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantor: ZECA BALEIRO
CD: “ERA DOMINGO”
Gravadora: SOM LIVRE

Quando, em 1997, surgiu para a grande massa apreciadora da MPB de qualidade, o maranhense Zeca Baleiro parecia vir a reboque do sucesso instantâneo do colega paraibano Chico César. Apadrinhado pelo produtor Marco Mazzola, ele logo engatou a bela “Flor da Pele” na voz de Gal Costa, mas, ato contínuo, comprovou ser um artista de grande talento e sensibilidade, dono de personalidade musical própria, tanto que os seus dois primeiros arrebatadores discos guardam canções que, até hoje, lhe são exigidas nos shows pelo seu público fiel, a exemplo de “Heavy Metal do Senhor”, “Bandeira”, “Salão de Beleza”, “Pedra de Responsa”, “Meu Amor meu Bem me Ame”, “Lenha”, “Boi de Haxixe” e “Samba do Approach”.
Depois de atuar como produtor de álbuns de colegas e de ter várias de suas canções gravadas por outras vozes, Baleiro (que, ao longo do tempo, desenvolveu trabalho com Fagner e mergulhou recentemente no cancioneiro de Zé Ramalho) volta à tona com o lançamento do ótimo “Era Domingo” (mixado em Nova York por Patrick Dillet e masterizado também em NY, no Sterling Sound, por Chris Gehringer, que trabalhou em discos das cantoras Rihanna, Selena Gomez e Madonna), um dos melhores títulos de sua já considerável discografia, o qual acaba de ser lançado pela gravadora Som Livre.
Ciente de que o que une as suas canções é mesmo ele próprio e longe de amarras conceituais, ele entregou cada uma das inéditas onze faixas a um produtor diferente (Rogério Delayon, Kuki Stolarski, Marcelo Lobato, Marcos Vaz, Fernando Nunes e Adriano Magoo estão entre eles) e o resultado mostra que isso, quando se trata de um grande artista, nunca é um problema; pelo contrário, injetam-se em cada uma das canções salutares ideias que podem fazê-las caminhar por inusitadas estradas.
Um dos poucos (corajosos) autores que têm como praxe compor cada música em três partes (aliás, isso é uma sua característica), Baleiro se mostra um ás nos refrões, sempre inteligentes e que ficam na memória de quem os ouve. Observador dos temas hodiernos, ele tanto expõe a dureza da vida e, por isso mesmo a necessidade se não se apegar às aparências (na contundente e crítica “De Mentira” que remete a Fernando Pessoa), como ressalta o apequenamento do ser humano diante de uma paixão (em “Desejo de Matar” com seu delicioso – olha ele! – refrão).
A solidão se faz exposta logo na primeira canção (a faixa título em que se destaca o arranjo de cordas capitaneado por Tuco Marcondes) e segue, em outra linha, com a falta de coragem para aproveitar a oportunidade dada pela bela dona no semáforo (no contagiante ska “Ela Parou no Sinal”, emoldurado pelos metais arranjados por Pedro Cunha). 
Costumeiramente recheado de convidados em seus trabalhos anteriores, neste ora resenhado Baleiro conta tão somente com Ellen Oléria, responsável pelos vocais de “Homem Só”. Também sempre costuma se fazer presente nos discos de Baleiro um reggae, ritmo marcante de São Luiz (MA), e aqui ele surge em “O Amor É Invenção”.
Apenas duas faixas não foram compostas solitariamente pelo artista: a pop “Deserta”, feita com Lokua Kanza, e o rap “Desesperança”, criada com Paulo Monarco sobre poema de Sousândrade.  Os grandes momentos ficam por conta da inspirada “Balada do Oitavo Andar”, da míni obra-prima “Pequena Coisa” e da aciganada “Ultimamente Nada”.
Um CD muito legal que, se eu fosse você, iria correndo conhecer para ouvir e curtir adoidado!

N O V I D A D E S

* Sim, a garota tem boas ideias! E, sim, as sabe expressar com criatividade! A garota em questão é a cantora, compositora e atriz Clarice Falcão e as ideias, algumas delas, estão expressas em “Problema Seu”, o segundo e independente CD dela, o qual aportou há pouco tempo nas lojas. Produzido pelo disputado Kassin, o álbum se faz composto por quatorze faixas, onze delas assinadas solitariamente pela própria artista (as exceções são a kitsch “Banho de Piscina”, do pai João Falcão, “A Volta do Mecenas”, de Matheus Torreão, e “L’Amour Toujours”, de Luigino D'Agostino, Carlos Montagner, Paolo Sandrini e Diego Leoni, cantada em inglês). Como cantora, Clarice tem boa voz e vem cantando cada dia melhor. Mas é como compositora que, de fato, se destaca. E, embora por vezes tenda a se repetir melodicamente, o fato é que a maioria de suas músicas se revela bastante interessante, como é o caso de “Irônico”, “Eu Escolhi Você”, “Marta”, “Se Esse Bar Fechar”, “Como É que Eu Vou Dizer que Acabou?” e “Vagabunda”, os destaques do mordaz repertório apresentado. Bem humorada e resolvida, ela ainda tira onda dela mesma em “Clarice”. Corra e se deleite!

* Em breve estará sendo lançado o quarto CD da cantora Bruna Caram, o qual trará, no repertório, entre algumas regravações, uma canção assinada por Chico César. A conferir!

