Musiqualidade

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R E S E N H A

Cantora: ELZA SOARES
CD/DVD: “ELZA CANTA E CHORA LUPI”
Gravadora: COQUEIRO VERDE RECORDS

É praticamente inacreditável a força com que Elza Soares, no alto de suas quase oito décadas de vida, canta. Com dificuldade de locomoção, ela tem rodado o Brasil com apresentações do show “A Mulher do Fim do Mundo”, baseado no repertório de seu mais recente (e aclamado) disco de estúdio e, paralelamente, vem divulgando o lançamento do registro ao vivo feito em tributo ao compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, gravado no Theatro São Pedro, em Porto Alegre (RS), em dezembro de 2014.
O estojo “Elza Canta e Chora Lupi”, um lançamento da gravadora Coqueiro Verde Records, chegou recentemente às lojas condensando CD e DVD que mostram a veterana intérprete em momento iluminado. Sob a produção musical do saxofonista Eduardo Neves, também o responsável pelos arranjos, Elza demonstra a sua admiração e gratidão por Lupicínio: foi com a canção “Se Acaso Você Chegasse” que ela conseguiu começar a fazer sucesso.
Dona de uma voz privilegiada, única em alcance e potência, ela, que também sempre foi bastante afinada, se entrega de corpo e alma às emoções contidas nas letras passionais do gênio criador de pérolas da nossa MPB, a exemplo de “Esses Moços”, “Ela Disse-me Assim”, “Quem Há de Dizer”, “Vingança”, “Volta” e “Nervos de Aço”, todas logicamente presentes no set list que termina por albergar dezessete números.
“Exemplo”, a faixa de abertura, entoada a capella, se junta a “Vou Brigar com Ela”, “Jardim da Saudade”, “Amigo Ciúme” e “Caixa de Ódio” como as canções menos conhecidas. As demais já se entranharam no inconsciente coletivo nacional, inclusive através de gravações antológicas de Caetano Veloso (“Felicidade”), Elis Regina (“Cadeira Vazia”), Maria Bethânia (“Loucura”), Zizi Possi (“Nunca”) e Jussara Silveira (“Quem Há de Dizer”), mas ganham novas nuances na interpretação sempre inusitada de Elza, que as transforma em ótimos momentos da homenagem. Nada, contudo, supera a arrebatadora entrega da artista, entre bêbada e insana, em “Eu Não Sou Louco”, ponto máximo desse interessante projeto, desde já um item obrigatório para todos os amantes da música brasileira de qualidade. Corra e ouça!

N O V I D A D E S

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O selo Discobertas pôs recentemente nas lojas o box intitulado “Ivan Lins – Anos 70”, o qual embala três CDs com conteúdos inéditos do famoso cantor e compositor. Os volumes 1 e 2 são frutos de registros ao vivo de apresentações realizadas com o grupo Modo Livre em Curitiba e São José do Rio Preto, respectivamente, ambas em 1975, e trazem versões de Ivan (então com trinta anos e no auge do vigor vocal) para canções de Zé Kéti (“Opinião” e “Acender as Velas”) e Gilson Peranzzetta (as instrumentais “Song to my Brother” e “Francamente”) e para alguns autorais temas seminais (“Agora”, “Deixa Eu Dizer” e “Me Deixa em Paz”, compostas com Ronaldo Monteiro de Souza, e “Abre Alas”, “Nesse Botequim” e “Demônio de Guarda”, criadas com Vitor Martins). Já o volume 3 contém uma dúzia de gravações feitas em estúdio no já distante ano de 1978, três delas (“Desalento”, “Eu Preciso de Silêncio” e “Esse Pássaro Chamado Tempo”, parcerias com o já citado Ronaldo) soladas por Lucinha Lins, à época casada com Ivan. Lucinha também aparece fazendo os vocais da inédita “Por Cima dos Ossos” (mais uma de Ivan e Ronaldo). Trata-se, assim, de ouro puro (posto que de alto valor documental) para os fãs e colecionadores de plantão!

