O extraordinário

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O extraordinário mesmo é quando o sol insiste em nascer mesmo nos tempos mais estranhos.

Morre um gênio ou dois, acorrentam um homem a um poste em praça pública, mais uma criança morre de fome e mais uma guerra começa. Ou acaba. Uma nova hidroelétrica começa a desalojar pessoas, uma floresta é derrubada, mais seres humanos são escravizados, mais poluição, mais calor, mais chuvas fora de época. Mais um homem preto é linchado ali na esquina de casa, mais uma mulher foi estuprada e uma outra abusada dentro de casa. Mais uma avó morreu solitária, mais alguns jovens foram fuzilados, mais um casal gay foi violentamente assassinado. As passagens de ônibus seguem aumentando, o arroz e feijão também, as lavouras todas seguem sendo fumigadas por agrotóxicos cada vez mais tóxicos. Um povo inteiro é assassinado porque não fala a mesma língua de quem está no poder, porque suas terras interessam a sabe-se lá que tipo de interesses escusos, porque são pretos, brancos, vermelhos ou amarelos, adoram este ou aquele deus, caminham assim ou assado, porque nasceram. Um rio morre, uma espécie animal desaparece, uma montanha é explodida, uma praia é cercada, uma geleira derrete irrevogavelmente, uma árvore centenária é derrubada. Um anônimo é assassinado, seres humanos morrem em campos de refugiados, uma mãe chora o assassinato do filho, errado desde o princípio por ser preto e pobre.

Mas o sol nasce. A primavera ainda vem. As plantas incrivelmente, seguem brotando do solo (um jasmineiro que se estica apressado pelas grades da janela). As crianças seguem nascendo nesse mundo maluco (ela ligou: acho que vai nascer de sete meses como o irmão! A barriga já está tão esticada!) e alegram o mundo com sua leveza (tia, segura minha mão pra eu não cair). E não cai. E eu também me seguro na mãozinha redonda que se encaixa segura na minha mão, de repente, tão grande. Os gatos se esticam sob o sol depois da chuva e os pássaros seguem cantando mais alto que o barulho dos carros na avenida movimentada. Uma lua surge imensa e gorda no horizonte. O mar segue marulhando e encantando. Uma pessoa (uma criança ou um adulto, não importa) aprende uma coisa nova e se encanta de poder fazer. Alguém se lembrou de uma canção da infância e sorriu sozinho no trânsito. Alguém teve uma boa ideia. Uma floresta foi plantada por um homem só – e o homem decidiu ensinar como plantar florestas. Um povo resistiu à morte e obteve uma pequena vitória: estar vivo mais um dia. Alguém enxugou o suor da testa, cansado, e decidiu continuar. Uma mulher se libertou e sorriu feliz. Um sábia-laranjeira cantou no fundo de casa e ninguém achou que aquilo era um incômodo – todos ouviram poesia. Alguém aprendeu a ler. Alguém encontrou uma resposta. Alguém ganhou um abraço apertado de uma criança bem feliz – e ficou feliz junto. Alguém voltou pra casa depois de um dia cansado de trabalho. Uma menina se apaixonou – e foi correspondida. Uma avó dançou sozinha em seu quarto – rindo, marota. Ela leu um livro de poesia pela primeira vez e foi arrebatada. Ele viu o mar pela primeira vez e quase se desfez em alegria.

O extraordinário mesmo é quando a gente percebe que a vida segue. E que a poesia resiste.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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