Turismo: Pelas trilhas do Cangaço na divisa de SE/AL

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Piranhas (AL) – Cidade possui o Museu do Cangaço

O Nordeste brasileiro tem uma intrínseca ligação com a história do Cangaço, não somente por ter sido em suas terras que Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), sua Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e integrantes do movimento passaram suas vidas. Em Sergipe hoje vive sua única filha, Expedita Ferreira, netos e bisnetos, permanecendo com os corações bem sergipanos.

Quando 28 de julho chega, a família Ferreira, descendentes do movimento do Cangaço, pesquisadores de todo o país, estudantes e a comunidade do Baixo São Francisco e Alto Sertão convergem como num ritual para a Grota do Angico para lembrar os anos de morte do Rei do Cangaço e seus integrantes, ceifados em uma emboscada na Fazenda Angico, então pertencente ao município de Porto da Folha e hoje território de Poço Redondo (SE). Neste ano a morte de Lampião completou 79 anos de morto e quando 2018 chegar serão dois dias de homenagens devido aos 80 de falecimento.

Grota do Angico em dia de homenagem

No dia a sanfona e a música ecoam num xaxado ritmado como uma dança da chuva. Os bacamarteiros lembram os tantos tiros dados nas terras áridas do Nordeste, e a chuva se faz presente como se fosse agradecimento. A liturgia católica cantarola louvores e o cordel é o hino para celebrar.

Lampião vive na devoção do sertanejo, nas cores da moda dos grandes centros, nas histórias de pesquisadores e estudantes e nos seus seguidores por todo o Brasil e mundo. Um dos mais pesquisados e biografados brasileiro é hoje um mito.

Túmulo de Lampião e Maria Bonita

O Tô no Mundo traz neste post roteiros e dicas para conhecer locais que têm tudo a ver com o movimento do Cangaço entre os estados de Sergipe e Alagoas.

Entremontes, Piranhas e Delmiro Gouveia (AL), Canindé do São Francisco e Poço Redondo (SE) formam um conjunto de atrações que permitem intitula-los carinhosamente de Rota Turística do Cangaço. O conjunto regional de cenário de novela é real e fica entre os estados de Sergipe e Alagoas. Não é por acaso que a região chama atenção por suas belas paisagens naturais, aconchegante contato com a natureza e profissionalização do turismo, impulsionando cada vez mais o acesso aos atrativos do Baixo São Francisco em uma região onde a união entre o rio São Francisco e as belezas do bioma de caatinga historiaram o maior movimento do nordeste brasileiro, o Cangaço.

Grota do Angico em dia de homenagens

Partindo de Maceió ou de Aracaju, capitais mais próximas, a dica é resguardar, no mínimo, três dias para conhecer a região. E olhe lá! Três dias com um roteiro bem definido.

1º dia

O ponto de partida poderá ter como base as cidades de Piranhas (AL) ou Canindé do São Francisco (SE), ambas com maior infraestrutura hoteleira e de equipamentos turísticos. Há também alguns empreendimentos mais rústicos e com total contato com a natureza em Delmiro Gouveia (AL).

Sede do Monumento Natural da Grota do Angico

Partindo de Aracaju (SE), Canindé do São Francisco fica 197km da capital. O primeiro dia lhe reserva um belo passeio pelo Cânion de Xingó, formado por paredões que chegam a uma profundidade de mais de 150m.

O atracadouro avança pelas águas represadas da Hidrelétrica de Xingó e é por lá que se começa a aventura. Os turistas ficam deslumbrados com o primeiro contato com paredões, margeando as águas ora azuladas, ora esverdeadas. Tão logo passam os primeiros momentos, tem-se a visão do Lago do Justino, uma imensa represa entre formações rochosas. Avistam-se pedras esculpidas pelo tempo e logo-logo são nomeadas como Pedra do Gavião, Pedra do Japonês, até mesmo Morro dos Macacos.

Chega-se à Curva do Rio e o guia avisa que dali até a primeira usina de Paulo Afonso seria pouco mais de 45km, num percurso de 2h30, mas não é preciso seguir tanto. Ali mesmo, bem pertinho, fica o Paraíso do Talhado hoje chamado de Porto de Brogodó.

Eco Parque do Cangaço – Poço Redondo (SE)

De um lado do paraíso, o município de Delmiro Gouveia; do outro, Olho D'Água, ambos em Alagoas; mas é pelas mãos dos visionários sergipanos que este pedacinho do país enche os olhos de brasileiros e estrangeiros que lá visitam.