* O cantor e compositor sergipano Sergival, ora radicado em terras cariocas, lançou na semana passada o seu segundo CD intitulado “Festança”. Um dos mais importantes representantes da cultura sergipana, o artista está a comemorar trinta anos de carreira e marca essa data redonda com o novo disco que traz, no repertório, clássicos do forró de Sergipe. Gravado com uma banda composta por nomes de primeira linha, tais como Carlos Bala, Ney Conceição e Silvério Pontes, o álbum conta com as participações especiais de Léo Gandelman, Rildo Hora e Zé Calixto. Muito legal!

* Depois da dupla Kleiton & Kledir, do irmão deles (Vitor Ramil), e do filho deste (Ian Ramil), mais um membro da talentosa família adere ao mundo da música. Trata-se de Thiago Ramil que recentemente fez chegar ao mercado o seu primeiro CD. Intitulado “Leve Embora”, o álbum, concretizado em meio a vozes e ambiências que misturam sons orgânicos e ruídos eletrônicos, foi produzido a quatro mãos por Felipe Zancanaro e Vini Albernaz e se faz composto por uma dúzia de faixas autorais, sete delas criadas solitariamente pelo artista gaúcho. Cantor de voz bastante agradável (com um timbre que, por vezes, o remete a Chico César), Thiago se mostra um compositor interessante (principalmente quando flerta com a canção em seu formato mais tradicional) que não se enquadra em qualquer estilo predefinido. O grande destaque do repertório é a canção “Show Me”, mas há outros bons momentos, caso de “Casca”, “Desculpa”, “Leite e Nata” e “Dizharmonia”. Uma estreia promissora de um nome que merece ser acompanhado com atenção!

* Já se encontra em estúdio o cantor e compositor Nando Reis terminando as gravações das músicas que farão parte de um novo CD, o qual tem como produtores os norte-americanos Barrett Martin e Jack Endino. Com o repertório formado por músicas inéditas e autorais, o disco vai contar com a presença de três integrantes do grupo Titãs (Paulo Miklos, Branco Mello e Sérgio Britto) e também do ex-titã Arnaldo Antunes. As cantoras Luiza Possi, Pitty e Tulipa Ruiz igualmente marcam território em uma das faixas. Deve vir coisa muito boa por aí!

* A baiana Clécia Queiroz chega ao seu terceiro CD, tentando se fazer conhecida além dos muros de sua aldeia. O independente “Quintais”, sob a produção de Sebastian Notini e Dudu Reis, segue a rota traçada em seus discos anteriores, ancorado em um repertório onde predominam os chamados sambas buliçosos característicos do recôncavo baiano. Cantora de timbre suave e conhecedora dos terrenos onde pisa, Clécia foge das obviedades de grande parte de suas conterrâneas, optando por um cancioneiro que bebe nas fontes mais genuínas da nossa tradição. Entre as quinze faixas (aí incluídas a vinheta “Salve Xangô”, entoada por Sú de Oiá, e o medley que reúne dez temas de domínio público) predominam músicas compostas por J. Velloso e Roque Ferreira. No que se refere às do primeiro, as melhores são “Me Salvem de Mim” (parceria com Alexandre Leão e Manuca Almeida) e “Anjo Fugido” (feita com Roberto Mendes). Já com relação ao segundo, merecem destaque a sertaneja “Nobreza”, a afro “Amurê” e o divertido “Samba Direitinho” (composto com Walmir Lima). O acordeão de Targino Gondim conduz a chula “Águas de Oxum” e a nossa D. Nadir da Mussuca abre com galhardia os trabalhos em “Samba Bom”.

* O próximo projeto musical da cantora Marina de la Riva já se encontra pronto e será lançado até o final do ano. Será um álbum em que ela mergulhará na obra de Dorival Caymmi, fruto de show que vem apresentando nos últimos dois anos. O disco vai contar com as participações especiais de Danilo Caymmi (em “O Bem do Mar”), João Donato (em “Rainha do Mar”) e Ney Matogrosso (em “Só Louco”).

