Uma história de criança

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– Mããããããeeeeeee, os piratas tomaram meu tesouro!! – o grito partiu do quintal e ecoou por toda a casa, como se fora o anúncio mesmo do fim do mundo.

Ela assustou-se um pouco do silêncio rompido pelo grito estridente, mas só levantou os olhos da costura e mirou a pequenina criatura no quintal com sua espada samurai e sua roupa de princesa a defender o reino encantado dos piratas e dos dragões. Sorriu sem poder entrar no mundo encantado. Contemplou através das brumas de sonho todo o mundo mágico construído em seu próprio quintal, que até poucas horas atrás era só um amontoado de folhas secas, duas árvores e terra úmida.

– Vai atrás deles, princesa. Sei que você vai conseguir recuperar seu tesouro – o amor em delírio.

– Mas, mãe, eu não tenho sapatos mágicos! – para uma menina de cinco anos era muito difícil vencer piratas sem as botas vermelhas mágicas.

– Bom, eu também não tenho, filha. Mas eu sei que você consegue! – sorriu, incentivando-a para ir à batalha mais importante de todas. E voltou para a costura, trac trac trac com a máquina.

A princesa mágica guerreira olhou ao redor tentando encontrar no seu reino encantado, que crescia como uma mangueira no quintal, uma forma de recuperar o tesouro para entregar à rainha mamãe costureira. Era um bauzinho tão lindo de madeira com desenhos coloridos feitos à mão pela sua avó rainha em que ela guardara o tesouro que iria dar à sua mãe. E, naquela manhã, quando ela foi desenterrar seu tesouro mágico viu que o pirata menino da casa vizinha tinha-lhe pilhado tudo: o bauzinho, o vidrinho de borboletas mortas e a caixinha de besouros coloridos, e ainda levou umas mangas também.

Ele provavelmente a vira enterrar todos os tesouros no dia anterior, enquanto ainda eram pássaros dançarinos na corte da rainha. Foram os pássaros mesmo quem tinham coletado a maior parte dos tesouros que seriam entregues à rainha mamãe, o besouro azul, a folha marrom com um monte de desenhinhos bonitos, a semente vermelha e a borboleta lilás. Só o bordadinho que era presente só dela, embora a rainha vovó a tenha ajudado, fora ela mesma quem bordara um desenhinho que queria ser um coração vermelho.

No fundo, a princesa guerreira do Reino Encantado do Quintal Mágico sabia que só poderia recuperar seu tesouro se passasse pelos dragões e encontrasse a passagem secreta no fim do reino. Mas os dragões estavam especialmente agitados naquele dia, cacarejando um monte, e a passagem secreta era bem escondida no muro e tinha espinhos e lama, ela tinha medo de machucar os pés. Por isso precisava das botas vermelhas, porque os dragões ela poderia espantar com sua espada de madeira.

– Mamãe, por favor, deixa eu pegar as botas vermelhas – estava parada na porta com olhar pidão e tentando arrumar a capa de super-heroína que se enrolava em suas pernas.

– Filha, as botas não são pra brincar no quintal, você vai sujá-las! São seus únicos sapatinhos de sair, não pode estragar assim, meu amor.

– Mas mãe… – choramingou sem muita esperança ao perceber que a mãe não queria participar com ela de seu mundo de devaneio e sonhos.

– Você já sabe qual é a resposta, filha! – disse séria para encerrar a conversa e voltou ao seu trac trac trac.

A menina fez bico e voltou emburrada para o quintal. Sem sapatos mágicos seria impossível! Foram um presente do papai rei, que agora morava em um reino muito muito distante e só muito às vezes aparecia. Eram sapatos muito mágicos, ele mesmo dissera na cartinha que mandou com desenhos junto da caixa que o moço dos correios entregou. Eles seriam muito importantes para recuperar o tesouro da mamãe, mas no fundo do coração sabia que as botinhas iam ficar bem tristes de ir pra lama, passar por espinhos… Precisava de um plano alternativo para vencer os piratas.

Voltou para o castelo da rainha.

– Mamãe, posso pegar esses retalhos aqui? Os vermelhos com desenho de flor?

– Pode, não vou precisar – nem se desligou da máquina, abstraída no trac trac trac.

– Obrigada, senhora rainha – saiu saltitante com os pedaços de pano na mão e nem reparou no sorriso da mãe por detrás da máquina.

Voltou para o reino e rapidamente confeccionou seus próprios sapatos mágicos coloridos. Amarrou os retalhos como pôde e se lançou na feroz aventura. Abriu com cuidado a porta do galinheiro onde habitavam os dragões e os espantou com palavras mágicas e brandindo sua espada.

– Xô, galinha, xô – a capa de super-heróina arrastando na lama e os pézinhos protegidos por retalhos de cetim.

No muro que separava sua casa da morada do pirata, havia um portal secreto que só eles conheciam, era pequeno e escondido por plantas espinhosas. Parou em frente ao buraco no muro, sabia que dali pra frente teria que deixar a capa e a espada, mas teria os sapatos ao menos. Pendurou a capa nos arbustos e escondeu a espada, respirou fundo, tomou coragem e se meteu por entre os espinhos agachada, com os pés chapinhando na lama. Arranhou um pouco o braço, mas nem chorou, e já estava em terreno inimigo.

O pirata estava com seus carrinhos, provavelmente despojos de outra guerra, embaixo da árvore.

– Eu vim buscar minha arca de tesouros – disse firme e resoluta como cabe a uma princesa, mesmo em reino inimigo.

– Eu não peguei nada, sua boba – sem encará-la, continuou brincando com os carrinhos, disfarçando a contrariedade.

– Pois eu sei que pegou sim, porque só você sabia onde eu tinha escondido – era quase raiva, mas ainda era força. E ao final capitulou um pouquinho e fez bico – São um presente pra minha mãe, você tem que devolver.

Ele finalmente levantou os olhos para ela e analisou a verdade daquelas palavras em seu rosto. Ela parecia grave, embora de alguma forma, serena. Era um pirata de coração bom. Levantou-se sem dizer palavra e foi ao seu reino. Voltou com o bauzinho na mão.

– Toma, mas só porque é pra sua mãe, viu?! Porque eu sou um pirata bom! – Visivelmente contrariado, estendeu a caixa pra ela. – Toma, coloca um carrinho vermelho pra ela também. Você acha que ela vai gostar?

– Acho que sim, ela gosta de vermelhos – sorriu da sua conquista. – Você viu meus sapatos mágicos? Eles estão meio sujos agora…

– São bonitos mesmo assim.

– Obrigada. Vou levar pra minha mãe o tesouro. A gente pode brincar depois da escola, tá?

– Tá bom. Diz pra ela que o carrinho foi presente do pirata, viu?!

– Pode deixar.

Saiu pela porta da frente, porque já era quase hora da escola e seria difícil demais passar pelo muro com o bauzinho na mão sem sujá-lo todo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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