Joaquim Antônio: um versátil produtor e defensor da cultura popular sergipana

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Mesclando a cultura popular com a erudita, o cantor e compositor Joaquim Antônio, é produtor e divulgador de um trabalho musical voltado para temas regionais, cantorias e poesias populares. Adepto e defensor do reisado, Antônio foi o idealizador do Projeto Cantorias, Versos e Viola e diz que gosta do desafio de compor para peças teatrais. Preservador da valorosa música brasileira regional, empenha-se em produzir um trabalho genuinamente sergipano e, nesta entrevista, critica a atuação do que chamou de ‘secretários de Festa’ em detrimento dos verdadeiros ‘secretários de Cultura’.

 

 

PORTAL INFONET: Sua formação passou pelo popular e pelo erudito, como foi o início?

JOAQUIM ANTÔNIO: Eu sou mato-grossense, de Cuiabá, mas comecei a trabalhar com música em Aracaju em 1990. Eu sempre trabalhei muito com cantoria, depois estudei violão com o professor Alvino Argolo, dando continuidade com o músico Muskito, com quem estudei harmonia e formei uma dupla que durou mais ou menos cinco ou seis anos fazendo duetos de violão, sempre trabalhando a questão da cantoria. Eu gosto muito do erudito com o popular, o som do violino com o acordeom, flautas etc, é muito bonito.

 

INFONET: O folclore e o resgate da cultura popular também passaram a fazer parte de seu trabalho. A partir de quando isso aconteceu?

JA: Isso ficou mais forte a partir de 2000. Por uma mudança normal da vida da gente, eu resolvi trabalhar com o resgate da cultura popular, das manifestações folclóricas, e comecei a montar um trabalho com base nos ritmos da cultura popular brasileira, da chegança, do reisado etc. Com esta proposta, a gente montou um grupo de forró, o Casaca de Couro (1998), que é parte deste trabalho de resgate, e é pautado na obra de Jackson do Pandeiro, inclusive, Casaca de Couro é uma música que fez muito sucesso na voz desse artista.

 

INFONET: Por que Jackson do Pandeiro?

JA: A gente viu que o Luiz Gonzaga, que é um ícone do forró brasileiro, já é muito estudado, então, resolveu estudar também o Jackson do Pandeiro. Eu continuo com meu trabalho solo, que é o Joaquim Antônio e o Grupo Ciranda, desde 2001, que é um pessoal que me acompanha na questão do trabalho de ritmos, da fusão de instrumentos populares e eruditos. Este trabalho será lançado em CD depois do São João, chama-se Estrada da Quitanda.

 

INFONET: A proposta do Casaca de Couro é divulgar a cultura popular?

JA: O Casaca de Couro nasceu dessa preocupação de a gente estar vendo o crescimento do forró elétrico, esse lambadão. A gente achou que deveria batalhar também pela nossa cultura, dentro desta perspectiva do que é e do que não é forró. A gente começou com uma pesquisa, na obra de Jackson do Pandeiro, que é um autêntico cantador de coco e de forró. Havia quatro componentes, no início, hoje nós temos 11. A gente senta, estuda, vê qual a linha de trabalho que precisa restaurar, recuperar. O Casaca de Couro é um trabalho regional, autêntico, com acordeom, com violão de marcação, lá eu toco acordeom, violão e faço voz também. Ano passado, lançamos nosso primeiro CD, o Você quer forró, tome!, foi muito legal.

 

INFONET: Como tem sido a resposta do público?

JA: Muito positiva, graças a Deus, mas é preciso observar, por exemplo, que a gente canta um coco de Jackson do Pandeiro e os mais jovens pensam que é uma música nova, quando ela é da década de 50, 60 ou 70. Todo mundo pensa que é uma música nova, quando, na verdade, a gente só está dando uma outra roupagem mais regional a este trabalho.

 

INFONET: De que forma você se apaixonou pelo reisado?

JA: Em 1998 ou 1999, eu comecei a brincar o reisado no Grupo Marimbondo, do mestre Sabal, de Pirambu. Comecei a tomar gosto pela coisa e a ver a luta deles, as dificuldades e resolvi também levantar esta bandeira, coloquei até o violão no reisado etc. Em agosto, agora, a gente iria para a cidade de Olímpia, em São Paulo, onde vai ocorrer o Festival Nacional do Folclore, mas a prefeitura de Pirambu não deu o transporte. Nós já tínhamos conseguido tudo e iríamos mostrar nosso folclore lá em São Paulo, mas não vai dar. É uma pena! Eu acho que você tem que fazer as festas, mas é necessário também priorizar a cultura popular de sua cidade. Não adianta promover o lambadão, o pagodão, se você está matando a manifestação folclórica local, é o que está acontecendo em Pirambu.

 

INFONET: Como ocorre o processo de composição de um trabalho?

JA: Eu gosto de desafios e de receber uma proposta para um determinado trabalho, então eu sento, leio o material e componho. Por exemplo, eu passei duas semanas compondo para o CD que vou lançar depois do São João. Quando vou trabalhar para teatro, o pessoal me dá o material para eu ler e depois montar as peças. Eu não ando compondo olhando para vento etc, não, eu sempre penso assim, vou compor uma música para fulano, para fulana etc, sento e faço a música, que será sempre voltada para alguma coisa que vai acontecer. Compus também para duas peças de teatro, o Auto do Menino Deus, para o Natal, que aconteceu no mercado, e um outro trabalho, a Viagem do Baleiro, do qual eu fiz a trilha sonora, tudo pautado na manifestação folclórica.

