Qual o preço do gostar?

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Certo dia, não recordo agora precisamente qual, recebi uma comunicação especialíssima. Depois de uma boa e animada rodada de conversa, dois queridos amigos, namorados desde o engatinhar da sensibilidade recíproca, resolveram anunciar a união legal do relacionamento de décadas. Eu, testemunha do nascer, crescer e florir daquela sonhada unidade amorosa, tinha sido escolhido como o primeiro amigo a tomar conhecimento da novidade. E não só. Era também o primeiro escalado como padrinho do casamento que logo se realizaria. A escolha, segundo frase por eles resumida, decorria da constatação de que “eu era cúmplice de seus sonhos”.

 

A frase era realmente honrosa, mesmo porque não é tarefa fácil compartilhar sonhos. A partilha dos sonhos é uma empreitada destinada a poucos aos amigos. E eu, depois de ressaltada a minha condição de amigo, lembrei que realmente tinha participado dos vários momentos em que os sonhos foram gerados pelo casal. A fase da paquera, em que a atração sonha se transformar em paixão. A etapa do namoro, quando a paixão descoberta ousa revelar o amor. Os instantes de desacertos, quando o amor é concertado na esperança da durabilidade. Enfim, eu era mesmo cúmplice da união que agora se pretendia eterna.

 

É evidente que esta condição exigia uma retribuição exclusiva. E como o “bem da amizade” já era voluntariamente usufruído, pensei comprar um presente que simbolizasse este laço fictício que amarra para nunca desatar. Não era tarefa fácil, mesmo porque amizade é bem que não se acha nas prateleiras das lojas, ainda que equipadas com os melhores regalos do mundo. Ainda assim, teimoso, resolvi encarar a tarefa. Acreditava que, com paciência, encontraria um presente símbolo da nossa amizade.

 

Encurtando a busca, numa dessas viagens que a profissão me obriga a fazer, entrei em uma famosa loja que se gaba de “tudo ter”, mesmo para aquele que já “tudo tem”. Lanchas ultra-rápidas, automóveis incrementados, computadores avançados, jóias assinadas, eletrodomésticos exclusivos, roupas autografadas e bens inidentificáveis, desfilavam nos cantos e recantos artisticamente expostos. A loja parecia ser infinita, digna da ilimitada ânsia consumista da humanidade. Eram tantas as opções que ficar sem opção em mesmo uma opção plausível. E assim fiquei por um longo tempo.

 

Certamente acostumada ao impacto que a loja causava ao comprador desavisado, uma bela e elegante senhora ofereceu-me ajuda. Identificou-se como a responsável pelo departamento em que me encontrava. Educadamente, procurou saber o que eu pretendia comprar, bem assim se aceitava alguma sugestão. Olhei-a com a merecida atenção, mesmo porque realmente precisava do auxílio ofertado. Falei o que pretendia, explicando detalhadamente a simbologia do presente que deseja comprar.

 

Solícita, perguntou-me “qual o preço do presente pretendido”, pois assim melhor encontraria a solução para a minha aflição. Era uma pergunta óbvia, profissional e pertinente. O preço é, realmente, um bom abalizador para a querida busca.  No entanto, confesso, não estava preparado para esta simples indagação. Fiquei atônito, parado, apenas olhando para a gentil senhora. Não conseguia emitir o sinal mais apropriado para o questionamento. E assim fiquei por um bom tempo, até que consegui responder que procurava um presente que correspondesse “ao preço do meu gostar”.

 

O silêncio incrédulo mudou de dono. Imediatamente percebi o olhar de desagrado daquela senhora. A resposta parecia soar pernóstica e deselegante. Afinal, compreendi de chofre, que a propaganda da ausência de um limite financeiro indicava a presença de um comprador assumidamente esnobe. Disse-lhe, procurando corrigir a falha, que procurava um presente que representasse “uma amizade especial” e que, portanto, “vale o preço do gostar”, o que não se confunde com o “preço do produto”.  Comprei, depois que esclarecida a frase, o presente sugerido. Não sei se foi do agrado do casal especialíssimo, tampouco se representava o tamanho da nossa amizade. Nunca comentaram.

 

Tenho como pista que permanece vivo o “gostar” que sempre nos uniu.  E não poderia ser diferente. O “preço do gostar” pode está representado no plantar de uma flor dentro de um gélido coração, na palavra carinhosa quando o silêncio exige ser corajosamente quebrado ou até no ousado olhar num ambiente marcado pela indiferença. O “preço do gostar” pode está simbolizado no compartilhamento do alimento quando a fome reina, no dividir do único leito possuído ou, quem sabe, no perdoar quando parece ser impossível o perdão. O “preço do gostar” não tem paradigma material. Descobrir o “preço do gostar” é, enfim, mais difícil de aferir do que o custoso “preço do pagar”.  Afinal, qual é o preço do gostar?

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