O Iate Clube lotou, os ônibus chegaram, os prefeitos apareceram, os vereadores sorriram para as fotos e Alessandro Vieira finalmente conseguiu mostrar uma coisa que perseguia há anos: musculatura política. O problema é que política não vive apenas de salão cheio. Vive de memória. E a memória da política sergipana é igual parede de bar antigo: absorve tudo e esquece pouca coisa. Ontem, Alessandro tentou vender a imagem do senador equilibrado, maduro e institucional. Mas parte da plateia ainda lembrava daquele Alessandro que surgiu em 2018 como “o delegado anti- sistema” e hoje já passou por mais mudanças partidárias do que muito cantor de arrocha troca de empresário.
Alessandro saiu da Rede, aproximou-se do Cidadania, caminhou com o PSDB, hoje está no MDB e, no meio disso tudo, foi mudando discurso, alianças e posicionamentos conforme Brasília foi ensinando que pureza política dura menos que guarda-chuva em ventania na Orla. O senador que nasceu combatendo os velhos grupos agora aparece cercado exatamente por prefeitos, estruturas tradicionais, lideranças clássicas e políticos profissionais que ele próprio criticava anos atrás. Em política isso não é crime. Mas gera uma pergunta inevitável no eleitor: Alessandro amadureceu ou apenas aprendeu como funciona o jogo?
E talvez o maior símbolo dessa transformação esteja justamente na frase mais elegante e mais afiada da noite: “eu sou diferente do André, sou diferente do Rogério”. Foi uma pancada dada de luva branca, dessas que o sujeito sorri enquanto bate. Só que existe uma ironia cruel nisso tudo. Em 2018, Alessandro só conseguiu crescer porque André Moura, Rogério Carvalho, Valadares e Pastor Heleno dividiram votos, abriram espaços e incentivaram aquele famoso “segundo voto útil”. Alessandro surfou numa eleição onde quase todo mundo ajudou um pouco sem perceber que estava fabricando o futuro adversário. Agora, oito anos depois, ele sobe no palco para dizer que faz “a caminhada do seu jeito”, como quem esquece que muita gente segurou a porta aberta lá atrás.
E aí mora outra crítica silenciosa que começa a crescer nos bastidores. Alessandro passou anos construindo a imagem de independência absoluta, mas em Brasília muitas vezes votou alinhado ao governo Lula, apoiou pautas vistas pela direita como progressistas e transitou entre grupos ideológicos completamente diferentes. Resultado: uma parte da esquerda nunca confiou totalmente nele e uma parte da direita passou a enxergá-lo como político de discurso mutável. Alessandro virou aquele sujeito que entra em qualquer roda, conversa bem com todo mundo, mas deixa metade da mesa desconfiada quando vai embora.
No meio do evento, porém, havia uma verdade impossível de negar: Alessandro cresceu. Cresceu muito. O homem que em 2018 parecia reunião de condomínio com delegado e meia dúzia de apoiadores agora consegue parar a Beira Mar, lotar o Iate e juntar nomes importantes em torno da sua candidatura. Isso tem mérito político, tem construção de mandato e tem estratégia. Só que também existe um detalhe importante: novidade envelhece. E Alessandro já não é mais “o novo”. Agora ele carrega o peso de explicar suas mudanças, suas alianças, seus silêncios e suas metamorfoses políticas diante de um eleitor sergipano que hoje acompanha política igual acompanha série em plataforma de streaming: lembrando de cada temporada anterior.
No fim da noite, o Iate parecia mais um grande teste psicológico coletivo do que apenas lançamento de candidatura. Alessandro tentou mostrar força, independência e organização. Conseguiu. Mas também deixou claro que sua eleição de 2026 será muito diferente da aventura quase romântica de 2018. Antes ele era o improvável. Hoje é o establishment tentando continuar parecendo rebelde. Antes criticava os grupos políticos. Hoje precisa deles. Antes era carregado pelo voto de protesto. Agora terá que convencer o eleitor de que, depois de tantas mudanças de rota, ainda continua sendo realmente “diferente”.
Comentários estão fechados.