UM FÓRUM DE PROCESSO CRIATIVO SERVE PARA QUÊ?

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Há alguns meses atrás recebi um e-mail que uma pessoa que lê os artigos que escrevo para o Portal InfoNet, e entre outras coisas me perguntou: “Qual a importância de um fórum que aborda o processo criativo? Quais os ganhos que poderei ter se participar de um evento destes?”

 

Percebi, claramente, pelo conteúdo da sua mensagem que a sua idéia inicial seria que um “fórum de processo criativo” deveria estar tratando de assuntos relativos à criatividade. Todavia, a sua inquisição era que, por sua profissão ser da área das ciências exatas; e conseqüentemente o seu trabalho não envolvia as artes, logo de que serviria para ela aprender alguma coisa sobre criatividade?

 

O engraçado que isso não é novidade. Muitas pessoas, mesmo consideradas esclarecidas infelizmente ainda pensa assim. No primeiro momento, a idéia me passou bastante absurda, mas logo em seguida percebi que na verdade a pergunta daquela pessoa me apresentava um nicho de oportunidades que não está sendo bem esclarecido quando divulgamos o Fórum Internacional de Processo Criativo, considerado, hoje em dia, como o maior evento do nosso país abordando esse tema.

 

A missão da FBC é: “Apoiar líderes sociais, educadores e empresarias visando o desenvolvimento de comunidades inovadoras e visionárias.” Se formos analisar a nossa missão poderemos constatar que o papel de apoiar líderes significa que deveremos ajuda-los a entender e utilizar o pensamento criativo como uma metodologia de pensar que poderá a transformar a sua vida de quem a utiliza em qualquer cenário de atuação que o mesmo estiver exercendo.

 

O processo de criar é uma habilidade fantástica da mente humana, que é a capacidade de traduzir as percepções e os entendimentos que estão escondidos no fundo do nosso inconsciente e levá-los para a arte, para a ciência, para a medicina, para a engenharia, em suma, para as escolas, para as universidades, empresas, pessoas, para o dia a dia de todos nós. Assim sendo, o processo criativo ocorre num contexto social, sendo portanto afetado pelo ambiente geográfico, pelas forças sociais, econômicas e políticas, pelos valores culturais e é fundamentalmente afetado pelas oportunidades geradas pelo sistema de educação e as práticas existentes na educação das crianças.

 

Em outras palavras, o que queremos dizer com isto é que estamos disponibilizando uma poderosa e possante metodologia que ajuda a transformar a qualidade do pensamento e que poderá fazer com que as pessoas que entendam verdadeiramente o seu significado, passem a aplicar esse conhecimento em suas vidas em qualquer campo de atuação que estejam participando.

 

Todavia, vale a pena ressaltar que isso não irá acontecer como se fosse um passe de mágica, há a necessidade profunda do indivíduo se entender primeiro como pessoa, perceber e “mapear” as suas atitudes impulsionadoras1 e geradoras de barreiras2 mais freqüentes e a partir desse entendimento começar a atuar no sentido de utilizar o pensamento criativo como uma ferramenta de trabalho realmente efetiva.

 

Num mundo de mudanças acentuadas onde no qual vivemos hoje, se torna cada vez mais necessário que pessoas e – conseqüentemente – as organizações sejam mais proativas e inovadoras.

 

No entanto, quando analisamos esse problema ao nível de nordeste percebemos o quanto tem sido difícil os indivíduos, instituições, organizações e empresas despertarem desse torpor letárgico que nos assola há séculos. Acredito que, principalmente, por conta da educação e cultura nordestinas a maioria de nós (nordestinos) tende a orientar os nossos pensamentos apenas para a questão da sobrevivência. Segundo nosso entendimento ainda existe disseminada entre nós a cultura do fatalismo e por estes motivos muitos vão construindo o seu futuro, na maioria das vezes, sem muitas esperanças.

 

Não é por acaso que o nosso Nordeste anda “emperrado” há séculos, a maioria do povo nordestino acredita que tudo que de ruim lhe acontece é porque “Deus assim quis”, a maioria das escolas faz os jovens acreditarem que precisam apenas aprender a riscar quadradinhos certos para passar no vestibular e quando tiverem um “diploma a sua vida irá mudar. Volta e meia nos pegamos focados no ciclo da sobrevivência (escassez, competição, controle, repetição e sobrevivência) porque o nosso aprendizado desde a infância está centrado nesses condicionantes. Há alternativas de solução plausíveis? Claro que há, à medida que optamos por resgatar o nosso potencial criativo e passamos a trabalhar orientados pela “espiral criativa” â cujos elementos fundamentais são fartura, colaboração criativa, risco/aventura, possibilidades e criatividade (pensamento criativo).

