A produção científica brasileira e o desmantelamento da Educação.

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Carolline Acioli Oliveira Andrade
Mestre em História (UFS)

Manifestação 15M contra o corte de verbas em universidades, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), 15/05/2019. Foto: Andre Penner/AP. Fonte: Blog da Boitempo (https://blogdaboitempo.com.br/2020/01/20/sair-da-negacao-e-defender-a-escola-publica/).

Enquanto os representantes do governo acusam as universidades federais de serem verdadeiras “plantações de maconha” e os seus pesquisadores de sanguessugas do dinheiro público dados à “balbúrdia”, uma equipe de cientistas ligados à USP e ao Instituto Adolfo Lutz decodificou o genoma do temido Corona vírus em tempo recorde. Este exemplo e os dados sobre a produção científica brasileira confrontados com a agenda bolsonarista de cortes de verbas e bolsas de pesquisa, fazem questionar o que pode levar a defesa de tal postura incoerente com a realidade brasileira e a que interesses ela corresponde.

O discurso oficial afirma que as pesquisas desenvolvidas nas universidades são irrelevantes, de baixa qualidade e até que não possuem “retorno imediato”. Porém a decodificação do genoma contribui diretamente para a criação de vacinas e o estabelecimento de diagnósticos aqui e em outras nações. Países como a Itália, que ainda enfrenta dificuldades para entender e controlar o surto da doença por não possuir a decodificação de suas amostras. Isso demonstra, mais uma vez, que a noção de que nossa produção científica é inferior a nações consideradas “de primeiro mundo” está equivocada.

Constitui, na verdade, um forte resquício colonial pelo qual se considera as realizações acadêmicas, tecnológicas, etc. do Brasil inferiores às dos países “desenvolvidos”. Esse pensamento ecoa no projeto de Estado atual e marca uma postura de subserviência aos interesses neoliberais, antigos imperialistas. Se o desenvolvimento da produção científica tem ocorrido com dificuldades, não devemos deduzir que isto se dá por uma deficiência moral e intelectual dos pesquisadores. É preciso responsabilizar o descaso histórico com a Educação, a negligência com a produção de conhecimento científico e a postura ostensiva deste governo contra educadores e pesquisadores, retratando-os como inimigos do progresso nacional.

As Ciências Humanas e Sociais são as mais ameaçadas, ainda que sua produção também se mostre notável. Dados da Web of Science mostram que esses foram os campos que apresentaram maior crescimento entre 2008 e 2017, colocando o país entre os 15 maiores produtores de conhecimento científico do mundo. Já dados da Capes (2013-2016) informam que dois em cada três livros ou capítulos de livros publicados pertencem a essas áreas. No entanto, o governo não tem interesse em dados de qualquer área. O desmantelamento da Educação é parte de um projeto de Estado que objetiva destituir a população do maior recurso de empoderamento político e equidade social que dispõe.

Como afirma a máxima, “um povo educado não pode ser dominado”. A Educação tem como propósito essencial formar sujeitos autônomos prontos para exercer sua cidadania e contribuir com o avanço da democracia. A outra alternativa é a doutrinação e a elitização, e o consequente aprofundamento das desigualdades políticas e sociais. Apesar disso tudo, a luta por um país no qual todos e todas tenham acesso à Educação democrática, à cidadania plena e a oportunidades justas de carreira deve persistir. Em tempos marcados pelo medo de uma pandemia, os autoritarismos de estado e a intolerância continuam sendo as principais ameaças às sociedades. De todo modo, devem continuar lançando suas demandas. E nós devemos permanecer ao lado dos nossos, pois sabemos bem qual é a outra alternativa, e ela não é aceitável.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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