* Enquanto esperam pelo lançamento do aguardado novo CD que será lançado em breve, os admiradores do Quarteto em Cy podem amenizar a saudade com o relançamento de “Caymmis, Lobos & Jobims”, disco originalmente editado em 1981 pela RGE e recentemente reposto em catálogo através da gravadora Som Livre. Trata-se de um dos grandes títulos da coerente trajetória do Quarteto em CY, o melhor grupo vocal feminino da história da nossa MPB. O primoroso repertório de dez faixas reúne canções assinadas por Dorival Caymmi e seus filhos Dori Caymmi e Danilo Caymmi (“Milagre”, “Desenredo” e “Tataravô”, respectivamente), Fernando Lobo e seu filho Edu Lobo (“Preconceito” e “Vento Bravo”) e Tom Jobim e seu filho Paulo Jobim (“Ai Quem me Dera” e “Maria, É Dia”). Completam o set list “Saudade”, “Caminhos Cruzados” e “Borzeguim”. Imperdível!

* Para comemorar os quarenta e cinco anos de carreira, a cantora Célia lançará em breve o seu primeiro DVD, o qual, idealizado pelo DJ Zé Pedro para ser lançado por sua gravadora Joia Moderna, foi gravado sem plateia em abril próximo passado no Teatro Itália, em São Paulo. O repertório contempla canções assinadas por Chico Buarque, Ivor Lancellotti, Joyce Moreno, Otto, Sérgio Sampaio, Synval Silva e Zeca Baleiro. A conferir!

* A cantora curitibana Juliana Cortes está lançando “Gris” (matiz que fica entre o branco e o preto), o seu segundo CD. O sucessor de “Invento” (de 2013) continua a dialogar com o movimento da Estética do Frio, ligado ao compositor gaúcho Vitor Ramil (autor, ao lado do poeta Paulo Leminski, de “Uma Carta uma Brasa através”, a primeira faixa desse interessante trabalho que chega ao mercado de maneira independente – Leminski também se faz ali gravado com “A Você Amigo”). De formação clássica e dona de um canto soprano límpido e suave, Juliana entregou a produção do CD ao competente e experiente Dante Ozzetti, autor de um dos melhores momentos do repertório de dez faixas, a ótima “Outras Milongas” (parceria com Luiz Tatit). Outro destaque fica por conta de “Costura para Dentro” (de Carlos Careqa e Simone Wicca). Apenas três das canções selecionadas não são inéditas: “Balangandãs” (de Maurício Pereira), “Bandida” (de Grace Torres e Ulisses Galleto) e “Germinal” (do uruguaio Dany López, com tradução e adaptação da própria Juliana; nesta faixa, o destaque fica por conta do vibrafone executado por Antônio Loureiro). Com uma sonoridade delicada, a qual se faz adornada por pertinentes interseções de programações levadas a cabo de Guilherme Kastrup, o projeto conta com as participações especiais de Moska em “Mismo” (de Estrela Leminski e Leo Minax, este também presente com “Circular 102”, composta ao lado de Chico Amaral) e Arrigo Barnabé (em “O Mal”, feita por ele com o já citado Dante). Vale a pena conferir!

* Através da gravadora Sony Music, chegou recentemente ao mercado a compilação “Novíssima Música Brasileira”, idealizada pelo jornalista Marcelo Monteiro, um dos editores do blog Amplificador. O CD reúne, em dezoito faixas, bandas e cantores emergentes do universo pop nacional, os quais são oriundos de oito Estados do Brasil: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Paulo e Sergipe (daqui, marcam presença o The Baggios com a canção “Cá Estou” e a Coutto Orquestra com “Corre”). Entre outros selecionados estão Nômade Orquestra (SP), Letuce (RJ), Ifá Afrobeat (BA), Tagore (PE) e Muddy Brothers (ES).

RUBENS LISBOA é compositor e cantor.

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