Embalados pelo som do mais autêntico nordestinês de Luiz Gonzaga, a embarcação aporta no píer e o banho está garantido. No retorno, a dica do primeiro dia é curtir o pôr do sol de um dos mirantes da região, a exemplo da vista do restaurante Caboclo D’Água ou das proximidades da pousada Mirante do Talhado, ambos distantes um do outro e em solo alagoano. O primeiro tem uma vista inigualável da represa da hidrelétrica de Xingó, o segundo, vê-se o percurso do rio de cima. A unanimidade é o fabuloso espetáculo do Astro Rei.

Eco Parque do Cangaço

2º dia

O segundo dia lhe reserva conhecer uma das cidades mais encantadoras do Baixo São Francisco. Piranhas é um misto de cenário de novela, história do cangaço e lendas são-franciscanas.

Visite a estação ferroviária construída em 1881, e que é uma réplica de uma estação inglesa, hoje abrigando o Museu do Cangaço. A sua frente fica a torre do relógio. O turista vai observar que passear pela cidade já é uma boa diversão.

Um ponto que não deve ser desprezado é o Mirante Secular, no restaurante Flor de Cactu’s. Caso não queira subir os mais de 300 degraus, o acesso pode ser feito de carro por uma pequena estrada de piçarra à direita antes da entrada da cidade. Saborear do pitu – maior símbolo da culinária do Baixo São Francisco hoje quase que em extinção – faz parte do roteiro. É hora de se banhar nas águas doces do rio. Piranhas possui uma extensa “prainha”, com bares à beira-rio, nada de sofisticado, mas vale à pena. Caso tenha sorte, conhecerá a famosa canoa de tolda do São Francisco, uma delas sempre fica aportada no leito do rio.

Vista do São Francisco

O barqueiro lhe aguarda para fazer um icônico passeio pelo rio até a cidadezinha de Entremontes (AL). As casinhas do povoado perfiladas e multicores, a igrejinha ao centro e muitas, mais muitas ribeirinhas sentadas à porta das casas ostentam o ofício de suas mãos manterem as tradições das avós: confeccionarem uma das mais bonitas rendas do interior de Alagoas: o redendê e o ponto de cruz.

Na porta das casas o ofício de cruzar a linha no pano é passado de geração em geração. Elas participam de uma associação de rendeiras e as rendas de Entremontes ganham o mundo. Nas próprias casas a sala é transformada em loja e os visitantes conhecem a diversidade das costuras, além de ver de perto como se fabricam.

A volta é feita novamente sobre as águas claras do Velho Chico quando se avista a cidade de Piranhas, ao longe.

Entremontes (AL)

À noite, Piranhas tem um animado centrinho embalado por forró. Vale a pena conhecer um pouco também da vida do boêmio Altemar Dutra, que morou na cidade por algum tempo e que nomeia a cachaçaria mais disputada na noite de Piranhas.

3º dia

O terceiro dia resguardará sombra e água fresca com muita história de Lampião e Maria Bonita, em visita a Grota do Angico e ao Eco Parque do Cangaço.

Ofício da renda em Entremontes (AL)

Caso esteja hospedado em Piranhas, vá até o local por barco que partem do atracadouro da cidade. Caso esteja em Canindé do São Francisco, a dica é partir pela Rota do Sertão e ir até a sede do Monumento Natural Grota do Angico.

Unir a diversidade do bioma de Caatinga com um refrescante banho no rio São Francisco é uma aventura que cada vez mais atrai turistas, ávidos por trilharem os caminhos do cangaço no sertão de Sergipe. São mais de 2.400 hectares de bioma protegido, com boa infraestrutura turística, em meio a cactáceos, pequenos arbustos, flor de mandacaru, répteis e muita história para contar. E de presente, a natureza foi generosa refrescando o final da trilha com o caudaloso banho de rio no Velho Chico, no Eco Parque do Cangaço, uma propriedade particular que alia atendimento, sombra e água fresca à beira do Velho Chico.

Cânion do São Francisco

Como chegar

Canindé do São Francisco fica distante de Aracaju 203km e há duas maneiras de chegar até lá: pelo acesso da cidade de Itabaiana ou por Nossa Senhora das Dores. As rodovias estão recuperadas e há boa sinalização. Por Itabaiana, segue-se pela BR 235 até o sentido Ribeirópolis/ Nossa Senhora da Glória. De Glória percorre-se a SE 206, passa-se por Monte Alegre de Sergipe e Poço Redondo até chegar a Canindé.