 

INFONET: Gravar o jingle para a InfoNet foi um desses desafios?

JA: Com certeza. Eu fico muito contente em poder contribuir com o Portal InfoNet e sua equipe, já que é um pessoal de primeira. O portal cresceu muito com todo esse movimento cultural aqui em Sergipe e está à frente dessas manifestações, principalmente na cobertura dos eventos, sempre dando apoio. Espero que o jingle esteja legal e agrade a todos os internautas do portal.

 

INFONET: Como está o próximo CD que será lançado com o Grupo Ciranda?

JA: Eu pretendo lançar em agosto, que é o mês do folclore. O CD se chama Estrada da Quitanda e traz marcha folclórica, xote, baião, embolada com blues, coco, ciranda, cantoria, boi do Maranhão, samba de roda com São Gonçalo etc. Esta última mistura foi a música que me deu o prêmio Sescanção 2004. Este ano, eu fiz uma mesclando a semi-embolada, baião e arranjo de blues, tudo misturado, mas sem metalizar meu trabalho, ou seja, sem efeitos de guitarra etc. Prefiro o som do acordeom, violino, flauta e gaita, porque a gente precisa saber o que é um trabalho sergipano e um pernambucano, por exemplo.

 

INFONET: Como as pessoas podem perceber esta diferença?

JA: Se eu compuser uma música e colocar o maracatu e a batida de uma guitarra, eu não estarei fazendo um trabalho sergipano, mas um trabalho que já existe um Pernambuco. A gente pode pegar em Sergipe e fazer um trabalho sem que pareça com o trabalho desenvolvido em outros Estados, inovar é sempre necessário. O Kleber melo, por exemplo, faz um trabalho nesta linha, diferente, ou seja, um produto sergipano. O Maria Escombona também faz um rock regional que é uma coisa diferente. A música sergipana cresceu muito e a gente está também tentando contribuir para um produto original, genuinamente nosso. No meu CD, o ouvinte vai perceber o que é um trabalho original, de Sergipe, eu procurei explorar o nosso produto, aproveitando nossas coisas. Como gosto muito do erudito com o popular, eu tenho uma música mesmo que tem um violoncelo, uma viola de 12 cordas, e um acordeom, é uma coisa muito interessante de se ouvir. Neste trabalho, a gente encontra dois cocos, três ou quatro marchas, dois xotes, baião e forró.

 

INFONET: Nomes nacionais influenciam seu trabalho até hoje, quais são eles?

JA: Quando aprendia violão, a minha influência vinha de Pena Branca e Xavantinho, Almir Sater, Sérgio Reis etc. A partir de 90, comecei a trabalhar a parte de cantoria, com Vital Farias, Elomar, do Xangai, Geraldo Azevedo, passando por Zé Ramalho, Elba Ramalho, e fui ampliando este leque, pois, quanto mais se estuda, mais a gente descobre coisa legal. No meu trabalho hoje, eu tenho a influência deste pessoal, agora, eu coloco tudo dentro do liquidificador e sai uma coisa totalmente diferente.

 

INFONET: Você acredita que o forró elétrico vai sucumbir o forró tradicional, o pé-de-serra?

JA: Não, não acredito. Creio que isso passa muito pela falta de cultura de alguns secretários de cultura. Nós temos ‘secretário de festa’ e ‘secretário de cultura’. O segundo sabe trabalhar a questão do lambadão, do forrozão, e sabe colocar também o trios pé-de-serra, as manifestações folclóricas, trabalhando de uma forma harmônica, dando espaço a todos. Já o primeiro só quer fazer política o tempo inteiro e coloca o pessoal do arrocha e do lambadão com o objetivo de atrair o público. Até um detalhe é interessante: é muito difícil ver uma briga num forró que tenha um Erivaldo de Carira, um Jailson do Acordenon etc. Já nos forrozões, o que mais se vê é facada, tumulto, ou seja, este pessoal não curte muito a questão do ritmo, da cultura. Agora, como diz Lizete Feitosa, do Casaca de Couro, todo mundo tem seu espaço, mas depende muito de quem contrata. Nossa mídia, nossas rádios, por exemplo, não tocam o forró sergipano, elas tocam muito mais os lambadões. Há produtores que trazem para o nosso forró Zezé di Camargo e Luciano, Lairton e Seus Teclados, artistas que não têm nada a ver com São João. Os secretários deveriam ler mais para aprender, viajar mais para saber destas questões, conhecer a nossa cultura. Quer fazer forró, então vamos chamar um Adelmário Coelho, um Jorge de Altinho, Elba Ramalho, os artistas sergipanos que estão precisando trabalhar. É só uma questão de cultura e bom senso.

 

INFONET: Quando o Casaca de Couro se apresenta no ForróCaju?

JA: Nós vamos nos apresentar dia 21 de junho a partir das 23h, eu espero que o público compareça para prestigiar nosso trabalho, que é 100% sergipano!

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