Zé Américo segue no embalo do pé-de-serra

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O palco Gerson Filho, do Forró Caju, revela ao público, a cada ano, música de qualidade através de artistas sergipanos. Entre eles está o sanfoneiro Zé Américo de Campo do Brito, que nasceu neste município e se aventurou na vida da grande São Paulo, mas não resistiu à sua vocação de forrozeiro e retornou para presentear Sergipe com seu autêntico forró pé-de-serra. “Me leve nesse embalo com você/ sozinho eu não fico aqui no sul/ eu tenho sangue de nordestino/ quero conhecer de perto o forró de Aracaju”. É no embalo da música do amigo Edgard do Acordeon, que Zé Américo de Campo do Brito fala de sua vida, do repertório do novo CD e da paciência em ver seu trabalho reconhecido. Confira entrevista com um dos melhores nomes do forró sergipano: PORTAL INFONET – Quando você começou a se interessar por música? ZÉ AMÉRICO – Eu era menino, trabalhava na roça e sempre dizia a meu pai que um dia eu queria ser cantor de forró. Então comecei a criar uns animais, juntei umas quartas de farinha, milho, algodão, vendi tudo e comprei uma sanfona. Aí fui aprendendo a tocar e recebi um convite pra tocar num leilão de uma pessoa conhecida na Catinga Redonda, em Campo do Brito, onde nasci, próximo à serra da Miaba. Com 13 anos eu aprendi a bulinar na sanfona. Com 17 fui para São Paulo, mas lá parei de tocar porque era só trabalho. Trabalhei como balconista, fiz escola para bar men, fui ajudante de cozinha e me especializei em garçon. Trabalhei como garçon muito tempo, depois cismei de ser motorista de ônibus e entrei numa escola para isso. Batalhei, batalhei e entrei na melhor empresa de ônibus de São Paulo. Em 1981, regressei a Aracaju, montei um pequeno comércio na avenida 7 de Setembro e me deu vontade de voltar a tocar, então comprei um teclado. Comecei a bulinar no teclado e fui tocar seresta nos hotéis, restaurantes, nas cidades do interior. INFONET – Como você decidiu voltar a tocar sanfona? ZA – Eu nasci pra cantar, quando eu era menino cantava para os doentes ficarem melhor. O pessoal da família queria ir pra festa e tinha que deixar um tio dormindo e dizia: ‘chame Zé que tio Ramiro não quer dormir, mas ele canta e tio Ramiro dorme e a gente fica tranqüilo na festa’. Eu cantava raspando mandioca, fazendo farinha, beiju. Na feira eu cantava para atrair as pessoas a comprarem os produtos e ouvir minha cantoria. Certa vez eu estava no município de Glória tocando teclado numa festa, tinha um rapaz com o violão, cantando, a praça cheia e tinham uns homens admirando o trabalho e um comentou: ‘o tecladista é muito bom’, aí o outro disse: ‘não, os teclados de hoje trabalham quase sozinhos, ele só tá…’, o cara nem soube o que dizer e eu nem sei o que ele queria dizer. Com isso, eu me aborreci porque tenho um problema de pavio curto. Um cabra que nasceu na enxada, com os pés cortados do brejo, quebrando espiga de milho no sol quente, colhendo fava. Sei que me aborreci, vendi o teclado, comprei uma sanfona, em 1990, porque já tinha vendido a primeira pra morar em São Paulo e recomecei tudo. Muita gente me chamava de louco, como até hoje, porque pego minha sanfona e vou para a porta do mercado. INFONET – Você tem amigos que são forrozeiros reconhecidos… ZA –Tenho meu padrinho, Erivaldo de Carira, tenho Edgar do Acordeon, Luís Paulo, Ismar Barreto, que é um ídolo na composição de músicas e tenho uma música dele que deu nome ao meu novo CD, a Velha Casa de Farinha. Quando eu tocava no bar do Xaxado, aqui no mercado, encontrei outras pessoas que me apóiam também, divulgam meu trabalho, como Fernando Cabral, Valadão, Chico Melodia, Clemilda, Meloso, Dantas Mendes, agora vocês e tantos outros profissionais de imprensa. A mídia vai com minha cara. INFONET – Que repertório o CD A Velha Casa de Farinha oferece? ZA –Nos meus dois CDs, quase todas as músicas são de compositores sergipanos e, o próximo, pretendo gravar só com compositores sergipanos. A música mais tocada é Devaneios Ardentes, minha e de Jorge Canecão. Eu também componho, com ajuda de um grande compositor, eu dou a pista e ele enriquece a música. No meu novo CD tem também uma música de Luís Fontineli, que foi vencedora do festival de Maringá – PR, uma música linda chamada Fauna. Nesse CD, canto também com Erivaldo de Carira e João da Passarada. Mas a música que tem a cara de Zé Américo é a de Edgard do Acordeon, Forrozando em Aracaju. É uma música linda e gosto de cantar essa, principalmente, porque foi ela que me classificou para as finais da gravação de uma coletânea em CD de forró pé-de-serra, realizada, ano passado, pela Funcaju, que também é uma grande incentivadora do meu trabalho, através de seus dirigentes. INFONET – Como acontece a comercialização do trabalho do forrozeiro em Sergipe? ZA –A venda de shows é o seguinte: se você quiser ser você, demora a acontecer. Sendo de qualquer jeito, você não vai ser nada porque é de qualquer jeito. Eu tenho paciência, gosto muito de Deus e meus amigos, dos profissionais de imprensa, não sou partidário e espero que um dia alguém me veja como eu sou. Meus merecimentos são sagrados, quem manda é o poderoso. Minha principal característica como profissional de música é muita alegria, eu adoro o forró e ele corre no sangue. O forrozeiro trabalha uma vez por ano. Se trabalhar de graça, consegue trabalho fazendo barzinho. Como eu não tenho tempo, faço o meu barzinho mesmo. Eu trabalho o ano todo, mas o cachê do mês de junho é o melhor. Tenho meu comércio, minha mercearia, meu barzinho aqui no mercado e vou me virando porque tenho minha família, meus filhos, uma menina na faculdade. Algumas pessoas dizem agora ‘Zé, você tá bom’, porque alguns jornais, rádio e televisão já divulgaram meu trabalho, mas eu estou bom há tanto tempo, há 10 anos de trabalho profissional. E um dia se eu ficar rico, aí vou ser o melhor sanfoneiro de Sergipe. INFONET – O que significa para você tocar no Forró Caju? ZA –Tocar no Forró Caju é um privilégio. Foi o meu terceiro ano nessa grande festa, toquei e cantei no dia 20, fui aplaudido, o povo encheu a praça, dançou. O palco Gerson Filho está uma maravilha. Meu sonho é tocar no palco Luiz Gonzaga, mas não tenho pressa, não, quero que todos me vejam como eu sou, não me enganando. Tenho certeza de que no dia que eu merecer, vou tocar nesse palco como muita alegria. Por Márcia Santos

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