* David Tavares é um músico paranaense radicado há quase trinta anos na Espanha. Portanto, nada mais natural que a sua obra reflita a miscelânea entre as duas culturas, conforme se pode constatar através de seu terceiro disco, o independente “Ni tan Rey, ni tan Ratón” (tradução: “Nem tão Rei, nem tão Rato”), recentemente lançado. As influências brasileira, clássica e flamenca se fazem presentes nas doze faixas autorais, três delas criadas em parceria com Bio Medeiros. Gravado em Madrid, o álbum é majoritariamente instrumental, mas se abre ao canto em três faixas (“Minha Vida” e “Negro e Sinhá”, ambas com a voz de Paulo Mestre, e “Marineide da Favela”, gravada por Pedro Moreno). Ótimos momentos ficam por conta de “Frevando” (um frevo a dois violões, executado com técnica flamenca), “Rumba Nova” (tema espanholado recheado de células melódicas e harmônicas brasileiras) e “Sambalacho” (espécie de afro samba que bebe na fonte de Baden Powell e Vinicius de Moraes, mas traz também ecos da chula baiana). Bem legal!

* “Eu Já Posso me Chamar Saudade” é o título da primeira parceria entre Moacyr Luz e João Cavalcanti. A canção integrará o próximo CD do quinteto Casuarina do qual o segundo faz parte. O projeto terá um repertório autoral e essencialmente inédito. Deve vir coisa muito boa por aí!

* É apenas uma voz acompanhada de um violão. E o que poderia soar monocórdio resulta maravilhoso, afinal se trata da voz bela e super afinada da cantora Lívia Nestrovski acompanhada pelo instrumento preciso e precioso do pai, o virtuoso violonista Arthur Nestrovski. Assim, o recém-lançado CD “Pós Você e Eu”, o qual, sob a produção de Cacá Machado, chega ao mercado através do selo Circus, perpetua esse memorável encontro em onze faixas que condensam quatorze músicas escolhidas a dedo, dentre as quais algumas compostas pelo próprio Arthur ou por ele versionadas. Há desde temas associados aos clássicos Franz Schubert e Robert Schumann (“Serenata” e “Pra Que Chorar”, respectivamente) até canções já entranhadas no inconsciente coletivo nacional (caso de “Por Causa de Você” e “Molambo”), além de interessantes parcerias entre Arthur e Luiz Tatit (“Um Milhão”, “Matusalém” e a faixa-título). Há que se destacar, ainda, os pertinentes resgates de “Londrina” (de Arrigo Barnabé) e de “Folha Morta” (de Ary Barroso). De fato, um álbum imperdível!

* “A Fúria do Mar”, o novo CD do cantor e compositor Maurício Baia, está chegando ao mercado através da gravadora Som Livre. Um dos destaques do repertório majoritariamente autoral é a regravação de “Caio no Suingue”, de Pedro Luís, originalmente lançada, em 1997, pelo grupo carioca Pedro Luís e a Parede no álbum “Astronauta Tupy”.

* E no país das cantoras, duas delas tentam marcar espaço com CDs bacanas. Enquanto Carol Andrade homenageia as compositoras da nossa MPB com o seu “Outras Mulheres” (em que canta, entre outras, canções assinadas por Fátima Guedes, Chiquinha Gonzaga, Isolda, Adriana Calcanhotto e Rita Lee), Vanessa Oliveira dá voz e vez a compositores pernambucanos em “O Outro Lado da História” (estão lá, por exemplo, músicas criadas por Alceu Valença, Junio Barreto, Yuri Queiroga, Lula Queiroga e Lenine). Vale a pena conhecê-las!

* Aos setenta e oito anos, a cantora e compositora paraense Dona Onete vai lançar em breve o seu segundo álbum intitulo “Banzeiro”. Nele, a artista (que agora começa a ver seu nome conhecido nacionalmente) vai interpretar doze canções de sua própria autoria, dez delas inéditas. As conterrâneas Aíla e Lia Sophia, cantoras que já gravaram músicas de Dona Onete anteriormente em seus discos, participam do projeto.

* Após dez anos longe do mercado fonográfico, a cantora e compositora Fernanda Abreu está pondo nas lojas, através da gravadora Sony Music, um novo trabalho. Trata-se do CD intitulado “Amor Geral”, o qual vem sendo muito bem recebido pela crítica especializada. Na verdade, o álbum mostra uma cantora em franca ascensão: Fernanda, hoje, canta com uma segurança ímpar e seu estilo inconfundível a torna única na sua área. No entanto, no tocante ao repertório o disco não é isso tudo que estão a alardear. De positivo, a explícita vontade da artista de se arriscar em novas praias, o que se percebe tanto em “Antídoto” como em “Valsa do Desejo”. E se nesta o resultado é mediano, naquela ela alcança um dos pontos mais altos do disco. Autora (ao lado de parceiros como Gabriel Moura, Jovi Joviniano, Jorge Ailton, Donatinho e Qinho) de nove das dez faixas do repertório (a exceção é “Double Love Amor em Dose Dupla”, de Fausto Fawcett e Laufer), ela pouco acrescenta à sua discografia momentos como “Deliciosamente” e “O Que Ficou”. Por outro lado, o álbum já valeria a pena por conta de “Outro Sim” e “Tambor”, canções originalmente inspiradas e muito bem concebidas na forma como se fazem apresentadas ao público.

* Sob a produção do guitarrista Gabriel Muzak, o cantor e compositor carioca Mihay lançou recentemente seu segundo álbum. Intitulado “Gravador e Amor”, contém um repertório inédito e autoral que contempla onze músicas. A pluralidade se explicita entre canção romântica, moda de viola, blues, dub e samba. Há as participações especiais de Romulo Fróes (em “Desafinador do Mundo”), Mariana Aydar (em “Memória de Elefante”) e Luisa Maita (em “Nem Tudo”), além de João Donato e Tulipa Ruiz (em “Noite Clara”).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

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