 

No que tange à educação, infelizmente continuamos falando, pensando e agindo, como se estivéssemos nos anos 50, quando as pessoas faziam uma faculdade, colocavam um anel no dedo, apresentavam um bom currículo e todas as portas se abriam. Hoje, a situação, infelizmente, é diferente, já não se dá tanto valor aos anéis e os jovens que apenas tiram boas notas quando terminam a faculdade ficam a ver navios, porque passaram a maior parte das suas vidas sendo “treinados” e não educados para a vida. Ainda são poucas as escolas que estimulam o verdadeiro desenvolvimento dos seus alunos. A maioria delas, mesmo famosas, ainda pratica velhos métodos, sem encantamento e sem magia, voltadas para o passado, apenas enfatizando a reprodução do conhecimento e o estoque de dados. Assim sendo, sentados em fileiras nas salas de aula os alunos ouvem os professores que reproduzem conhecimento, os avaliam apenas com respostas únicas e não permitem ou estimular a pensar verdadeiramente ou buscar outras alternativas e como conseqüência apenas sabem trabalhar com o pensamento convergente.

 

Em resumo os jovens não são ensinados a pensar, a imaginar, a buscar soluções alternativas para os problemas que encontram na vida e sobretudo a se prepararem verdadeiramente para a vida.

 

Cada vez mais constatamos que uma quantidade enorme de jovens que saem das universidades e vão disputar os mais variados concursos, muitas deles fora das suas áreas de especialização.

 

E cada vez mais pessoas são substituídas por máquinas. Isso parece impiedoso, mas as máquinas foram criadas para executar tarefas e as pessoas para pensarem; portanto cada vez mais o trabalho das pessoas no mundo organizacional se destina a tarefas mais nobres que exigem uma qualidade de pensamento desenvolvida, que exigem saber resolver problemas de maneira criativa, e principalmente saber encontrar soluções diversas para os mesmos problemas do dia a dia.

 

Transformar idéias em resultados dá muito trabalho, muito mais do que a maioria das pessoas imagina. Pesquisadores que estudam potencial humano afirmam que é preciso 5%¨de inspiração para 95% de transpiração. Hoje em dia, gerar idéias inovadoras é uma necessidade fundamental em todas as organizações, pois a competitividade é grande, a evolução dos processos é rápida e o público está cada vez mais exigente. Portanto, em qualquer área de atividade que estivermos exercendo, gerar muitas idéias e depois saber escolher as melhores opções para por em prática é um trabalho que pode ser considerado um diferencial de competência sem precedentes.

 

Logo, aprender a utilizar o pensamento divergente3, a aplicar ferramentas e técnicas apropriadas é sem dúvida alguma um dos muitos caminhos que poderão nos levar a ampliar o repertório de idéias e que poderá ser a base para o desenvolvimento de novos produtos, processos ou sistemas.

 

O passo seguinte será trabalhar com o pensamento convergente4 que tem por finalidade escolher aquela ou aquelas idéias que resultem em resultados efetivos e que possam realmente dar um salto qualitativo no processo.

 

Assim sendo, falando-se no mundo das organizações é importante além de se ter um ambiente propício à geração de idéias, também ter uma equipe diversificada5 a qual poderá ajudar a enxergar os mais diferentes aspectos, os mais diferentes ângulos de um mesmo problema e também poderá chegar a várias soluções que deverão, finalmente, convergir para uma, ou englobar várias em uma solução que realmente seja um diferencial.

 

Todavia, vale a pena salientar que poderá haver riscos ou erros nessa jornada, mas em acontecendo deverão ser absorvidos e estimulados o atitudinal para a geração de novos processos.

 

Na verdade o que se deseja é que as idéias geradas possam ser transformadas em soluções de negócios que sejam relevantes e que estimulem a criatividade como uma parte importante do seu foco estratégico.

 

Finalmente, é importante compreender que um estoque de boas idéias, seja em que cenário for poderá permitir que sejam encontradas soluções diversificadas, novos produtos, alternativas inusitadas e resultados efetivos. Na verdade o que precisa ser entendido é que cada indivíduo, produto, ou serviço que está sendo disponibilizado precisa ser visto como algo necessário e desejado por aqueles que estão a sua procura.

 

Finalmente, muito do que aqui foi escrito e muitas outras coisas e oportunidades importantes serão abordadas na sétima edição do Fórum Internacional de Processo Criativo. Estar presente a ele ou ausente é um direito que você tem; mas saber o que perdeu por não estar lá e aproveitar o que poderia ter aprendido, só  a vida lhe dirá.

 

1 Impulsionadoras são aquelas que fazem com que o indivíduo entre no “campo de luta”.

2 Geradoras de barreiras são as atitudes de impedem ou bloqueiam o indivíduo impedindo-o de entrar no “campo de luta”, de sair da sua zona de conforto, de utilizar a sua criatividade.

3 Pensamento divergente: atitudes necessárias: adiar o julgamento, buscar muitas opções, pegar carona, explorar opções inusitadas e buscar a quantidade (Viana, F – A Espiral Criativa. 2003).

4 Pensamento convergente: atitudes -> escolher as melhores, ser afirmativo, não perder a originalidade, checar o objetivo e procurar qualidade.

5 Diversificada: diferentes visões, pontos de vista e formações culturais diferentes.

 

* Fernando Viana é diretor presidente da Fundação Brasil Criativo
presidente@fbcriativo.org.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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