O Palhaço Xixarrão

Xixarrão era um homem alto, magro, já sexagenário, de cor morena clara, cabelos embranquecidos, claudicava de uma perna, tinha um braço semiparalisado e a boca era um pouco repuxada para um lado; pequenos aleijões resultantes de um “ramo”, como era conhecido, naqueles tempos, o derrame cerebral, hoje comumente denominado: AVC – Acidente Vascular Cerebral.

Chegou à cidade acompanhando a trupe do circo que tinha o seu nome: “Circo Xixarrão”. Ele era o palhaço, ou seja, ele era a maior atração daquele espetáculo, o mais alegre, o melhor contador de piadas, o mais “presepeiro”, o maior animador da trupe, enfim, ele era o melhor palhaço. Já por vários anos que a companhia fazia parada naquela cidadezinha, perdida no interior do Ceará, por isso ele era muito conhecido e querido pela população.

Quando o circo chegava naquela cidadezinha era a maior festa! As crianças ficavam em polvorosa, a alegria tomava conta de todos; dos adultos e, sobretudo, da gurizada.  Muita gente vinda dos arrabaldes para ver os artistas, as mágicas, os irmãos trapezistas e, ele, o palhaço Xixarrão e a sua mandioca – um pedaço de madeira toda retorcida que ele usava como bengala e para qual sempre se referia como sendo o seu amuleto de sorte.

Ele era famoso, era o principal, não era à toa que ele dava nome aquele empreendimento; a sua atuação era irretocável, à tardinha, saía montado num jumentinho, com a cara virada para trás, segurando a sua inseparável “mandioca” e fazia a fanfarra:

Hoje tem espetáculo? Tem sim, sinhô.  É às sete horas da noite?  É sim, sinhô.  Hoje tem marmelada? Tem sim, sinhô… E o palhaço o que é? É ladrão de mulher…  Oh raia, oh sol, suspende a lua! Olha o palhaço no meio da rua!…
Foi o melhor palhaço que já vi. Tinha, inclusive, uma espécie de fã clube na nossa cidade, tanto os mais velhos como a petizada contavam os meses para o verão chegar e, com ele, o circo Xixarrão. A sua chegada era uma festa, enchia de felicidade aquele cantinho pacato do mundo.

Porém, naquele ano de 1963, tudo foi muito diferente; o tão esperado verão chegou, o circo também, mas o palhaço Xixarrão não era mais o astro principal da trupe, não. O já sexagenário e querido palhaço, que por tantos anos encheu de alegria, aos citadinos e campônios daquele lugar perdido nos confins do Ceará, não era mais a maior atração daquela casa de espetáculos.

Uma doença, naquele tempo, para nós, misteriosa, que atacava de vez em quando as pessoas, deixando-as aleijadas e que nós conhecíamos como “ramo”, (corruptela da palavra derrame), – hoje sabemos, trata-se de Derrame cerebral ou Acidente Vascular Cerebral (AVC), – tinha parado o nosso maior ídolo. Silenciou a grande voz, roubou nossa alegria, calou nossos sorrisos, subtraiu nossas expectativas, entristeceu nossos verões…

Xixarrão não era mais o palhaço, não pintava mais a cara, não calçava mais os sapatos bicudos, não vestia mais aquela roupa folgada, não conversava mais com a sua “mandioca”. Agora era apenas o que sobrou de toda sua alegria um homem “inutilizado”, como se dizia na época, agora, despedaçado no corpo e na alma. Não era mais o mesmo: como pintar uma boca semiaberta e repuxada para um lado? Como fazer o malabarismo com a sua inseparável “mandioca” com um braço semiparalisado e quase colado ao corpo? Como pular e fazer pirueta no palco se uma das pernas não tinha mais forças e, agora penosamente arrastada num sacrifício inimaginável?  Não, o Xixarrão — o melhor, o invencível nos seus duelos de picadeiros — foi derrotado. Agora, não passa de um aleijado, de um peso morto, de um trambolho que o circo que, por sinal, continuou usando seu nome, teima em se livrar. Em vez da graça e dos lucros que dava àquele empreendimento, transformou-se, de repente, num problemático rebotalho de gente sem nenhuma serventia, o que era o astro principal converteu-se, imediatamente, num grande problema para o dono daquela companhia circense.

E que problema! Nada mais podia fazer, acabou o seu reinado. Foi obrigado a parar. A única profissão que aprendeu na vida, não podia mais exercer. O circo do Xixarrão, não tinha mais o Xixarrão. Aquele que emprestou o nome àquela casa de espetáculos e que até bem pouco tempo era sua principal atração, agora não passava de um ancião, de um imprestável palhaço sem risos.

Seu Benoni, o proprietário do circo, queria mesmo era se livrar daquele velho “aleijado”, como passou a chamá-lo após a doença que o deixou daquele jeito. Foi fácil para todos perceberem o sofrimento por que passava aquele bondoso homem que durante tanto tempo levou alegria, somente alegria e delicadeza a quem o assistia.

Talvez por esse motivo aquela pacata cidadezinha tornara-se, a partir de então, a sua morada definitiva. Aquele bondoso povo fez cotização e quem podia dava alguma coisa: galinha, farinha, feijão… Arranjaram um cantinho onde podia armar sua redinha. E por lá ficou. Não tinha renda, pois não podia mais trabalhar, vivia da caridade alheia. Tinha como companheiros inseparáveis um cachorro, o leão e uma rouquenha rabeca da qual, mesmo com grande dificuldade, devido a inutilidade do braço sequelado, extraía verdadeiras peças do cancioneiro popular: melodias que agradavam muito aos fregueses de bares, bodegas e feira da pequenina comunidade.

