“O movimento negro sergipano nas campanhas eleitorais”, por Paulo Santos Dantas

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No período das campanhas para prefeito e vereadores do ano 2000, vimos, em Sergipe, uma nova forma de ação dos movimentos sociais junto aos chamados partidos progressistas. Tradicionalmente presentes nas campanhas eleitorais, esses movimentos sociais tiveram tanto uma participação importante na conquista histórica da Prefeitura de Aracaju, como vieram a ocupar cargos na sua estrutura. Além disto, a coligação formada pelo PT e pelo PC do B também elegeu quatro vereadores para a câmara municipal da capital sergipana. Naquelas campanhas, os movimentos sociais negros desenvolveram uma tática diferenciada de outros momentos: estimularam a filiação de um número razoável de militantes negros e negras a partidos políticos, especialmente ao PT. Outros setores da militância negra preferiram ficar um pouco às margens desse processo, vindo a contribuir com candidatos junto aos quais mantinham alguma proximidade. Nas campanhas de 2002 estes últimos setores decidiram tomar o caminho da filiação partidária, mas agora junto ao PC do B, aos partidos de “centro-esquerda” e mesmo da “direita”. Discutirei o contexto dos investimentos políticos de militantes negros em partidos “de direita” num outro artigo. Embora alguns setores dos movimentos sociais não-negros viessem integrar o programa de participação e de políticas da administração do prefeito Marcelo Déda, com os movimentos negros sergipanos a lógica das posturas do poder municipal se diferenciou bastante da importância dada aos demais segmentos. De qualquer modo, o governo municipal tem sido enfático no que diz respeito à questão sócio-racial: a participação dos negros está contemplada no poder público! Contudo, do ponto de vista dos movimentos negros, a administração petista decepcionou, pois não promoveu uma participação igualitária desses agentes na estrutura do seu programa. O momento da visita do Secretário Nacional de Combate ao Racismo do PT, Martvs das Chagas, no último dia nove, proporcionou uma visão nítida da postura da Prefeitura de Aracaju em relação às políticas de igualdade racial. Entusiasmado com a ilustre visita daquele secretário, o vice-prefeito Edvaldo Nogueira (PC do B) destacou que o governo municipal está aberto para discutir políticas que promovam a igualdade sócio-racial na capital sergipana. Nogueira demonstrou tal abertura apresentando um secretariado de pessoas negras no primeiro escalão do poder, a saber: Conceição Vieira, na Assistência, Promoção Social e Combate à Pobreza; Gilson Souza, na Comunicação; Osvaldo Nascimento, na Ensurb; e Rosângela Santana, na Educação. Como não dizer que há participação de homens e mulheres negros(as) na administração petista do município de Aracaju? É evidente a sua presença. Além disto, em alguns desses espaços também houve uma inserção indireta de indivíduos negros no seu quadro. O vice-prefeito podia ter reivindicado, inclusive, sua ascendência negra naquele momento, como o fez em outras ocasiões de debates raciais. Esse discurso poderia ter o peso simbólico de um troféu. O fato de ter resistido a esta tentação me impressionou. A contradição entre as interpretações do governo municipal e aquelas dos movimentos negros locais parece anunciar um duelo maniqueísta, cujo sentido mostraria que um desses atores políticos se justifica com pretextos, enquanto o outro reivindica justiça social e política; ou que um deles foge pelas “portas dos fundos” do poder, enquanto o outro estaria sempre pronto para contribuir com as futuras conquistas, independente do programa político. Esta dubiedade parece simplista. Não há um equívoco da administração municipal em apresentar seu quadro de secretários negros e de orgulhar-se disso. Então, qual o sentido dessas contradições? A lógica dos investimentos do PT em Sergipe, ainda um tanto conservador e desinformado do curso que as questões sócio-raciais tem ganhado no Brasil, difere em dimensão e perspectiva daquelas pretendidas pelos movimentos negros locais nos seguintes aspectos. No primeiro, as pessoas que formam o chamado secretariado negro ocuparam tais espaços não pela sua inserção no campo das lutas promovidas pelos movimentos negros locais, mas pelas “tendências” que integram junto ao PT. Nestes termos, a retórica do vice-prefeito parece oportunista, na medida em que reivindica o status “politicamente correto” das cotas. Depois, a maior parte da militância negra inserida naquele partido não integra qualquer uma das “tendências” internas, como também não domina a lógica das relações no meio político-partidário. Neste sentido, o secretariado negro articula antes de tudo os “jogos” dos interesses das “tendências” de que fazem parte. Não raro, isto também pode implicar numa oposição aos investimentos dos movimentos negros. Isto nada tem a ver com “traição” dos próprios negros, mas com a harmonia dos investimentos que justificam a indicação daquelas pessoas e não de outras pretendidas pelo movimento negro. E uma vez que os militantes negros “históricos” que integram o PT não investiram na disputa por status e legitimidade partidários, no momento das pressões políticas para exigirem o que julgaram ser “de direito”, o poder público municipal soube justificar suas preferências, uma vez que aprendeu a duras penas com os seus adversários da “direita”. * Paulo Santos Dantas é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe e mestrando em Sociologia da Universidade Federal da Bahia. A InfoNet não se responsabiliza pelas opiniões dos internautas aqui publicadas e abre espaço, da mesma maneira, para publicação de outras opiniões.

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