Vista da Hidrelétrica de Xingó a partir do Caboblo D'Água

Por Nossa Senhora das Dores o sentido é pela BR 101/ Norte até chegar ao acesso da Vale. Segue-se pela denominada Rota do Sertão até Nossa Senhora da Glória. Não tem errada. Há também transportes alternativos partindo do centro da cidade de Aracaju ou da rodoviária Gov. José Rolemberg Leite.

Piranhas fica a 12km de Canindé. Chegando na cidade sergipana, pega-se a SE 208, atravessa a ponte da CHESF e chega a Alagoas. A estrada é sinalizada e se percorre somente 12 km até Piranhas. Antes da entrada da cidade histórica existe a entrada que dá acesso ao Mirante Secular.
Entremontes a dica é partir da cidade de Piranhas (AL). O transporte mais utilizado é sem pestanejar o fluvial, realizado em canoas e lanchas do tipo gaiolas ou mesmo os catamarãs. A beira-rio os “lancheiros” negociam os passeios que podem ser integrado com outros pontos da Rota do Cangaço. O rodoviário também pode ser feito por estrada não pavimentada, o que não é tão interessante para quem vai a passeio.

Entardecer no restaurante Cabloco D'Água

Eco Parque do Cangaço – Partindo de Aracaju (SE), pode-se ir pela BR 235, sentido Itabaiana/ Nossa Senhora da Glória/ Canindé (Rota do Sertão). Depois de Itabaiana, segue-se pela SE 414, SE 212, e por último SE 208. Chegando na cidade de Poço Redondo, percorre-se um pouco mais no sentido Canindé do São Francisco e verá do lado direito placas indicando a estrada de piçarra que levará ao Centro de Convivência do Monumento Natural da Grota do Angico ou ao Eco Parque do Cangaço. São 13km de estrada de piçarra.

Casa de Piranhas (AL)

Um outro modal para se chegar ao Eco Parque é o fluvial, partindo de embarcações da cidade de Piranhas. É bem mais prático e rápido.

Dicas de viagem

  • Para chegar ao restaurante Caboclo D´Água o visitante terá que passar por uma guarita que dá acesso a represa de Xingó, na portaria da usina que acessa a rodovia entre Canindé e Piranhas.

  • A pousada Mirante do Talhado possui poucos chalés e é bastante procurada por turistas de aventura, pois de lá partem grupos em busca de trilhas, caminhadas e contemplação de cima dos paredões, no povoado Olho D´Água do Casado. Consulte uma agência de viagem.

  • Piranhas (AL)

    Caso queira, também poderá agendar a trilha da Grota do Angico a partir do Monumento Natural através dos telefones dos técnicos da área ambiental. O gestor interino e engenheiro florestal responsável pela área é o Elísio Marinho (79) 98846 – 6133 ou através do e-mail elisio.santosneto@semarh.se.gov.br.

  • Piranhas (AL)

    Na região também há locais de trilhas ecológicas e monumentos com formações rupestres e pequenas cachoeiras. A Fazenda Mundo Novo é uma delas.

  • A feira livre de Canindé do São Francisco, aos sábados, também não deve ser desprezada. É um bom atrativo para quem gosta de cultura popular, personagens locais e viver o cotidiano da região.

  • Caso vá até o Eco Parque do Cangaço por conta própria, paga-se um valor pela entrada no estabelecimento. Também poderá ser agendada a visita através do telefone (79) 9 9869-6428.

  • Fique atento. A falta de concorrência de atracadouros no cânion do São Francisco tem inflacionado os preços. O local é bastante agradável e a comida é rápida e fresca, porém observe o custo/benefício e dialogue com sua agência de viagem. Há várias opções de restaurantes na região e recentemente opções também de atracadouros.

Trilha para a Grota do Angico a partir do Monumento Natural 

Gastroterapia

O pitu, o surubim ou piaba seca são algumas das iguarias bastantes apreciadas na culinária com sustentação no rio São Francisco. O pitu é um camarão graúdo servido ensopado ou ao refogado tido como rei. Em determinadas regiões e períodos do ano, a pesca é proibida. O surubim, peixe apreciado no coco ou assado em filé também pode ser degustado. Mas quem combinada com uma bebida geladinha à beira-rio é a piabinha bem crocante, servida como tira-gosto ou entradinha. Nos restaurantes e bares à beira do Velho Chico a pedida é consultar o cardápio e não titubear se tiver algum desses atrativos gastronômicos. Vale a pena degustar da culinária são-franciscana.

Noite em Piranhas (AL)
Linguiça de bode
Pitu
Ensopado de surubim

Fotos: Sílvio Oliveira

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