Orfeu estilhaçado (I) – em homenagem a Santo Sousa – por Gustavo Aragão

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                            I

 

 

                              

                                                  Ao ilustre poeta Santo Souza

 

Ser que na plácida luz divinal habita.

Embalsamado de mistérios inefáveis.

faz brotar música e luz

da sua lira apolínea bendita,

que irrompe docemente a alma dos pássaros

e dos animais aflitos de medos.

Faz a natureza viva curvar-se majestosamente

para apanhar no ar sons líricos e benéficos,

que a aragem mensageira leva

ao bel prazer do acaso.

 

Ó Ser, que enlaçado pelo amor da bela Eurídice,

ludibriado e triste ao vê-la no esteio da morte,

compadece-se. E imbuído de uma coragem suprema

transbordando de sorte plena,

desce com a sua lira a tiracolo ao vale dos mortos

em busca da bela Eurídice boba e grave.

Ao dedilhar com seus dedos convulsos a lira, pungi

sentimentos florais de pungente fisionomia

E assim navega, com o auxílio de Caronte,

em lua soberana pelo funesto rio Estige. 

Eis que avistam os ignotos portões, que acessam

ao trono de Hades, todavia vigiados pelo atroz cão tricefálico; Cérbero.

Em notas aladas e soporíferas, a lira o adormece e alivia os tormentos

dos condenados soturnos. A música jorra intermitentemente das suas cordas imarcescíveis.

É chegada a hora de embater-se com os olhos fúnebres do tenebroso Hades, rei dos mortos,

que em procelas se inflama por defrontar-se com uma imagem viva,

mas que ao ser penetrado pela angustiosa música órfica se dissolve em lágrimas férreas.

Perséfone, mulher de Hades, tentada pela luz o implora para que ele possa atender ao pedido do melodioso Ser. E assim ele o faz enternecido ao ouvir a doce canção.

Disse ele em tom imperioso:

– Eurídice voltará ao mundo dos vivos, porém vós jamais podereis olhar para ela até que ela esteja sob a luz solar.

Parte jocoso pela senda escarpada, que o leva para fora do abismo profundo, do necrocosmo.

Toca a lira, agora, os acordes felizes da celebração, enquanto se encaminham para o mundo flamejante das luzes benignas, a fim de guiar a fantasmagórica Eurídice às alamedas da vida.

Em se faltando uma nesga para a saída do túnel infernal, Orfeu vacilante olha para trás…

Enquanto fita sua amada assombrado, ela se invisibiliza

e se esvai feito um bafejo taciturno no fim do túnel escuro da morte.

Orfeu torna-se um ser cinéreo pelo desespero, que assolou sua alma, e

em fel se banha por perder a sua estrela dissipada para nunca mais.

 

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