Era uma pessoa popular, nada pedia, apenas tocava e esperava. Se acaso uma alma boa desse alguma moeda, ele delicadamente agradecia e se retirava com um sorriso aliviado nos lábios retorcidos. Porém, se ao contrário, nada dessem, ele agia da mesma forma, agradecia, pedia licença e saía demonstrando felicidade, com um sorriso sofrido, estampado no rosto, arrastando com sacrifício o seu corpo da melhor forma que lhe fosse possível.

Dava para perceber o seu sacrifício em movimentar aquela perna lesionada pelo “ramo”, ela parecia pesar mais do que todo o resto de seu corpo. Mas lá se ia ele claudicando, se arrastando e enxugando com um farrapo, o suor do rosto, no calor de quase 40 graus do verão cearense.

Todos gostavam dele, talvez, devido a sua leveza no trato, pois mesmo sendo um mendigo, de aparência muito feia de se ver, tinha um coração generoso e agradecido. Não era chato, muito menos pessimista. Nunca, sob nenhuma hipótese, reclamava de sua vida, de sua situação, de sua sina, de sua sorte ou da falta dela. Era um otimista. Se acaso alguém reclamasse, ele tinha pronta uma palavra de conforto e de estímulo. Dizia sempre, com a dificuldade de articular as palavras “tudo passa, nada é para sempre, isso também vai ser resolvido…”

A única coisa que o incomodava de verdade era quando alguém indagava sobre sua vida, sobre sua família, suas origens. Seu passado era um mistério absoluto, ninguém sabia sua procedência; se era casado, se tinha família: esposa, filhos, pais, irmãos, parentes, nada. Ninguém conseguia arrancar-lhe uma vírgula sobre seu passado. Se alguém o perguntava, ele se calava, olhava no fundo do olho do seu interlocutor… Seus olhos começavam a lacrimejar, baixava a cabeça, agradecia, pedia licença e se retirava cortesmente, mas sem dar uma resposta sequer. Simplesmente saía enxugando as lágrimas, mas não respondia nada. Ia embora.

Para ele, aquele dia estava perdido. Recolhia-se à sua humilde choupana de um único cômodo, constituída de uma casinha feita nas terras do Capitão Linhares, fora da cidade, construída de estacas fincadas no chão, com varas amarradas e preenchidas de barro, também conhecida como casa de taipa, coberta com palha de carnaúba.
Tive o prazer de, em companhia de meu pai, adentrar, algumas vezes, àquela morada. Constatei enternecido que ele era muito mais pobre do que eu imaginava.

Como menino, curioso que era, inventariei os seus bens: o leão, seu companheiro leal, um vira-lata simpaticíssimo, que, vigilante, dava-lhe toda atenção; uma fianga (rede de meio), suja e já se rasgando; alguns trapos pendurados em dois ganchos de forquilha que saíam da parede de taipa; uma trempe (três pedras) onde ele, quando tinha, cozinhava alguma coisa; fazia um café, ou um chá de bamburral ou marmeleiro, chás amargos, mas que, devido à facilidade de matéria-prima, fica fácil fazê-los. Bamburral e marmeleiro são matos que abundam às terras secas do interior do Ceará.

Naquele tempo, em muitas casas dos pobres sertanejos, eram aquelas infusões alimentos, que substituíam o café e, muitas vezes, as refeições; uma cadeira velha de madeira coberta com couro; dois potes de barro; uma chaleira feita de lata de óleo pajeú; uma baciinha de ágate já “chabocada” (com chaboques: marcas de tinta arrancada, normalmente provocado por queda); uma vassoura de palha de carnaúba, uma lamparina a querosene, uma garrafa de vidro, contendo um líquido amarelo, que deveria ser, exatamente, o querosene a alimentar aquela pequena fonte de luz, feita de flandres com pavio de algodão; a rabeca delicadamente pendurada, protegida por alguns trapos, dois pratinhos de barro, um “alguidar”, (espécie de bacia feita de argila); um banquinho de madeira, suportado por duas forquilhas, enfiadas no chão; uma lata de querosene jacaré, vazia que, pelo visto, era usada para trazer água do Rio Groaíras, há uns seiscentos metros de distância, um par de sapatos de palhaço e uma peruca, tudo muito velho e já bastante desgastado pelo tempo. Os sapatos já todos retorcidos e largando os solados.

A casa só tinha uma entrada, fechada com uma porta feita de talos de carnaúba, da mesma forma, era feita a janelinha que dava para os fundos da choupana, onde havia um jirau de varas, contíguo a ela, coisa comum nas casas daquele tempo em que eram lavados os pratos e as panelas, todos de barro. O jirau ficava do lado de fora, com acesso apenas através da janelinha dos fundos para que a água dali escorresse para lá e não encharcasse o piso que era apenas de chão batido.

Ele morava sozinho, dali saía para animar com sua rabequinha e seu sorriso o povo que tanto o amava.
Dona Júlia — uma bondosa senhora, já viúva e mãe de doze filhos — sempre mandava, por “Tota”, um de seus filhos, pouco do pouco que tinha para o Senhor Xixarrão, como respeitosamente o chamava. Preparava sempre um pratinho de comida e um caneco de aluar ou chibé. Outras senhoras também ajudavam: dona Maria Bastião, dona Estelita, dona Mariana… Naquele tempo, embora faltasse comida, sobrava caridade e boa vontade.

Um dia, enquanto eu varria a Igreja, vi dois homens que conduziam, como de costume, uma rede com um corpo dentro, suspensa num pau, rumo ao cemitério, corri para perguntar quem era, mas, não foi necessário, pois percebi que o único acompanhante era o leão, fiel companheiro do grande Xixarrão.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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